O que é Macroevolução?
John Wilkins, 2004.
Em ciência, quando o prefixo grego “macro” aparece antes das palavras, significa “grande”, bem como “micro” significa “pequeno”. Por exemplo, um macrófago é uma célula maior que o normal, mas ela é apenas algumas vezes maior que outras células, e não algo extremamente grande.
Atualmente, na biologia evolutiva, a palavra macroevolução é usada em referência a qualquer mudança evolutiva a nível de espécie ou acima dela. Significa a divisão de uma espécie em duas (especiação ou cladogênese – do grego, “origem do ramo”) ou as mudanças numa espécie ao longo do tempo (anagênese). Algumas das mudanças que ocorrem nos níveis mais superiores, como a evolução de novas famílias, filos ou gêneros, são também macroevolução, mas o termo não é restrito à origem destes taxa elevados.
Microevolução, por outro lado, refere-se a qualquer mudança evolutiva abaixo do nível específico, e também a mudanças na freqüência dos alelos (genes alternativos) em determinada população, e seus efeitos na forma, ou fenótipo, dos organismos que constituem esta população ou espécie.
Pode-se considerar que a macroevolução é a evolução dos genes entre as espécies, ou inter-específica, enquanto a microevolução é a evolução dos genes dentro da espécie, ou intra-específica. Existem várias dinâmicas macroevolutivas. A Teoria do Equilíbrio Pontuado propõe que uma vez que as espécies foram originadas e estão adaptadas ao novo nicho ecológico em que se encontram, estas tendem a permanecer como estão pelo resto da existência. O Gradualismo Filético sugere que as espécies continuam a se adaptar a novas mudanças durante o curso de usa história natural. As Teorias da Seleção de Espécies e da Divisão de Espécies afirmam que há processos macroevolutivos que determinam mais ou menos que certas espécies existirão por um longo período de tempo antes de extinguirem-se, um tipo de paralelo com o que acontece com os genes na microevolução.
História do Conceito de Macroevolução
Na “Síntese Moderna” do Neo-Darwinismo, desenvolvida no período entre 1930 e 1950 com a conciliação da evolução pela seleção natural e da genética moderna, macroevolução é considerada como os efeitos combinados dos processos macroevolutivos. Nas teorias que propõem “evolução ortogenética” (literalmente, linha evolutiva direta), a macroevolução é considerada um processo e de um calibre diferente da microevolução. Ninguém tem sido hábil a elaborar um bom caso de ortogênese desde os anos 50, especialmente a partir da descoberta da genética molecular, entre 1952 e até o fim dos anos 60.
Anti-evolucionistas argumentam que estas não são evidências de processos macroevolutivos. Entretanto, teóricos alegam que o mesmo processo que causa mudanças das freqüências alélicas intra-específicas podem ser extrapolados para mudanças interespecíficas, portanto, este argumento falha, a não ser que sejam descobertos mecanismos para prevenção de microevolução que causem macroevolução. A cada passo em que o processo tem sido demonstrado na genética e no resto da biologia, o argumento contra a macroevolução falha.
Evolucionistas não-Darwinistas consideram que o processo que causa especiação é um tipo diferente do que ocorre dentro das espécies. Isto é, eles admitem que a macroevolução ocorre, mas cogitam que a mudança genética normal é limitada por cada mecanismo proposto como restrição ao desenvolvimento. Esta visão é associada aos nomes de Schmalhausen e Waddington, que eram caracterizados por não-Darwinistas pelos teóricos da síntese moderna.
Os termos macroevolução e microevolução foram primeiramente usados em 1927, pelo entomologista russo Iurii Filipchenko (ou Philipchenko, dependendo da transliteração), no seu trabalho em alemão intitulado Variabilität und Variation, a primeira tentativa de reconciliar a genética mendeliana e a evolução. Filipchenko foi um evolucionista, mas como ele escreveu durante o período em que o mendelismo parecia fazer com que o Darwinismo fosse redundante, o então chamado “eclipse do Darwinismo” (Bowler, 1983), ele não era Darwinista, mas ortogeneticista. Além disso, os biólogos russos do período tinham historicamente rejeitado o mecanismo Malthusiano de Darwin da evolução pela competição.
Em Genetics and de Origem of Species, Theodosius Dobzhansky, inicia dizendo que “nós fomos compelidos ao presente nível de relutante conhecimento a dar um significado entre a eqüidade dos mecanismos macro e microevolutivos.” (1937, página 12), enquanto introduzia os termos à comunidade de biólogos de língua inglesa (Alexandrov, 1994). Dobzhansky foi estudante de Filipchencko, e o estimava como seu mentor. Em ciência, é difícil negar uma doutrina maior de um professor devido à lealdade, e Dobzhansky, que definitivamente começou a síntese moderna do Darwinismo em seu livro, encontrou desapontamento ao negar a visão de seu mestre (Burian, 1994).
O termo caiu num desagrado limitado quando foi pego por autores como o geneticista Richard Goldschmidt (1940) e o paleontólogo Otto Schindewolf para descrever suas teorias ortogenéticas. Como resultado, separados de Dobzhansky, Bernhardt Rensch e Ernest Mayr, pouquíssimos autores neo-Darwinistas usaram o termo, preferindo ao invés disso, falar que a evolução é a mudança das freqüências alélicas sem mencionar o nível destas mudanças (acima ou abaixo do nível de espécie). Aqueles que o faziam estavam trabalhando geralmente dentro das tradições do continente europeu (como Dobzhansky, Mayr, Rensch, Goldschmidt and Schindewolf) e aqueles que não o faziam estavam trabalhando geralmente dentro da tradição anglo-americana (como John Maynard Smith e Richard Dawkins). Conseqüentemente, o termo é algumas vezes erroneamente usado como teste de pH se o escritor é propriamente dito um neo-Darwinista ou não (Eldredge, 1995: 126-127).
O termo tem sido reavivado por diversos autores, como Stephen Jay Gould and Niles Eldredge, autores da Teoria do Equilíbrio Pontuado (veja Macroevolutionay Dynamics, de Eldredge, 1992), mas existe a tendência nestes autores de reverter à visão ortogenética que algo além dos processos intra-específicos está causando macroevolução, embora eles não reconheçam como verdadeira a visão ortogenética de que a evolução progride em qualquer lugar.
Conclusão
Não há diferença entre micro e macroevolução, exceto que os genes entre as espécies geralmente divergem, enquanto genes dentro das espécies usualmente combinam. O mesmo processo que causa evolução intra-específica é responsável por evolução inter-específica, exceto que o processo que causa especiação incluem coisas que não podem acontecer a grupos inferiores, como a evolução ou diferenciação no sistema sexual (porque, por definição, se os organismos não podem procriar, são de espécies diferentes).
A idéia que a origem de taxa elevados, como gêneros (caninos verso felinos, por exemplo), requer algo especial, é baseada no entendimento errado dos caminhos da origem de cada novo filo (linhagens). As duas espécies que são a origem de caninos e felinos provavelmente diferiram muito pouco de seus ancestrais comuns. Mas uma vez que foram isoladas reprodutivamente uma da outra, elas desenvolveram mais e mais diferenças que compartilhavam, mas outras linhagens não. Isto é verdadeiro para todas as linhagens anteriores à primeira célula eucariótica. Igualmente, as mudanças na explosão do Cambriano eram desta forma, embora alguns (por exemplo, Gould, 1989) pensavam que os genomas (estrutura gênica) destes antigos animais não seriam firmemente regulados como os animais modernos, e por conseguinte, teriam maior liberdade para mudanças.
Referências:
Alexandrov, DA (1994). Filipchenko and Dobzhansky: Issues in Evolutionary Genetics in the 1920s. In The Evolution of Theodosius Dobzhansky. ed. MB Adams, Princeton University Press.
Bowler, PJ (1983). The Eclipse of Darwinism. Johns Hopkins University Press
Burian, RM (1994). Dobzhansky on Evolutionary Dynamics: Some Questions about His Russian Background. In The Evolution of Theodosius Dobzhansky. ed. MB Adams, Princeton University Press.
Dobzhansky, T (1937). Genetics and the Origin of Species. Columbia University Press.
Eldredge, N (1992). Macroevolutionary Dynamics: Species, Niches and Adaptive Peaks. McGraw-Hill.
Eldredge, N (1995). Reinventing Darwin: The Great Evolutionary Debate, Weidenfeld and Nicholson.
Goldschmidt, R (1940). The Material Basis of Evolution. Yale University Press.
Gould, SJ (1989). Wonderful Life: The Burgess Shale and the Nature of History. Norton.
Traduzido por Karine Kavalco, MSc.
Texto original
Traduzido e publicado sob licença de Talk Origin
Como citar esse documentoMuitas pessoas perguntaram como citar esse trabalho em artigos formais e acadêmicos. Esse trabalho é uma publicação online, publicada originalmente pelo arquivo do Talk.Origins, e em sua versão em português no Projeto Evoluindo. Há procedimentos acadêmicos padrão para citação de publicações online. As informações para referenciar o texto original encontram-se aqui.
Wilkins, J. (2004) O que é Macroevolução? Projeto Evoluindo - Biociência.org. Trad.: Karine Frehner Kavalco. [http://www.evoluindo.biociencia.org/macroevolution.htm]
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O ano em que me queiras
2
01
2011
Uma proposta de se evitar números neste texto parece esbarrar em algum sinal de impossibilidade. De qualquer forma, tentando ser o menos cansativo possível, vamos direto ao imperador Constantino que, desde o Primeiro Concílio de Niceia, em 325, aderiu às ideias do cristianismo, depois imposto à força ao povo romano, que seria a religião predominante na Europa pelos sombrios séculos seguintes, como hoje sabemos. Mas Constantino não podia saber disso. Não podia saber que aqueles territórios ao norte se chamariam Europa. Que os cristãos do futuro viriam a perseguir os não-cristãos. Que depois de mil anos isso tudo também passaria. Constantino não sabia que estava no ano 325.
Nosso calendário é uma herança de Dionísio, um monge cita, supostamente conhecedor de astronomia e matemática, que vasculhou a história da civilização romana desde a data de sua fundação e estabeleceu a contagem dos anos a partir do nascimento de Cristo, que ele fixou, em 525, no ano 1. Mas Dionísio, dito o Humilde, não considerou um período de quatro anos durante os quais o imperador Augusto governara com seu nome verdadeiro, Otávio. Por isso errou na conta. Seu calendário foi revisto pelo Papa Gregório 13, dez séculos depois, e… confirmado. O erro tornou-se oficial a partir de então. Esse, portanto, é o calendário gregoriano, que usamos hoje e que contradiz o que atestam os historiadores, comparando registros e eventos datados: Jesus nasceu antes de Cristo.
