NO MUNDO DA LUA - 01/09/2011 11h35 - Atualizado em 06/09/2011 11h57 TAMANHO DO TEXTO A- | A+
A evolução natural da vida é a morte
Essa frase é óbvia. Suas implicações nem tanto. Por que, afinal, a evolução fez a vida “inventar” a morte?
PETER MOON
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Peter Moon Repórter especial
de ÉPOCA vive No mundo da
Lua, um espaço onde dá
vazão ao seu fascínio por
aventura, cultura, ciência e
tecnologia.
petermoon@edglobo.com.br
A evolução natural da vida é a morte. Esta frase é óbvia. É um clichê. Será mesmo? “A evolução natural da vida é a morte” é uma frase concisa e perfeita. Intuitivamente ela é perfeita, pois sabemos que a morte é o definidor último da condição humana. No longo prazo estaremos todos mortos, não é mesmo? Filosoficamente, a frase é igualmente perfeita, pois sua lógica é de uma circularidade brilhante. A vida termina na morte, para da morte surgir a vida. Espiritualmente a frase também é perfeita, pois dá a esperança da vida eterna àqueles que não conseguem suportar a ideia que do pó viemos e ao pó retornaremos, literalmente. Resta definir o que seria este tal “pó”. É aqui que entra a sua beleza científica. Este é o sentido que mais me interessa. Por que, afinal, a evolução fez a vida “inventar” a morte? Esta questão não é desprovida de sentido. Pelo contrário, sua profundidade é tamanha que sua solução, no dia em que for encontrada, será capaz de responder a todas aquelas questões físicas e metafísicas.
Por que, afinal, a vida na Terra foi adaptada para morrer? Imagine as primeiras bactérias pululando no oceano primordial. Se elas surgiram nas fontes hidrotermais das profundezas abissais ou em alguma outra circunstância, isso não vem ao caso. O que interessa é o seguinte: uma vez que a evolução aperfeiçoou os processos físico-químicos que sustentam o metabolismo das bactérias, como a sua divisão, alimentação, movimento e reprodução, por que elas tinham que morrer? A morte é uma certeza para todas as formas de vida, mas não precisaria ser assim. Há mais de 3 bilhões de anos, naqueles oceanos primordiais fervilhando de vida, alguma bactéria poderia ter sofrido mutações em seus genes, mutações que lhe permitissem continuar reciclando indefinidamente os seus órgãos internos e externos.
O segredo da vida eterna
Um exemplo. Caso tal bactéria flutuasse muito próxima à superfície, poderia ser exposta à radiação ultra-violeta, ter o seu DNA danificado e morrer. Naquela época, dada a ausência de uma atmosfera rica em oxigênio - e por consequência a ausência de uma camada de ozônio capaz de barrar aquela radiação emitida pelo sol - os raios UV atravessavam a atmosfera esterilizando o ar e os continentes, sendo barrados apenas pela água do mar. Uma bactéria dotada de mutações capazes de proteger o seu material genético da ação devastadora dos raios UV teria uma enorme vantagem adaptativa sobre todas as outras trilhões de trilhões de trilhões bactérias flutuantes. Com o passar das eras, a linhagem iniciada por aquela bactéria poderia proliferar e tomar conta do meio ambiente, monopolizando o acesso às fontes de nutrientes e extinguindo todas as suas concorrentes.
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Imaginando um pouco mais longe, uma forma de vida resistente aos raios UV poderia somar esta característica a muitas outras mutações, como a reciclagem de moléculas danificadas da parede celular e dos seus órgãos internos, de modo a continuar sempre jovem - e viver indefinidamente. Seria a receita para a vida eterna. Em princípio, seria possível. Não há nenhuma lei biológica que obrigue a vida a desembocar na morte. Na prática, não foi o que aconteceu.