O mesmo Gregório foi quem proibiu o livro de Copérnico (De revolutionibus orbium coelestium), no qual se declara que a Terra gira em torno do Sol, não o contrário. Mas como há um limite para o poder autoinstituído pelas autoridades clericais, o Papa pôde oficializar um calendário, mas não pôde impedir o planeta Terra de obedecer a Copérnico. Mas isso já é outra história – a Terra continua girando em torno do Sol e, aos poucos, vai dando um jeito nisso tudo.
Antes de todos esses cálculos, meio confiáveis, meio arbitrários, e dos equívocos e desmandos dos sábios eclesiásticos, usava-se o calendário juliano, sucessor do chamado calendário romano. Os romanos tinham dificuldades em identificar as mudanças das estações do ano – nós, brasileiros, sabemos bem como é isso. Assim, não era consenso estabelecer as datas de plantio, entre outras necessidades. Júlio César então pediu à sua namorada, Cleópatra, que emprestasse a folhinha usada lá na sua terra e que funcionava muito bem. Pronto, aí está Roma de calendário novo, agora sim – e o mês quintilis passou a se chamar julius, em homenagem a esse célebre tirano. Os egípcios, que foram os primeiros a se orientar pelo Sol para calcular o tempo, tinham como base as enchentes do rio Nilo, que chegavam todos os anos no mesmo dia, pois no norte da África não há correntes de ar úmido que desregulem tais ciclos. Quanto a Cleópatra, esta sabia explorar sempre em seu favor as diferentes correntes da vida. Júlio César era seu amante. O Nilo era seu relógio.
Sabemos que os árabes contam os anos a partir da Hégira, o episódio da fuga de Maomé para Yatrib (hoje Medina) em 622, e que os chineses, mantendo o mais antigo calendário ainda em uso, com bichos para a identificação de cada ano e para apadrinhar cada pessoa, adotaram, em nosso 1912, a datação ocidental para facilitar as relações comerciais. Outros povos têm outras datas, outras lendas, outras festas. De qualquer forma, cada cultura tem sua convenção, seu início e final de ano, seus eventos característicos, enquanto a Terra gira para todos nós à mesma velocidade.
Bem, mas afinal quando foi que este planeta começou a girar? Lá vamos nós de novo: tomando por referência o calendário cristão, o arcebispo irlandês James Ussher, em seu estudo baseado no Livro do Gênesis e na duração da vida dos descendentes de Adão, calculou nada menos que a data da criação do mundo. O ano, 4004 a.C. Tudo começou num domingo, 27 de outubro, às nove da manhã, segundo ele. Sim, isso é que é precisão matemática, sem dúvida, embora algumas versões apontem para o 23 de outubro, às 15:30h. Mas não era bem um domingo de sol, se é que o pudéssemos ter visualizado assim. Ainda não havia o Sol.
Essa talvez tenha sido a mais curiosa trapalhada envolvendo calendários e datações. Poderíamos fazer coleções delas – se nossa paciência assim o permitisse, em nosso breve tempo de vida. Enquanto isso, o nosso velho amigo tiranossauro, extinto há 65 milhões de anos (aliás, 65,5: esse meio significa quinhentos mil anos, vamos admitir, não é qualquer coisa), parece rir na nossa cara, com sua bocarra cheia de dentes fossilizados, indiferente às nossas crenças e tábuas e contas. Também, de um animal primitivo assim, o que poderíamos esperar?
2
01
2011
Uma proposta de se evitar números neste texto parece esbarrar em algum sinal de impossibilidade. De qualquer forma, tentando ser o menos cansativo possível, vamos direto ao imperador Constantino que, desde o Primeiro Concílio de Niceia, em 325, aderiu às ideias do cristianismo, depois imposto à força ao povo romano, que seria a religião predominante na Europa pelos sombrios séculos seguintes, como hoje sabemos. Mas Constantino não podia saber disso. Não podia saber que aqueles territórios ao norte se chamariam Europa. Que os cristãos do futuro viriam a perseguir os não-cristãos. Que depois de mil anos isso tudo também passaria. Constantino não sabia que estava no ano 325.
Nosso calendário é uma herança de Dionísio, um monge cita, supostamente conhecedor de astronomia e matemática, que vasculhou a história da civilização romana desde a data de sua fundação e estabeleceu a contagem dos anos a partir do nascimento de Cristo, que ele fixou, em 525, no ano 1. Mas Dionísio, dito o Humilde, não considerou um período de quatro anos durante os quais o imperador Augusto governara com seu nome verdadeiro, Otávio. Por isso errou na conta. Seu calendário foi revisto pelo Papa Gregório 13, dez séculos depois, e… confirmado. O erro tornou-se oficial a partir de então. Esse, portanto, é o calendário gregoriano, que usamos hoje e que contradiz o que atestam os historiadores, comparando registros e eventos datados: Jesus nasceu antes de Cristo.
O mesmo Gregório foi quem proibiu o livro de Copérnico (De revolutionibus orbium coelestium), no qual se declara que a Terra gira em torno do Sol, não o contrário. Mas como há um limite para o poder autoinstituído pelas autoridades clericais, o Papa pôde oficializar um calendário, mas não pôde impedir o planeta Terra de obedecer a Copérnico. Mas isso já é outra história – a Terra continua girando em torno do Sol e, aos poucos, vai dando um jeito nisso tudo.
Antes de todos esses cálculos, meio confiáveis, meio arbitrários, e dos equívocos e desmandos dos sábios eclesiásticos, usava-se o calendário juliano, sucessor do chamado calendário romano. Os romanos tinham dificuldades em identificar as mudanças das estações do ano – nós, brasileiros, sabemos bem como é isso. Assim, não era consenso estabelecer as datas de plantio, entre outras necessidades. Júlio César então pediu à sua namorada, Cleópatra, que emprestasse a folhinha usada lá na sua terra e que funcionava muito bem. Pronto, aí está Roma de calendário novo, agora sim – e o mês quintilis passou a se chamar julius, em homenagem a esse célebre tirano. Os egípcios, que foram os primeiros a se orientar pelo Sol para calcular o tempo, tinham como base as enchentes do rio Nilo, que chegavam todos os anos no mesmo dia, pois no norte da África não há correntes de ar úmido que desregulem tais ciclos. Quanto a Cleópatra, esta sabia explorar sempre em seu favor as diferentes correntes da vida. Júlio César era seu amante. O Nilo era seu relógio.
Sabemos que os árabes contam os anos a partir da Hégira, o episódio da fuga de Maomé para Yatrib (hoje Medina) em 622, e que os chineses, mantendo o mais antigo calendário ainda em uso, com bichos para a identificação de cada ano e para apadrinhar cada pessoa, adotaram, em nosso 1912, a datação ocidental para facilitar as relações comerciais. Outros povos têm outras datas, outras lendas, outras festas. De qualquer forma, cada cultura tem sua convenção, seu início e final de ano, seus eventos característicos, enquanto a Terra gira para todos nós à mesma velocidade.
Bem, mas afinal quando foi que este planeta começou a girar? Lá vamos nós de novo: tomando por referência o calendário cristão, o arcebispo irlandês James Ussher, em seu estudo baseado no Livro do Gênesis e na duração da vida dos descendentes de Adão, calculou nada menos que a data da criação do mundo. O ano, 4004 a.C. Tudo começou num domingo, 27 de outubro, às nove da manhã, segundo ele. Sim, isso é que é precisão matemática, sem dúvida, embora algumas versões apontem para o 23 de outubro, às 15:30h. Mas não era bem um domingo de sol, se é que o pudéssemos ter visualizado assim. Ainda não havia o Sol.
Essa talvez tenha sido a mais curiosa trapalhada envolvendo calendários e datações. Poderíamos fazer coleções delas – se nossa paciência assim o permitisse, em nosso breve tempo de vida. Enquanto isso, o nosso velho amigo tiranossauro, extinto há 65 milhões de anos (aliás, 65,5: esse meio significa quinhentos mil anos, vamos admitir, não é qualquer coisa), parece rir na nossa cara, com sua bocarra cheia de dentes fossilizados, indiferente às nossas crenças e tábuas e contas. Também, de um animal primitivo assim, o que poderíamos esperar?
domingo, 6 de fevereiro de 2011
INSCRIÇÕES ABERTAS para o Messias:
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Se algum cristão quiser inscrever Jesus como Messias, é só provar que estas profecias qualificativas foram cumpridas.
Qualificações para o Messias:
As qualificações são os pré-requisitos que necessariamente deverá ter o Messias, não sendo limitado somente a estas, mas incluindo as seguintes:
A – Descendente do Rei David através de Salomão
O Messias será um descendente biológico do Rei David através de seu filho Salomão que foi sucessor ao trono, o qual construiu o Templo Sagrado em Jerusalém. (veja I Reis 8:15-20; I Cron 17:11-15, 22:9-10, 28:3-7):
B – Líder Espiritual e Político/Militar em Israel
O Messias terá um profundo conhecimento da Torah, será uma autoridade que influenciará todo Israel para seguir a Palavra de H-shem, num ambiente criado por sua liderança espiritual. Também derrotará e conquistará os inimigos de Israel. Com sendo mortal, um ser humano de carne e osso, habitante de um mundo cheio de exigências militares e alinhamentos políticos, terá que lidar com essas realidades e sairá vitorioso, sua liderança política será reconhecida em todo mundo.(veja Isaías 2:3, 11:2, Dan. 7:14)
C – Será casado e terá filhos
Embora não sejam declarados o casamento e os filhos como pré-requisitos para o Messias, há uma clara indicação de que o Príncipe que é o Rei Messias (veja em Ezeq. 34:23-24, 37:24), durante a era messiânica terá filhos (por matrimonio), onde receberão uma porção na herança. (Ezeq. 46:16-17)
Acontecimentos e Realizações
Alguns cumprimentos significativos deverão ocorrer antes, durante e no término da era messiânica, não sendo necessariamente limitado aos itens abaixo, porém devem incluí-los:
Continua...
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continuação...
.
A – Vinda de Elias, o profeta.
O profeta Elias, aquele que foi levado numa carruagem de fogo (II Reis 2:11), procederá ao Messias e "preparará o caminho" para sua manifestação, anunciando o inicio da era messiânica, onde o mundo passará por algumas transformações. (Veja Malaquias 3:23[4:5])
O profeta Elias, aquele que foi levado numa carruagem de fogo (II Reis 2:11), procederá ao Messias e "preparará o caminho" para sua manifestação, anunciando o inicio da era messiânica, onde o mundo passará por algumas transformações. (Veja Malaquias 3:23[4:5])
B – Construção do Terceiro Templo em Jerusalém
A presença do terceiro Templo é talvez a descrição mais detalhada e vivida na era messiânica, como podemos ver na Bíblia Hebraica em Ezequiel 37:26-28 e posteriormente nos capítulos 40 a 48, onde o Profeta faz uma descrição detalhada do Terceiro Templo e dos rituais dentro do mesmo.
C – Agrupamento da Casa de Jacó dentre as nações para Israel.
O Messias congregará a Casa de Jacó, removendo o Exílio e os trará para a Terra prometida de Israel em preparação para a restauração do cisma que ocorreu depois do reinado de Salomão. (veja Isaias 11:12, 43:5-6; Jer. 16:15, 23:3, 33:7; Ezeq. 37:21-22; Zac. 10:6-10).
D – Reunificação de Judá e Israel num só povo.
Outra realização que ocorrerá com a presença do Messias será o retorno de Judá e de Israel, fazendo deles um só povo; uma única nação, como nos tempos do Rei David. (Ezeq. 37:22).
E – Paz Mundial
O Messias será reconhecido como justo juiz e pacificador, e na era messiânica, serão resolvidas as disputas entre os paises através de métodos pacíficos e não por guerra. (Isaías 2:4).
F – Conhecimento Universal de D-us
Haverá um conhecimento de D-us, de Seu poder, de Seus atributos em toda terra, como as águas cobrem o mar, cessando a destruição e a violência. (Isaias 11: 9; Jer. 31:34)
Continua...
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Final.
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G – Ressurreição dos Mortos
Analisemos três classificações de mundo:
a - Nossa realidade atual (Olam Hazê).
b - A Era de Mashiach (Yemot Hamashiach)
c - O Mundo Vindouro (Olam Habá).
O primeiro é o mundo que atualmente vivemos, alheio ao conhecimento e temor de D-us, repleto de violências, injustiças e guerras. Breve, entraremos na era messiânica, que é esse mesmo mundo nosso, porém com a manifestação do poder de Hashem, não havendo a corrupção dos homens, onde haverá acontecimentos e realizações que elevará a raça humana ao pico de seu potencial natural. Mas ainda a morte continuará existindo, como um fenômeno natural do fim do físico (ex. Is. 65:20), contudo a era messiânica será uma preparação para o Olam Habá (Mundo Vindouro), onde nessa transição haverá a ressurreição dos mortos, sendo que os justos viverão e estarão no Mundo Vindouro, um mundo conforme o propósito inicial de D-us (lembrar Gan Edem (jardim do Édem)) (veja Isaias 26:19; Dn. 12:2).
*Retirado de site Judaico.
Shalama.
Cogitando...
Fonte: IVOAV
Kopher
Só um comentário...
Na opinião dos estudiosos, o que se deu foi o contrário: os evangelistas bíblicos transformaram as profecias veterotestamentárias em narrativas para dar um fundo estórico lenda de Jesus. Eis as palavras de Borg e Crossan:
A Bíblia Judaica era a escritura sagrada dos primeiros cristãos e muitos deles a conheciam bem, alguns por ouvi-la oralmente, outros por serem capazes de lê-la. Assim, enquanto contavam a história de Jesus, eles usavam linguagem da Bíblia judaica para fazê-lo.
Essa prática produziu o que chamamos de “profecia historicizada”. Uma narrativa do passado (neste caso, da Bíblia judaica) é “historicizada” ao ser usada em uma narrativa subseqüente (os evangelhos e o Novo Testamento). “Historicizar” aqui não torna algo histórico ou historicamente factual. Simplesmente significa usar uma passagem antiga em uma história mais nova na tentativa de ligar essa história mais nova à tradição anterior e lhe dar — credibilidade
Para ilustrar o processo, usamos dois exemplos de Mateus, o mestre da profecia “historicizada’ Em sua história sobre a infância de Jesus, Este e sua família voltavam do Egito depois de terem fugido para lá escapando à perseguição de Herodes. Mateus disse que a volta deles cumpriu uma passagem do profeta Oséias: “Do Egito chamei meu filho (11:1).” Em Oséias, essa passagem refere-se ao êxodo. Fala do amor de Deus por Israel e as coisas que Deus fez por ele, em especial a libertação durante o êxodo — Deus está “chamando seu filho”, Israel, “do Egito”. Mateus pegou essa passagem e disse que ela referia-se a Deus chamando seu “filho” — Jesus — do Egito. Isso foi uma profecia historicizada: usar uma passagem do Velho Testamento para narrar uma história posterior.
Kopher
Em um segundo exemplo, Mateus conta a história do suicídio de Judas, perto do fim de seu evangelho; ele “historiciza” uma passagem dos profetas ligando-a ao preço da traição de Jesus: trinta moedas de prata. Em 27:9, Mateus ecoa uma passagem de Zacarias 11:13 (erradamente atribuída a Jeremias), que se refere a trinta shekels de prata sendo devolvidos ao tesouro do templo.
Algumas vezes é difícil discernir se a “profecia historicizada” está sendo usada para comentar algo que aconteceu ou se está sendo usada para gerar uma narrativa ou um detalhe em uma narrativa. Mas esse discernimento não é nossa preocupação atual. O ponto a enfatizar é o uso de passagens da Bíblia judaica ao narrar a história de Jesus e sua influência sobre a estrutura interpretativa do narrador.
BORG, M. J.; CROSSAN, J. D. The First Christmas: What the gospels really teach about Jesus's birth. San Francisco: HarperOne, 2007. pp.185-186.
VΔ╙ĐΔ€ľГ ¬¬'
Conclusão:
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A religião Cristã então se resume em MAQUIAGEM BÍBLICA? É isto?
Shalama.
Cogitando...
Fonte: IVOAV
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Se algum cristão quiser inscrever Jesus como Messias, é só provar que estas profecias qualificativas foram cumpridas.
Qualificações para o Messias:
As qualificações são os pré-requisitos que necessariamente deverá ter o Messias, não sendo limitado somente a estas, mas incluindo as seguintes:
A – Descendente do Rei David através de Salomão
O Messias será um descendente biológico do Rei David através de seu filho Salomão que foi sucessor ao trono, o qual construiu o Templo Sagrado em Jerusalém. (veja I Reis 8:15-20; I Cron 17:11-15, 22:9-10, 28:3-7):
B – Líder Espiritual e Político/Militar em Israel
O Messias terá um profundo conhecimento da Torah, será uma autoridade que influenciará todo Israel para seguir a Palavra de H-shem, num ambiente criado por sua liderança espiritual. Também derrotará e conquistará os inimigos de Israel. Com sendo mortal, um ser humano de carne e osso, habitante de um mundo cheio de exigências militares e alinhamentos políticos, terá que lidar com essas realidades e sairá vitorioso, sua liderança política será reconhecida em todo mundo.(veja Isaías 2:3, 11:2, Dan. 7:14)
C – Será casado e terá filhos
Embora não sejam declarados o casamento e os filhos como pré-requisitos para o Messias, há uma clara indicação de que o Príncipe que é o Rei Messias (veja em Ezeq. 34:23-24, 37:24), durante a era messiânica terá filhos (por matrimonio), onde receberão uma porção na herança. (Ezeq. 46:16-17)
Acontecimentos e Realizações
Alguns cumprimentos significativos deverão ocorrer antes, durante e no término da era messiânica, não sendo necessariamente limitado aos itens abaixo, porém devem incluí-los:
Continua...
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continuação...
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A – Vinda de Elias, o profeta.
O profeta Elias, aquele que foi levado numa carruagem de fogo (II Reis 2:11), procederá ao Messias e "preparará o caminho" para sua manifestação, anunciando o inicio da era messiânica, onde o mundo passará por algumas transformações. (Veja Malaquias 3:23[4:5])
O profeta Elias, aquele que foi levado numa carruagem de fogo (II Reis 2:11), procederá ao Messias e "preparará o caminho" para sua manifestação, anunciando o inicio da era messiânica, onde o mundo passará por algumas transformações. (Veja Malaquias 3:23[4:5])
B – Construção do Terceiro Templo em Jerusalém
A presença do terceiro Templo é talvez a descrição mais detalhada e vivida na era messiânica, como podemos ver na Bíblia Hebraica em Ezequiel 37:26-28 e posteriormente nos capítulos 40 a 48, onde o Profeta faz uma descrição detalhada do Terceiro Templo e dos rituais dentro do mesmo.
C – Agrupamento da Casa de Jacó dentre as nações para Israel.
O Messias congregará a Casa de Jacó, removendo o Exílio e os trará para a Terra prometida de Israel em preparação para a restauração do cisma que ocorreu depois do reinado de Salomão. (veja Isaias 11:12, 43:5-6; Jer. 16:15, 23:3, 33:7; Ezeq. 37:21-22; Zac. 10:6-10).
D – Reunificação de Judá e Israel num só povo.
Outra realização que ocorrerá com a presença do Messias será o retorno de Judá e de Israel, fazendo deles um só povo; uma única nação, como nos tempos do Rei David. (Ezeq. 37:22).
E – Paz Mundial
O Messias será reconhecido como justo juiz e pacificador, e na era messiânica, serão resolvidas as disputas entre os paises através de métodos pacíficos e não por guerra. (Isaías 2:4).
F – Conhecimento Universal de D-us
Haverá um conhecimento de D-us, de Seu poder, de Seus atributos em toda terra, como as águas cobrem o mar, cessando a destruição e a violência. (Isaias 11: 9; Jer. 31:34)
Continua...
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Final.
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G – Ressurreição dos Mortos
Analisemos três classificações de mundo:
a - Nossa realidade atual (Olam Hazê).
b - A Era de Mashiach (Yemot Hamashiach)
c - O Mundo Vindouro (Olam Habá).
O primeiro é o mundo que atualmente vivemos, alheio ao conhecimento e temor de D-us, repleto de violências, injustiças e guerras. Breve, entraremos na era messiânica, que é esse mesmo mundo nosso, porém com a manifestação do poder de Hashem, não havendo a corrupção dos homens, onde haverá acontecimentos e realizações que elevará a raça humana ao pico de seu potencial natural. Mas ainda a morte continuará existindo, como um fenômeno natural do fim do físico (ex. Is. 65:20), contudo a era messiânica será uma preparação para o Olam Habá (Mundo Vindouro), onde nessa transição haverá a ressurreição dos mortos, sendo que os justos viverão e estarão no Mundo Vindouro, um mundo conforme o propósito inicial de D-us (lembrar Gan Edem (jardim do Édem)) (veja Isaias 26:19; Dn. 12:2).
*Retirado de site Judaico.
Shalama.
Cogitando...
Fonte: IVOAV
Kopher
Só um comentário...
Na opinião dos estudiosos, o que se deu foi o contrário: os evangelistas bíblicos transformaram as profecias veterotestamentárias em narrativas para dar um fundo estórico lenda de Jesus. Eis as palavras de Borg e Crossan:
A Bíblia Judaica era a escritura sagrada dos primeiros cristãos e muitos deles a conheciam bem, alguns por ouvi-la oralmente, outros por serem capazes de lê-la. Assim, enquanto contavam a história de Jesus, eles usavam linguagem da Bíblia judaica para fazê-lo.
Essa prática produziu o que chamamos de “profecia historicizada”. Uma narrativa do passado (neste caso, da Bíblia judaica) é “historicizada” ao ser usada em uma narrativa subseqüente (os evangelhos e o Novo Testamento). “Historicizar” aqui não torna algo histórico ou historicamente factual. Simplesmente significa usar uma passagem antiga em uma história mais nova na tentativa de ligar essa história mais nova à tradição anterior e lhe dar — credibilidade
Para ilustrar o processo, usamos dois exemplos de Mateus, o mestre da profecia “historicizada’ Em sua história sobre a infância de Jesus, Este e sua família voltavam do Egito depois de terem fugido para lá escapando à perseguição de Herodes. Mateus disse que a volta deles cumpriu uma passagem do profeta Oséias: “Do Egito chamei meu filho (11:1).” Em Oséias, essa passagem refere-se ao êxodo. Fala do amor de Deus por Israel e as coisas que Deus fez por ele, em especial a libertação durante o êxodo — Deus está “chamando seu filho”, Israel, “do Egito”. Mateus pegou essa passagem e disse que ela referia-se a Deus chamando seu “filho” — Jesus — do Egito. Isso foi uma profecia historicizada: usar uma passagem do Velho Testamento para narrar uma história posterior.
Kopher
Em um segundo exemplo, Mateus conta a história do suicídio de Judas, perto do fim de seu evangelho; ele “historiciza” uma passagem dos profetas ligando-a ao preço da traição de Jesus: trinta moedas de prata. Em 27:9, Mateus ecoa uma passagem de Zacarias 11:13 (erradamente atribuída a Jeremias), que se refere a trinta shekels de prata sendo devolvidos ao tesouro do templo.
Algumas vezes é difícil discernir se a “profecia historicizada” está sendo usada para comentar algo que aconteceu ou se está sendo usada para gerar uma narrativa ou um detalhe em uma narrativa. Mas esse discernimento não é nossa preocupação atual. O ponto a enfatizar é o uso de passagens da Bíblia judaica ao narrar a história de Jesus e sua influência sobre a estrutura interpretativa do narrador.
BORG, M. J.; CROSSAN, J. D. The First Christmas: What the gospels really teach about Jesus's birth. San Francisco: HarperOne, 2007. pp.185-186.
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Conclusão:
.
A religião Cristã então se resume em MAQUIAGEM BÍBLICA? É isto?
Shalama.
Cogitando...
Fonte: IVOAV
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Resumo do Livro por:Epicuro Autores: Miles; Jack
Summary rating: 2 stars (14 Avaliações) Visitas : 1404Palavras:600 Ads by Google
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Publicado em 1995 pelo Jornalista e Doutor em Línguas do Oriente Próximo, Jack Miles, Deus – Uma Biografia é uma erudita e original discussão a respeito de Deus.O autor parte da seguinte constatação: quer acreditemos ou não na existência real do Deus Judeo- Cristão, o fato indiscutível é que ele é o personagem central do maior best-seller de todos os tempos: a Bíblia. Nessa perspectiva o autor se propõe não a uma discussão sobre a existência ou não de Deus, mas sim a uma análise de como esse personagem se apresenta na Bíblia. E aqui temos de fazer algumas especificações: 1) Em que pese nos dois testamentos a figura de Deus aparecer, é no antigo testamento que ele se faz mais presente, portanto é aí que o autor vai centrar sua exposição; 2) A Bíblia Cristã, tal como editada, organiza toda a sua apresentação para anunciar o advento de Cristo; portanto, é no Tanach judeu que vai concentrar sua discussão. Não que os livros sejam distintos, apenas sua organização cronológica e seu comprometimento teleológico, o Tanach judeu não tem em Cristo seu telos, e portanto o Deus que ali aparece não é comprometido com esse fim.Enquanto análise de um personagem, Miles trata 'Deus' como trataria qualquer outro personagem de qualquer outro livro. Nessa perspectiva começa sua discussão sobre o aparecimento de Deus no livro do Gêneses Em que pese dois relatos distintos, um mais elaborado e outro menos elaborado, o Deus que surge aí é, em primeiro lugar, um personagem solitário: não existem outros deuses com os quais possa dialogar e nenhuma realidade na qual possa se inserir já que, supostamente, é ele o autor de toda a realidade. Cria pois todas as coisas enquanto distintas de sí, e cria o homem, enquanto espelho de si, imagem e semelhança nos diz o livro sagrado. Tanto as coisas, quanto o homem, são primeiro criadas e depois constatadas como sendo boas. Deus, sem qualquer parâmetro anterior de comparação, precisa primeiro do objeto criado para só depois emitir sua avaliação. Nesse sentido, nos Miles, Deus é alguém que aprende com sua criação; as próprias noções morais ainda não existem para o personagem, já que o único preceito que dá ao homem é não comer dos frutos da árvore do conhecimento, porque não? Por que ali não existe nada, já que Deus ainda não aprendeu. Mesmo quando Caim mata Abel, Deus só descobre ser isso errado após o ato dos mortais e não antes, já que nunca o proibiu, o mesmo se dá com o episódio da Torre de Babel, da destruição de Sodoma e Gomorra, etc...Para Miles, em todos os episódios do Tanach o que podemos observar é a evolução da consciência de Deus a respeito de si mesmo, descobre noções de certo e errado ao se deparar com condutas humanas e desaprová-las. Descobre, por exemplo, sua imensa vaidade no livro de Jó, ao submeter um bom homem a infindáveis tormentos apenas por ter sido provocado pelo seu adversário – Satanás. E o curioso é que se irrita ao seu questionado por Jó sobre suas razões, ou seja, Deus se descobre vaidoso e não gosta disso...Todo o livro de Miles é assim um fascinante desvelamento do mais famoso personagem da literatura ocidental em sua jornada de auto-conhecimento que talvez possa ser sintetiza da seguinte maneira: Deus, tal como aparece no Tanach, nada mais é do que uma criança grande, dotada de poder absoluto, que criou e realidade e o homem para descobrir a si mesmo e que, no final da jornada, não gosta nenhum pouco do que descobre.
Mais sobre: Deus – Uma Biografia
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Publicado em 1995 pelo Jornalista e Doutor em Línguas do Oriente Próximo, Jack Miles, Deus – Uma Biografia é uma erudita e original discussão a respeito de Deus.O autor parte da seguinte constatação: quer acreditemos ou não na existência real do Deus Judeo- Cristão, o fato indiscutível é que ele é o personagem central do maior best-seller de todos os tempos: a Bíblia. Nessa perspectiva o autor se propõe não a uma discussão sobre a existência ou não de Deus, mas sim a uma análise de como esse personagem se apresenta na Bíblia. E aqui temos de fazer algumas especificações: 1) Em que pese nos dois testamentos a figura de Deus aparecer, é no antigo testamento que ele se faz mais presente, portanto é aí que o autor vai centrar sua exposição; 2) A Bíblia Cristã, tal como editada, organiza toda a sua apresentação para anunciar o advento de Cristo; portanto, é no Tanach judeu que vai concentrar sua discussão. Não que os livros sejam distintos, apenas sua organização cronológica e seu comprometimento teleológico, o Tanach judeu não tem em Cristo seu telos, e portanto o Deus que ali aparece não é comprometido com esse fim.Enquanto análise de um personagem, Miles trata 'Deus' como trataria qualquer outro personagem de qualquer outro livro. Nessa perspectiva começa sua discussão sobre o aparecimento de Deus no livro do Gêneses Em que pese dois relatos distintos, um mais elaborado e outro menos elaborado, o Deus que surge aí é, em primeiro lugar, um personagem solitário: não existem outros deuses com os quais possa dialogar e nenhuma realidade na qual possa se inserir já que, supostamente, é ele o autor de toda a realidade. Cria pois todas as coisas enquanto distintas de sí, e cria o homem, enquanto espelho de si, imagem e semelhança nos diz o livro sagrado. Tanto as coisas, quanto o homem, são primeiro criadas e depois constatadas como sendo boas. Deus, sem qualquer parâmetro anterior de comparação, precisa primeiro do objeto criado para só depois emitir sua avaliação. Nesse sentido, nos Miles, Deus é alguém que aprende com sua criação; as próprias noções morais ainda não existem para o personagem, já que o único preceito que dá ao homem é não comer dos frutos da árvore do conhecimento, porque não? Por que ali não existe nada, já que Deus ainda não aprendeu. Mesmo quando Caim mata Abel, Deus só descobre ser isso errado após o ato dos mortais e não antes, já que nunca o proibiu, o mesmo se dá com o episódio da Torre de Babel, da destruição de Sodoma e Gomorra, etc...Para Miles, em todos os episódios do Tanach o que podemos observar é a evolução da consciência de Deus a respeito de si mesmo, descobre noções de certo e errado ao se deparar com condutas humanas e desaprová-las. Descobre, por exemplo, sua imensa vaidade no livro de Jó, ao submeter um bom homem a infindáveis tormentos apenas por ter sido provocado pelo seu adversário – Satanás. E o curioso é que se irrita ao seu questionado por Jó sobre suas razões, ou seja, Deus se descobre vaidoso e não gosta disso...Todo o livro de Miles é assim um fascinante desvelamento do mais famoso personagem da literatura ocidental em sua jornada de auto-conhecimento que talvez possa ser sintetiza da seguinte maneira: Deus, tal como aparece no Tanach, nada mais é do que uma criança grande, dotada de poder absoluto, que criou e realidade e o homem para descobrir a si mesmo e que, no final da jornada, não gosta nenhum pouco do que descobre.
Mais sobre: Deus – Uma Biografia
Deus - Uma biografia
Pesquisadores revelam que Javé, o grande personagem da Bíblia, não foi visto sempre como Deus único. Antes do Livro Sagrado, ele era só mais um entre muitas divindades. Saiba como Deus conquistou seu espaço no céu. E na Terra
por José Lopes e Alexandre Versignassi
Deus criou o Universo.
Deus está em todos os lugares.
Deus é a força que nos une.
Cada sociedade vê a figura do Criador à sua maneira. Cada indivíduo, até. Para Einstein, Ele era as leis que governam o tempo e o espaço - a natureza em sua acepção mais profunda. Para os ateus, Deus é uma ilusão. Para o papa Bento 16, é o amor, a caridade. "Quem ama habita Deus; ao mesmo tempo, Deus habita quem ama", escreveu em sua primeira encíclica.
Pontos de vista à parte, toda cultura humana já teve seu Deus. Seus deuses, na maioria dos casos: seres divinos que interagiam entre si em mitologias de enredo farto, recheadas de brigas, lágrimas, reconciliações. Os deuses eram humanos.
Mas isso mudou. A imagem divina que se consolidou é bem diferente. Deus ganhou letra maiúscula na cultura ocidental. Os panteões divinos acabaram. Deus tornou-se único. É o Deus da Bíblia, Javé, o criador da luz e da humanidade. O pai de Jesus. Essa concepção, que hoje parece eterna, de tanto que a conhecemos, não nasceu pronta. Ela é fruto de fatos históricos que aconteceram antes de a Bíblia ter sido escrita. O próprio Javé já foi uma divindade entre muitas. Fez parte de um panteão do qual não era nem o chefe. O fato de ele ter se tornado o Deus supremo, então, é marcante: se fosse entre os deuses gregos, seria como se uma divindade de baixo escalão, como o Cupido, tivesse ascendido a uma posição maior que a de Zeus É essa história que vamos contar aqui. A história de Javé, a figura que começou como um pequeno deus do deserto e depois moldaria a forma como cada um de nós entende a ideia de Deus, não importando quem ou o que Deus seja para você.
Criança
No princípio, Ele não sabia falar. Só chorava, grunhia e balbuciava. Deus era uma criança. Uma não, muitas: um deus era a chuva, outro deus, o Sol, mais outro, o trovão... Os deuses eram as forças por trás de uma natureza inexplicável para os primeiros humanos da Terra. Facetas de divindades borbulhavam em cachoeiras, galopavam com os cavalos selvagens, voavam com o vento, escondiam-se em cada rochedo, bosque ou duna do deserto. E do deserto veio a que daria origem ao Deus para valer.
Deuses nasceram do pôquer. A crença em divindades provavelmente vem da capacidade humana de detectar as intenções das outras pessoas. Somos muito bons nisso desde que surgimos, há 200 mil anos, e precisamos ser mesmo, porque o Homo sapiens sempre levou a vida social mais complicada do reino animal, sempre em comunidades cheias de intrigas, fingimentos, traições. Saber o que se passa na cabeça do outro era questão de sobrevivência - e até certo ponto ainda é.
E a melhor maneira de tentar se antecipar a um adversário nos jogos mentais do dia a dia é imaginar as intenções dele: "O que será que ele pensa que eu estou pensando?" Nosso cérebro é uma máquina de pôquer.
Pesquisadores como o antropólogo francês Pascal Boyer defendem que esse sistema de detecção de intenções pode acabar aplicado a coisas que não têm intenções de nenhum tipo - como a chuva, ou o Sol. A ideia de que há espíritos de toda sorte da natureza seria, assim, um efeito colateral do nosso sistema de detecção de mentes, tão hiperativo.
Por esse ponto de vista, a espiritualidade faz parte dos nossos instintos. É quase tão natural acreditar em divindades quanto comer ou dormir.
Cada fenômeno da natureza, então, representava as intenções de alguma divindade. É como ainda acontece nas tribos de caçadores-coletores de hoje. Entre os índios tupis, os trovões são a raiva do deus Tupã. E fim de papo.
Obras de arte de mais de 30 mil anos atrás dão outra pista sobre essa espiri-tualidade primitiva - que podemos chamar de "infância de Deus" (no caso, dos deuses). Elas mostram seres que misturam características humanas e animais - sujeitos com cabeça de leão ou de rena e corpo de gente, por exemplo.
Acredita-se que essas criaturas híbridas representem um tipo de crença que ainda é comum nas tribos indígenas: a de que não haveria separação rígida entre o mundo dos humanos, o dos animais e o dos espíritos. Seria possível transitar entre essas esferas se você possuísse o conhecimento correto, e, em tese, qualquer falecido, seja pessoa, seja bicho, pode ter um papel parecido com o que associamos normalmente a um deus.
Os deuses abandonam de vez as feições animais quando os bichos se tornam menos importantes no nosso cotidiano. Foi precisamente o que aconteceu quando a agricultura foi criada, há 10 mil anos, no Oriente Médio. Graças a ela, montamos as primeiras cidades. E a nossa espiritualidade progrediria junto: acabaria bem mais centrada nas pessoas que na natureza selvagem.
Há sinais de que ancestrais mortos eram as grandes entidades com status divino nessas primeiras cidades. Um exemplo arqueológico vem de escavações em Jericó, uma das mais antigas aglomerações humanas, que hoje fica no território palestino da Cisjordânia. Os habitantes de Jericó enterravam o corpo de seus mortos, mas guardavam o crânio, que era recoberto com camadas de gesso e tinta, simulando o rosto humano. Assim preparada, a caveira talvez servisse de oráculo doméstico - uma espécie de deus particular para cada família.
Os artesãos de crânios de Jericó não tinham escrita - aliás, passariam mais de 5 mil anos até que essa tecnologia fosse inventada. Quando isso finalmente aconteceu, em torno do ano 2000 a.C., os deus ficaram bem mais sofisticados.
Entraram em cena criaturas ao estilo dos habitantes do Olimpo na mitologia grega. Em parte, alguns deles até eram mesmo personificações das forças da natureza, mas agora eles ganhavam personalidades e biografias complexas.
É aí que está a origem do grande personagem desta história: Javé, uma divindade que provavelmente começou como um deus menor, cultuado por nômades. Bem antes de a Bíblia ser escrita.
Cabeça de leão
Estátuas e pinturas de povos caçadores, que viviam nas cavernas da Europa há 30 mil anos, mostram figuras que misturam formas de homens e de animais. Tudo indica que esses foram os primeiros deuses a habitar a mente humana.
Jovem
O rapaz era uma divindade dos desertos do sul. Junto com seus poucos súditos, chegaria à pulsante Canãa, domínio do deus El, o altíssimo. Ao lado do soberano, a mãe de divindades e homens, Asherah, senhora de tudo o que é fértil, e seu sucessor, Baal, o deus que dava chuvas àquelas paisagens àridas. Tudo na santa paz. Eles só não imaginavam que Javé tramava a destruição deles.
Ele começou de baixo. Era só mais um deus entre vários outros de sua região. Só que na Bíblia Javé é identificado como o Deus único. Hoje, cogitar a existência de outras divindades que teriam convivido com o Senhor da Bíblia é um absurdo do ponto de vista religioso. Mas não do ponto de vista científico. Pesquisadores de várias áreas - arqueólogos, linguistas, teólogos - estão encontrando pistas sobre uma provável "vida pregressa" de Javé. Uma vida mitológica que ele teve antes de seu nome ir parar na Bíblia como o da entidade que criou tudo.
Onde pesquisar isso? A própria Bíblia é uma fonte. O Livro Sagrado não foi feito de uma vez. Trata-se de uma coleção de textos escritos ao longo de séculos. O Pentateuco, os 5 primeiros livros da Bíblia, foi finalizado por volta de 550 a.C. Mas há textos ali de 1000 a.C., ou de antes. E nada disso foi editado em ordem cronológica - em grande parte, a Bíblia é uma junção de textos independentes, cada um escrito em tempos e realidades diferentes.
Como saber a que tempo e a que realidade cada um pertence? Pela linguagem. Pesquisadores analisam as expressões do texto original, em hebraico, e vão comparando com a de documentos encontrados em escavações arqueológicas, cuja datação é fácil de determinar. Com esse método, chegaram a uma descoberta reveladora. Alguns poemas da Bíblia dão a entender que Javé era uma divindade de lugares chamados Teiman ou Paran - dizendo literalmente que o deus veio dessas regiões. E esses textos estão justamente entre os mais antigos - se a língua do livro fosse o português moderno, eles estariam mais para Camões.
Teiman e Paran eram lugares desérticos fora das fronteiras onde viviam os homens que escreveram a Bíblia. Não se sabe exatamente que regiões eram essas, já que os nomes dos territórios vão mudando ao longo dos séculos. "Mas arqueólogos supõem que essa região seja no noroeste da atual Arábia Saudita", diz Mark Smith, professor de estudos bíblicos da Universidade de Nova York. E isso diz muito.
Os autores dos primeiros textos da Bíblia viviam na antiga Canaã - uma região do Oriente Médio onde hoje estão Israel, os territórios palestinos e partes da Síria e do Líbano. Ali se formaram algumas das primeiras civilizações da história, há 10 mil anos. E por volta de 1000 a.C. já era um território disputado (como nunca deixou de ser, por sinal). Estava dividido numa miríade de tribos, as dos israelitas, a dos hititas, a dos jebedeus...
Apesar das rivalidades, todas tinham culturas parecidas. Reverenciavam o mesmo panteão de deuses, por exemplo. Mas Javé, pelo jeito, não era um deles. Teria sido importado das áreas mais desérticas do sul.
Outra evidência disso é a associação de seu nome com os chamados shasu. Shasu é um termo egípcio que significa "nômade" ou "beduíno". Algumas inscrições egípcias mencionam um "Javé dos Shasu".
Uma possibilidade, então, é que nômades do deserto teriam se incorporado às tribos israelitas, trazendo o novo deus com eles. Essa divindade se embrenharia no meio da grande mitologia desse povo: o panteão de deuses cananeus. Mas quem eram essas divindades? As melhores pistas a esse respeito vêm de Ugarit, uma antiga cidade encontrada durante escavações arqueológicas na atual Síria. Ela foi destruída por invasores em 1200 a.C., quando os israelitas ainda eram um povo em formação. As inscrições encontradas ali, então, servem como uma cápsula do tempo. Revelam o contexto cultural em que nasceu a mitologia israelita, mostra como era a mitologia dos antepassados dos escritores da Bíblia. E os deuses em que eles acreditavam seriam fundamentais para a biografia de Javé. O panteão de Ugarit é bem grandinho, mas algumas figuras se destacam. Há o pai dos deuses e dos homens, o idoso, bondoso e barbudo El; sua esposa, Asherah, deusa da vegetação e da fertilidade; a filha dos dois, Anat, feroz deusa do amor; e o filho adotivo do casal, Baal, deus da guerra e da tempestade que morre, ressuscita e derrota as divindades malignas Yamm (o Mar) e Mot (a Morte).
Muitos estudiosos especulam que as tribos is-raelitas originalmente tinham El como seu deus supremo. Afinal, o nome do povo bíblico também termina com o elemento -el. "Esse tipo de nome próprio, conhecido como teofórico (‘portador de um deus’, em grego), costuma dar pistas sobre o ente divino que o dono do nome venera", diz Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento da Arquidiocese de Ribeirão Preto.
Mas os indícios a respeito de El vão além da nomenclatura. O deus cananeu também tem uma relação especial com os chefes de clãs, prometendo-lhes uma vasta descendência - exatamente o que Deus faria depois na Bíblia ao selar uma aliança com os ancestrais dos israelitas, Abraão, Isaac e Jacó. "El é o deus desses patriarcas", diz Christine Hayes, professora de estudos judaicos de Yale.
Deus do deserto
Javé pode ter sido uma divindade trazida do deserto por nômades que se embrenharam nas tribos is-raelitas, quando elas ainda estavam em formação na região de Canaã. Aí ele se junta aos deuses cananeus, como Baal e El, o altíssimo.
Adulto
"Israel é a minha herança", brada o impetuoso deus do deserto. Diante dele, a assembleia dos deuses de Canaã se sente cada vez mais intimidada. E, numa escalada de poder sem precedentes, o guerreiro chega a ser considerado idêntico ao próprio El como criador e governador do mundo. A própria esposa do antigo senhor dos deuses passa às mãos do novato.
Uma ameaça pairava sobre os deuses de Canaã. Era a ambição de Javé. O novo deus começou a buscar seu lugar entre as antigas divindades cananeias. E teve sucesso. Com sua personalidade forte, foi ganhando espaço dentro da mitologia israelita, tomando o terreno dos deuses criados pelos povos cananeus.
A maior prova disso está em outro texto poético dos mais antigos da Bíblia, o Salmo 82. Ele nos apresenta o chamado "conselho divino": uma espécie de Câmara dos Deputados dos deuses, na qual eles se reúnem para discutir assuntos importantes - um indício de que o Salmo foi escrito antes do próprio início da Bíblia, que já começa apresentando Javé como Deus único. A ideia, ali, é que El preside o conselho e seus filhos ou subordinados discursam. Lá, Javé aparentemente perde a paciência: "Deus se levanta no conselho divino,/em meio aos deuses ele julga:/"Até quando vocês julgarão injustamente,/sustentando a causa dos injustos? (...) "Eu declaro: embora vocês sejam deuses,/e todos filhos do Altíssimo,/morrerão como qualquer homem". Trocando em miúdos menos rebuscados: "Quem manda aqui sou eu".
É difícil dizer a que período da história israelita corresponde esse momento em que, na imaginação religiosa das pessoas, Javé começou a impor sua vontade perante os deuses cananeus. Talvez o fenômeno tenha a ver com a consolidação de Israel como povo distinto dos demais cananeus: a adoração a uma divindade unicamente israelita pode ter emergido como um elemento-chave nessa consciência "nacionalista" dos ancestrais dos judeus.
Para completar essa nova fase na vida do Senhor, que poderíamos chamar de começo da vida adulta, falta ainda um elemento crucial. Lembre-se do impe-tuoso deus guerreiro Baal. O que parece ocorrer, segundo Mark Smith e outros especialistas, é que Javé se "baaliza", virando uma mistura de El e Baal, com ligeira predominância do segundo.
As evidências: Javé e Baal estão associados a tempestades, vulcões, fogo e terremoto; ambos são guerreiros invencíveis que habitam o alto de montanhas (Baal vive no lendário monte Zafon, Javé, no Sinai). E a semelhança fica ainda mais detalhada.
Na tradição mitológica de Canaã, quem tinha triunfado contra Yamm, o deus caótico do mar, era Baal, mas os textos da Bíblia atribuem essa vitória - adivinhe só - a Javé. Mais sugestivo ainda: alguns Salmos parecem ter sido originalmente hinos a Baal que acabaram adaptados para o culto ao Senhor dos israelitas. Só que Javé vai muito além das intervenções típicas de Baal no mundo. Na mitologia israelita, sua grande vitória não é contra o mar, mas, sim, usando o mar como arma contra o faraó que tinha escravizado o povo hebreu no Egito. Escolhendo o profeta Moisés como seu emissário, conforme conta o livro bíblico do Êxodo, o novo deus guerreiro puniu os egípcios com uma sucessão de pragas e, como grand finale, destruiu "carros de guerra e cavaleiros" do faraó afundando-os no mar.
A diferença em relação a Baal é que o Senhor seria capaz de agir não só num passado mítico mas na própria história dos israelitas. Ele é literalmente "o Senhor dos Exércitos de Israel", aquele que promete a vitória em batalha em troca da fidelidade religiosa do povo. Daí em diante, Deus nunca deixa de ser, em grande medida, um guerreiro.
Além de herdar o trono de El na mitologia israelita, Javé também pode ter levado Asherah, a mulher do velho deus. Eis aí uma possibilidade para a qual a Bíblia não prepara seus leitores. Os profetas bíblicos vivem chiando contra o fato de que os israelitas estariam se "prostituindo" (metaforicamente, e talvez literalmente também, via orgias rituais) nos altares de Asherah. Mas inscrições achadas ao longo do século 20, como as de Kuntillet Ajrud, um pit stop de caravanas no deserto do Sinai, poderiam indicar que o deus e a deusa não eram inimigos, e sim um casal.
As inscrições, datadas em torno do ano 800 a.C., dizem coisas como "a bênção para ti por Javé de Teiman e sua Asherah". Seja como for, mesmo se o casamento ainda existisse, Javé logo optaria por um divórcio - daqueles litigiosos, barra-pesada, nos quais o pai joga os filhos contra a mãe.
Casal maior
Inscrições do do século 9 a.C. dão a entender que Javé tinha se casado com Asherah, a maior divindade feminina de Canaã. Era uma interpretação israelita da mitologia da região: o deus daquele povo tomava para si a esposa de El.
Homem feito
A última resistência da antiga assembleia divina parte de Baal. Sem pestanejar, Javé o elimina. Asherah tem o mesmo destino trágico. Daqui por diante ele estará sozinho nos céus. E alcança a serenidade. Hora de fazer as pazes com a humanidade. E um sacrifício.
Seu grande momento estava chegando. Era a hora da virada para Javé. Ele deixaria de ser mais um deus. E viraria o Único. No mundo real, esse momento teve data: foi a reforma religiosa introduzida por Josias (649 - 609 a.C.), rei de Judá. Antes, porém, um interlúdio político.
Àquela altura, a nação das tribos israelitas de Canaã tinha sido dividida em dois reinos. Um ao norte, o de Israel, e um ao sul, o de Judá. E o de cima havia sido derrotado e conquistado pelo Império Assírio.
Josias não queria o mesmo destino. E parte de seus esforços para fortalecer a unidade interna de Judá e resistir aos invasores foi uma maior centralização da vida religiosa do reino. Para isso, ele começou a transformar Javé no único deus adorado por seus súditos. Por decreto: destruindo altares a outras divindades, como El, Baal... E Asherah. Esse foi o divórcio.
Também é possível que date do reinado de Josias o ataque final dos fiéis de Javé ao culto a Baal, muito criticado pelos profetas dessa época. Para a maior parte dos israelitas, não era problema adorar a Javé e a Baal ao mesmo tempo. É que outra especialidade do antigo deus cananeu era a agricultura - ele mandava chuva para regar as colheitas. Até então, embora Javé tivesse tomado conta das funções guerreiras de Baal, nada indicava que ele também pudesse bancar o regador de plantas. Mas os profetas israelitas passam, então, a afirmar que o mandachuva era ele.
Essa expulsão definitiva de Baal do panteão explica o episódio do bezerro de ouro durante a passagem dos israelitas pelo deserto. Para quem não se lembra: o povo de Deus, cansado de esperar que Moisés volte do monte Sinai, constrói uma estátua de ouro de um bezerro (emblema de Baal). Tanto Moisés quanto Javé ficam enfurecidos, e milhares de israelitas morrem como punição pela infidelidade do povo.
As ideias de Josias marcariam para sempre a visão que temos de Deus. E mais ainda depois que esse rei acabou morto. Na geração dos filhos do monarca reformista, o reino de Judá seria riscado do mapa e Jerusalém, a capital, acabaria conquistada pela Babilônia. Mas a adversidade do povo teve o efeito oposto em sua fé. No mundo mitológico, Javé se fortalecia como nunca. Com a nação agora indefesa militarmente, era a hora de reafirmar que o deus da nação, ao menos, era todo-poderoso. Nisso os profetas israelistas diziam que só Javé tinha existência, vida e poder; os outros deuses eram meras imagens de pedra, metal ou madeira. Era nada menos que a inauguração do monoteísmo: um momento tão importante na história da espiritualidade quanto a adoção do cristianismo como religião oficial do Império Romano seria bem mais tarde. E era esse Javé único que iria para a Bíblia. E se tornaria a imagem de Deus no mundo ocidental.
Um Deus, agora, não só dos israelitas. Mas da humanidade inteira. O Deus que criou o mundo, que fez o homem à sua imagem e semelhança. E que, de certa forma, era a imagem e semelhança do Javé pré-Bíblia: o Deus guerreiro, militar, que pune com rigidez os erros de seus adoradores. O Velho Testamento está recheado de castigos divinos: dos mais leves, como transformar o fiel Jó, um milionário, em um mendigo, como um teste para sua fé, até o dilúvio universal - praticamente um restart no mundo depois de ter concluído que a humanidade não tinha mais jeito. A justificativa para tal comportamento está na própria história de Israel. A ideia era acreditar que os maus bocados pelos quais a nação passou nas mãos de assírios e babilônios eram provações divinas, que, se o povo mantivesse sua fé, tudo acabaria bem.
Mas Deus surge na Bíblia como algo mais complexo que um mero feitor. Usando os paralelos deste texto, seria como se Ele tivesse amadurecido depois que Josias e os profetas o aclamam Deus único. Javé fica menos humano, menos falível. Passa a ser uma entidade transcendental de fato. Começa a afirmar aos seres humanos que "os meus caminhos não são os seus caminhos" - a ideia hoje familiar de que Deus escreve certo por linhas tortas.
Mas o caráter divino só se completaria mesmo no século 1. O primeiro século depois de seu filho, quando o Novo Testamento foi escrito. É a metamorfose mais radical do guerreiro Javé. Encarnado na figura de Jesus, Deus apresenta uma nova solução para a humanidade. Em vez de castigar ou destruir os homens mais uma vez, decide purgar os pecados dos mortais com outro sacrifício: o Dele próprio. Morre o corpo do Deus encarnado, não o espírito divino. Este, agora mais sereno, continuou zelando por nós. E assim será. Até o fim dos tempos. E acaba assim a nossa história, certo?
Claro que não. A saga de Javé é só um dos reflexos de uma epopeia maior: a da humanidade buscando um sentido para a existência. Nesse aspecto, continuamos tão perdidos quanto os antigos que não sabiam por que o trovão trovejava ou o que as estrelas faziam pregadas no céu. Ainda não sabemos por que estamos aqui. E a única certeza é que vamos continuar buscando respostas. Seja o que Deus quiser.
Único
Javé chega ao auge conhecendo cada detalhe do passado e do futuro. Sua figura lembra El. Mas agora Ele está só.
Para saber mais
The Early History of God
Mark Smith, Wm. B. Eerdmans Publishing.
Deus, uma Biografia
Jack Miles, Companhia das Letras.
Pesquisadores revelam que Javé, o grande personagem da Bíblia, não foi visto sempre como Deus único. Antes do Livro Sagrado, ele era só mais um entre muitas divindades. Saiba como Deus conquistou seu espaço no céu. E na Terra
por José Lopes e Alexandre Versignassi
Deus criou o Universo.
Deus está em todos os lugares.
Deus é a força que nos une.
Cada sociedade vê a figura do Criador à sua maneira. Cada indivíduo, até. Para Einstein, Ele era as leis que governam o tempo e o espaço - a natureza em sua acepção mais profunda. Para os ateus, Deus é uma ilusão. Para o papa Bento 16, é o amor, a caridade. "Quem ama habita Deus; ao mesmo tempo, Deus habita quem ama", escreveu em sua primeira encíclica.
Pontos de vista à parte, toda cultura humana já teve seu Deus. Seus deuses, na maioria dos casos: seres divinos que interagiam entre si em mitologias de enredo farto, recheadas de brigas, lágrimas, reconciliações. Os deuses eram humanos.
Mas isso mudou. A imagem divina que se consolidou é bem diferente. Deus ganhou letra maiúscula na cultura ocidental. Os panteões divinos acabaram. Deus tornou-se único. É o Deus da Bíblia, Javé, o criador da luz e da humanidade. O pai de Jesus. Essa concepção, que hoje parece eterna, de tanto que a conhecemos, não nasceu pronta. Ela é fruto de fatos históricos que aconteceram antes de a Bíblia ter sido escrita. O próprio Javé já foi uma divindade entre muitas. Fez parte de um panteão do qual não era nem o chefe. O fato de ele ter se tornado o Deus supremo, então, é marcante: se fosse entre os deuses gregos, seria como se uma divindade de baixo escalão, como o Cupido, tivesse ascendido a uma posição maior que a de Zeus É essa história que vamos contar aqui. A história de Javé, a figura que começou como um pequeno deus do deserto e depois moldaria a forma como cada um de nós entende a ideia de Deus, não importando quem ou o que Deus seja para você.
Criança
No princípio, Ele não sabia falar. Só chorava, grunhia e balbuciava. Deus era uma criança. Uma não, muitas: um deus era a chuva, outro deus, o Sol, mais outro, o trovão... Os deuses eram as forças por trás de uma natureza inexplicável para os primeiros humanos da Terra. Facetas de divindades borbulhavam em cachoeiras, galopavam com os cavalos selvagens, voavam com o vento, escondiam-se em cada rochedo, bosque ou duna do deserto. E do deserto veio a que daria origem ao Deus para valer.
Deuses nasceram do pôquer. A crença em divindades provavelmente vem da capacidade humana de detectar as intenções das outras pessoas. Somos muito bons nisso desde que surgimos, há 200 mil anos, e precisamos ser mesmo, porque o Homo sapiens sempre levou a vida social mais complicada do reino animal, sempre em comunidades cheias de intrigas, fingimentos, traições. Saber o que se passa na cabeça do outro era questão de sobrevivência - e até certo ponto ainda é.
E a melhor maneira de tentar se antecipar a um adversário nos jogos mentais do dia a dia é imaginar as intenções dele: "O que será que ele pensa que eu estou pensando?" Nosso cérebro é uma máquina de pôquer.
Pesquisadores como o antropólogo francês Pascal Boyer defendem que esse sistema de detecção de intenções pode acabar aplicado a coisas que não têm intenções de nenhum tipo - como a chuva, ou o Sol. A ideia de que há espíritos de toda sorte da natureza seria, assim, um efeito colateral do nosso sistema de detecção de mentes, tão hiperativo.
Por esse ponto de vista, a espiritualidade faz parte dos nossos instintos. É quase tão natural acreditar em divindades quanto comer ou dormir.
Cada fenômeno da natureza, então, representava as intenções de alguma divindade. É como ainda acontece nas tribos de caçadores-coletores de hoje. Entre os índios tupis, os trovões são a raiva do deus Tupã. E fim de papo.
Obras de arte de mais de 30 mil anos atrás dão outra pista sobre essa espiri-tualidade primitiva - que podemos chamar de "infância de Deus" (no caso, dos deuses). Elas mostram seres que misturam características humanas e animais - sujeitos com cabeça de leão ou de rena e corpo de gente, por exemplo.
Acredita-se que essas criaturas híbridas representem um tipo de crença que ainda é comum nas tribos indígenas: a de que não haveria separação rígida entre o mundo dos humanos, o dos animais e o dos espíritos. Seria possível transitar entre essas esferas se você possuísse o conhecimento correto, e, em tese, qualquer falecido, seja pessoa, seja bicho, pode ter um papel parecido com o que associamos normalmente a um deus.
Os deuses abandonam de vez as feições animais quando os bichos se tornam menos importantes no nosso cotidiano. Foi precisamente o que aconteceu quando a agricultura foi criada, há 10 mil anos, no Oriente Médio. Graças a ela, montamos as primeiras cidades. E a nossa espiritualidade progrediria junto: acabaria bem mais centrada nas pessoas que na natureza selvagem.
Há sinais de que ancestrais mortos eram as grandes entidades com status divino nessas primeiras cidades. Um exemplo arqueológico vem de escavações em Jericó, uma das mais antigas aglomerações humanas, que hoje fica no território palestino da Cisjordânia. Os habitantes de Jericó enterravam o corpo de seus mortos, mas guardavam o crânio, que era recoberto com camadas de gesso e tinta, simulando o rosto humano. Assim preparada, a caveira talvez servisse de oráculo doméstico - uma espécie de deus particular para cada família.
Os artesãos de crânios de Jericó não tinham escrita - aliás, passariam mais de 5 mil anos até que essa tecnologia fosse inventada. Quando isso finalmente aconteceu, em torno do ano 2000 a.C., os deus ficaram bem mais sofisticados.
Entraram em cena criaturas ao estilo dos habitantes do Olimpo na mitologia grega. Em parte, alguns deles até eram mesmo personificações das forças da natureza, mas agora eles ganhavam personalidades e biografias complexas.
É aí que está a origem do grande personagem desta história: Javé, uma divindade que provavelmente começou como um deus menor, cultuado por nômades. Bem antes de a Bíblia ser escrita.
Cabeça de leão
Estátuas e pinturas de povos caçadores, que viviam nas cavernas da Europa há 30 mil anos, mostram figuras que misturam formas de homens e de animais. Tudo indica que esses foram os primeiros deuses a habitar a mente humana.
Jovem
O rapaz era uma divindade dos desertos do sul. Junto com seus poucos súditos, chegaria à pulsante Canãa, domínio do deus El, o altíssimo. Ao lado do soberano, a mãe de divindades e homens, Asherah, senhora de tudo o que é fértil, e seu sucessor, Baal, o deus que dava chuvas àquelas paisagens àridas. Tudo na santa paz. Eles só não imaginavam que Javé tramava a destruição deles.
Ele começou de baixo. Era só mais um deus entre vários outros de sua região. Só que na Bíblia Javé é identificado como o Deus único. Hoje, cogitar a existência de outras divindades que teriam convivido com o Senhor da Bíblia é um absurdo do ponto de vista religioso. Mas não do ponto de vista científico. Pesquisadores de várias áreas - arqueólogos, linguistas, teólogos - estão encontrando pistas sobre uma provável "vida pregressa" de Javé. Uma vida mitológica que ele teve antes de seu nome ir parar na Bíblia como o da entidade que criou tudo.
Onde pesquisar isso? A própria Bíblia é uma fonte. O Livro Sagrado não foi feito de uma vez. Trata-se de uma coleção de textos escritos ao longo de séculos. O Pentateuco, os 5 primeiros livros da Bíblia, foi finalizado por volta de 550 a.C. Mas há textos ali de 1000 a.C., ou de antes. E nada disso foi editado em ordem cronológica - em grande parte, a Bíblia é uma junção de textos independentes, cada um escrito em tempos e realidades diferentes.
Como saber a que tempo e a que realidade cada um pertence? Pela linguagem. Pesquisadores analisam as expressões do texto original, em hebraico, e vão comparando com a de documentos encontrados em escavações arqueológicas, cuja datação é fácil de determinar. Com esse método, chegaram a uma descoberta reveladora. Alguns poemas da Bíblia dão a entender que Javé era uma divindade de lugares chamados Teiman ou Paran - dizendo literalmente que o deus veio dessas regiões. E esses textos estão justamente entre os mais antigos - se a língua do livro fosse o português moderno, eles estariam mais para Camões.
Teiman e Paran eram lugares desérticos fora das fronteiras onde viviam os homens que escreveram a Bíblia. Não se sabe exatamente que regiões eram essas, já que os nomes dos territórios vão mudando ao longo dos séculos. "Mas arqueólogos supõem que essa região seja no noroeste da atual Arábia Saudita", diz Mark Smith, professor de estudos bíblicos da Universidade de Nova York. E isso diz muito.
Os autores dos primeiros textos da Bíblia viviam na antiga Canaã - uma região do Oriente Médio onde hoje estão Israel, os territórios palestinos e partes da Síria e do Líbano. Ali se formaram algumas das primeiras civilizações da história, há 10 mil anos. E por volta de 1000 a.C. já era um território disputado (como nunca deixou de ser, por sinal). Estava dividido numa miríade de tribos, as dos israelitas, a dos hititas, a dos jebedeus...
Apesar das rivalidades, todas tinham culturas parecidas. Reverenciavam o mesmo panteão de deuses, por exemplo. Mas Javé, pelo jeito, não era um deles. Teria sido importado das áreas mais desérticas do sul.
Outra evidência disso é a associação de seu nome com os chamados shasu. Shasu é um termo egípcio que significa "nômade" ou "beduíno". Algumas inscrições egípcias mencionam um "Javé dos Shasu".
Uma possibilidade, então, é que nômades do deserto teriam se incorporado às tribos israelitas, trazendo o novo deus com eles. Essa divindade se embrenharia no meio da grande mitologia desse povo: o panteão de deuses cananeus. Mas quem eram essas divindades? As melhores pistas a esse respeito vêm de Ugarit, uma antiga cidade encontrada durante escavações arqueológicas na atual Síria. Ela foi destruída por invasores em 1200 a.C., quando os israelitas ainda eram um povo em formação. As inscrições encontradas ali, então, servem como uma cápsula do tempo. Revelam o contexto cultural em que nasceu a mitologia israelita, mostra como era a mitologia dos antepassados dos escritores da Bíblia. E os deuses em que eles acreditavam seriam fundamentais para a biografia de Javé. O panteão de Ugarit é bem grandinho, mas algumas figuras se destacam. Há o pai dos deuses e dos homens, o idoso, bondoso e barbudo El; sua esposa, Asherah, deusa da vegetação e da fertilidade; a filha dos dois, Anat, feroz deusa do amor; e o filho adotivo do casal, Baal, deus da guerra e da tempestade que morre, ressuscita e derrota as divindades malignas Yamm (o Mar) e Mot (a Morte).
Muitos estudiosos especulam que as tribos is-raelitas originalmente tinham El como seu deus supremo. Afinal, o nome do povo bíblico também termina com o elemento -el. "Esse tipo de nome próprio, conhecido como teofórico (‘portador de um deus’, em grego), costuma dar pistas sobre o ente divino que o dono do nome venera", diz Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento da Arquidiocese de Ribeirão Preto.
Mas os indícios a respeito de El vão além da nomenclatura. O deus cananeu também tem uma relação especial com os chefes de clãs, prometendo-lhes uma vasta descendência - exatamente o que Deus faria depois na Bíblia ao selar uma aliança com os ancestrais dos israelitas, Abraão, Isaac e Jacó. "El é o deus desses patriarcas", diz Christine Hayes, professora de estudos judaicos de Yale.
Deus do deserto
Javé pode ter sido uma divindade trazida do deserto por nômades que se embrenharam nas tribos is-raelitas, quando elas ainda estavam em formação na região de Canaã. Aí ele se junta aos deuses cananeus, como Baal e El, o altíssimo.
Adulto
"Israel é a minha herança", brada o impetuoso deus do deserto. Diante dele, a assembleia dos deuses de Canaã se sente cada vez mais intimidada. E, numa escalada de poder sem precedentes, o guerreiro chega a ser considerado idêntico ao próprio El como criador e governador do mundo. A própria esposa do antigo senhor dos deuses passa às mãos do novato.
Uma ameaça pairava sobre os deuses de Canaã. Era a ambição de Javé. O novo deus começou a buscar seu lugar entre as antigas divindades cananeias. E teve sucesso. Com sua personalidade forte, foi ganhando espaço dentro da mitologia israelita, tomando o terreno dos deuses criados pelos povos cananeus.
A maior prova disso está em outro texto poético dos mais antigos da Bíblia, o Salmo 82. Ele nos apresenta o chamado "conselho divino": uma espécie de Câmara dos Deputados dos deuses, na qual eles se reúnem para discutir assuntos importantes - um indício de que o Salmo foi escrito antes do próprio início da Bíblia, que já começa apresentando Javé como Deus único. A ideia, ali, é que El preside o conselho e seus filhos ou subordinados discursam. Lá, Javé aparentemente perde a paciência: "Deus se levanta no conselho divino,/em meio aos deuses ele julga:/"Até quando vocês julgarão injustamente,/sustentando a causa dos injustos? (...) "Eu declaro: embora vocês sejam deuses,/e todos filhos do Altíssimo,/morrerão como qualquer homem". Trocando em miúdos menos rebuscados: "Quem manda aqui sou eu".
É difícil dizer a que período da história israelita corresponde esse momento em que, na imaginação religiosa das pessoas, Javé começou a impor sua vontade perante os deuses cananeus. Talvez o fenômeno tenha a ver com a consolidação de Israel como povo distinto dos demais cananeus: a adoração a uma divindade unicamente israelita pode ter emergido como um elemento-chave nessa consciência "nacionalista" dos ancestrais dos judeus.
Para completar essa nova fase na vida do Senhor, que poderíamos chamar de começo da vida adulta, falta ainda um elemento crucial. Lembre-se do impe-tuoso deus guerreiro Baal. O que parece ocorrer, segundo Mark Smith e outros especialistas, é que Javé se "baaliza", virando uma mistura de El e Baal, com ligeira predominância do segundo.
As evidências: Javé e Baal estão associados a tempestades, vulcões, fogo e terremoto; ambos são guerreiros invencíveis que habitam o alto de montanhas (Baal vive no lendário monte Zafon, Javé, no Sinai). E a semelhança fica ainda mais detalhada.
Na tradição mitológica de Canaã, quem tinha triunfado contra Yamm, o deus caótico do mar, era Baal, mas os textos da Bíblia atribuem essa vitória - adivinhe só - a Javé. Mais sugestivo ainda: alguns Salmos parecem ter sido originalmente hinos a Baal que acabaram adaptados para o culto ao Senhor dos israelitas. Só que Javé vai muito além das intervenções típicas de Baal no mundo. Na mitologia israelita, sua grande vitória não é contra o mar, mas, sim, usando o mar como arma contra o faraó que tinha escravizado o povo hebreu no Egito. Escolhendo o profeta Moisés como seu emissário, conforme conta o livro bíblico do Êxodo, o novo deus guerreiro puniu os egípcios com uma sucessão de pragas e, como grand finale, destruiu "carros de guerra e cavaleiros" do faraó afundando-os no mar.
A diferença em relação a Baal é que o Senhor seria capaz de agir não só num passado mítico mas na própria história dos israelitas. Ele é literalmente "o Senhor dos Exércitos de Israel", aquele que promete a vitória em batalha em troca da fidelidade religiosa do povo. Daí em diante, Deus nunca deixa de ser, em grande medida, um guerreiro.
Além de herdar o trono de El na mitologia israelita, Javé também pode ter levado Asherah, a mulher do velho deus. Eis aí uma possibilidade para a qual a Bíblia não prepara seus leitores. Os profetas bíblicos vivem chiando contra o fato de que os israelitas estariam se "prostituindo" (metaforicamente, e talvez literalmente também, via orgias rituais) nos altares de Asherah. Mas inscrições achadas ao longo do século 20, como as de Kuntillet Ajrud, um pit stop de caravanas no deserto do Sinai, poderiam indicar que o deus e a deusa não eram inimigos, e sim um casal.
As inscrições, datadas em torno do ano 800 a.C., dizem coisas como "a bênção para ti por Javé de Teiman e sua Asherah". Seja como for, mesmo se o casamento ainda existisse, Javé logo optaria por um divórcio - daqueles litigiosos, barra-pesada, nos quais o pai joga os filhos contra a mãe.
Casal maior
Inscrições do do século 9 a.C. dão a entender que Javé tinha se casado com Asherah, a maior divindade feminina de Canaã. Era uma interpretação israelita da mitologia da região: o deus daquele povo tomava para si a esposa de El.
Homem feito
A última resistência da antiga assembleia divina parte de Baal. Sem pestanejar, Javé o elimina. Asherah tem o mesmo destino trágico. Daqui por diante ele estará sozinho nos céus. E alcança a serenidade. Hora de fazer as pazes com a humanidade. E um sacrifício.
Seu grande momento estava chegando. Era a hora da virada para Javé. Ele deixaria de ser mais um deus. E viraria o Único. No mundo real, esse momento teve data: foi a reforma religiosa introduzida por Josias (649 - 609 a.C.), rei de Judá. Antes, porém, um interlúdio político.
Àquela altura, a nação das tribos israelitas de Canaã tinha sido dividida em dois reinos. Um ao norte, o de Israel, e um ao sul, o de Judá. E o de cima havia sido derrotado e conquistado pelo Império Assírio.
Josias não queria o mesmo destino. E parte de seus esforços para fortalecer a unidade interna de Judá e resistir aos invasores foi uma maior centralização da vida religiosa do reino. Para isso, ele começou a transformar Javé no único deus adorado por seus súditos. Por decreto: destruindo altares a outras divindades, como El, Baal... E Asherah. Esse foi o divórcio.
Também é possível que date do reinado de Josias o ataque final dos fiéis de Javé ao culto a Baal, muito criticado pelos profetas dessa época. Para a maior parte dos israelitas, não era problema adorar a Javé e a Baal ao mesmo tempo. É que outra especialidade do antigo deus cananeu era a agricultura - ele mandava chuva para regar as colheitas. Até então, embora Javé tivesse tomado conta das funções guerreiras de Baal, nada indicava que ele também pudesse bancar o regador de plantas. Mas os profetas israelitas passam, então, a afirmar que o mandachuva era ele.
Essa expulsão definitiva de Baal do panteão explica o episódio do bezerro de ouro durante a passagem dos israelitas pelo deserto. Para quem não se lembra: o povo de Deus, cansado de esperar que Moisés volte do monte Sinai, constrói uma estátua de ouro de um bezerro (emblema de Baal). Tanto Moisés quanto Javé ficam enfurecidos, e milhares de israelitas morrem como punição pela infidelidade do povo.
As ideias de Josias marcariam para sempre a visão que temos de Deus. E mais ainda depois que esse rei acabou morto. Na geração dos filhos do monarca reformista, o reino de Judá seria riscado do mapa e Jerusalém, a capital, acabaria conquistada pela Babilônia. Mas a adversidade do povo teve o efeito oposto em sua fé. No mundo mitológico, Javé se fortalecia como nunca. Com a nação agora indefesa militarmente, era a hora de reafirmar que o deus da nação, ao menos, era todo-poderoso. Nisso os profetas israelistas diziam que só Javé tinha existência, vida e poder; os outros deuses eram meras imagens de pedra, metal ou madeira. Era nada menos que a inauguração do monoteísmo: um momento tão importante na história da espiritualidade quanto a adoção do cristianismo como religião oficial do Império Romano seria bem mais tarde. E era esse Javé único que iria para a Bíblia. E se tornaria a imagem de Deus no mundo ocidental.
Um Deus, agora, não só dos israelitas. Mas da humanidade inteira. O Deus que criou o mundo, que fez o homem à sua imagem e semelhança. E que, de certa forma, era a imagem e semelhança do Javé pré-Bíblia: o Deus guerreiro, militar, que pune com rigidez os erros de seus adoradores. O Velho Testamento está recheado de castigos divinos: dos mais leves, como transformar o fiel Jó, um milionário, em um mendigo, como um teste para sua fé, até o dilúvio universal - praticamente um restart no mundo depois de ter concluído que a humanidade não tinha mais jeito. A justificativa para tal comportamento está na própria história de Israel. A ideia era acreditar que os maus bocados pelos quais a nação passou nas mãos de assírios e babilônios eram provações divinas, que, se o povo mantivesse sua fé, tudo acabaria bem.
Mas Deus surge na Bíblia como algo mais complexo que um mero feitor. Usando os paralelos deste texto, seria como se Ele tivesse amadurecido depois que Josias e os profetas o aclamam Deus único. Javé fica menos humano, menos falível. Passa a ser uma entidade transcendental de fato. Começa a afirmar aos seres humanos que "os meus caminhos não são os seus caminhos" - a ideia hoje familiar de que Deus escreve certo por linhas tortas.
Mas o caráter divino só se completaria mesmo no século 1. O primeiro século depois de seu filho, quando o Novo Testamento foi escrito. É a metamorfose mais radical do guerreiro Javé. Encarnado na figura de Jesus, Deus apresenta uma nova solução para a humanidade. Em vez de castigar ou destruir os homens mais uma vez, decide purgar os pecados dos mortais com outro sacrifício: o Dele próprio. Morre o corpo do Deus encarnado, não o espírito divino. Este, agora mais sereno, continuou zelando por nós. E assim será. Até o fim dos tempos. E acaba assim a nossa história, certo?
Claro que não. A saga de Javé é só um dos reflexos de uma epopeia maior: a da humanidade buscando um sentido para a existência. Nesse aspecto, continuamos tão perdidos quanto os antigos que não sabiam por que o trovão trovejava ou o que as estrelas faziam pregadas no céu. Ainda não sabemos por que estamos aqui. E a única certeza é que vamos continuar buscando respostas. Seja o que Deus quiser.
Único
Javé chega ao auge conhecendo cada detalhe do passado e do futuro. Sua figura lembra El. Mas agora Ele está só.
Para saber mais
The Early History of God
Mark Smith, Wm. B. Eerdmans Publishing.
Deus, uma Biografia
Jack Miles, Companhia das Letras.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Wlademy
A GIBíblia e os Seus Erros.
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