Até hoje, 4 bilhões de anos após a evolução da vida na Terra, não existe nenhuma célula de nenhuma forma de vida capaz de proteger o seu DNA da inalienável fragmentação - e morte - quando exposto diretamente aos raios ultra-violetas. E 4 bilhões de anos foi tempo mais do que suficiente para ter surgido tal mutação “anti-UV”, ou qualquer outra que levasse à reciclagem eterna da bactéria. Se não surgiu, ou surgiu e desapareceu, resta saber por que?
Da eternidade para o caos
A essência da vida está na transmissão dos genes para as gerações futuras. A transmissão pode acontecer através da divisão celular, como fazem as bactérias, ou graças ao sexo, como preferem as plantas, os fungos, os animais, o papai e a mamãe. A transmissão não é perfeita. No caso de um bebê, suas 3 bilhões de letras do código genético foram herdadas metade do pai e metade da mãe - descontadas as mutações.
Por mais aperfeiçoada que seja a união dos genes dos pais para a geração de um novo ser vivo, o processo é tão intrincado e envolve uma quantidade tão vasta de letras (ou moléculas) que está longe de ser perfeito. Cada criança nasce com 3 milhões de mutações que são dela e somente dela, e estão ausentes das 3 bilhões de letras do código genético de cada um dos pais. A quase totalidade das mutações é inofensiva, ou desativada. Algumas poucas podem ser benéficas. Outras, não. Esta possibilidade está na essência da lógica por trás do mecanismo da seleção natural. As mutações benéficas conferem mais chances de sobrevivência ao seu portador. As maléficas podem encurtar a sua trajetória de vida. É daí que surgem novas espécies, e outras se extinguem.
Cada ser humano é formado por 100 trilhões de células. O interior de cada uma delas guarda uma cópia completa do genoma ou DNA. Ou seja, as 3 milhões de mutações exclusivas de cada um de nós estão multiplicadas 100 trilhões de vezes. Estaria tudo em ordem não fosse o fato de que nem todas as células são bem comportadas, ou melhor, elas não se comportam sempre da forma como deveriam. Vez por outra, alguma delas se rebela contra a ordem estabelecida e começa a se multiplicar de forma insana e devastadora. É o câncer, uma doença que aflige todos os seres pluricelulares, sejam eles plantas, peixes ou mamíferos.
A biologia acorrentada
Em princípio não há nenhuma lei biológica que obrigue a vida a desembocar na morte. Mas, num universo físico, as leis da física se sobrepõem às da biologia. Uma importantíssima é a Segunda Lei da Termodinâmica. Ela trata de um princípio universal básico, a entropia. Há inúmeras definições para a entropia. A minha predileta reza que tudo o que é simples tende, invariavelmente, a se tornar complexo. A organização sempre dá lugar à desorganização. Da ordem nasce o caos. Há que se concordar que, no meio de 100 trilhões de células, cada uma com 3 milhões de mutações, a margem de chances para brotar o caos é exponencial. É praticamente incontornável.
Agora considere as trilhões de trilhões de trilhões de bactérias que infestam e infestavam os oceanos. Nesta sopa pululante e infecta, o caos tem ordens de magnitude de vantagem sobre a ordem perfeita das coisas para brotar e se proliferar, sabotando a vida eterna. A começar pelo fato de que, às bactérias, de nada interessa a eternidade. Elas evoluíram para se dividir, transmitindo seus genes, e morrer. Com os seres humanos é a mesma coisa. Na impossibilidade termodinâmica de conquistar a vida eterna, a segunda melhor alternativa foi a que escolhemos. Atingir a maturidade sexual, encontrar um companheiro ou companheira, ter filhos, criá-los, e viver até ver os netos nascerem, e ser agraciado com “a sensação da eternidade” que advém da “certeza de que plantamos nossa semente, ela vingou e começa a dar frutos”.
Esta frase eu ouvi em 1995 de meu pai, quando ele viu nascer minha filha Victoria, a sua primeira neta. Meu pai não é um intelectual nem um nerd como o filho. Mas é um sábio. Assim como a vida é sábia. A evolução fez a vida “inventar” a morte porque, entre a eternidade inatingível e a degeneração caótica, a melhor alternativa viável era a morte.
Tudo isso eu aprendi num livro espetacular, eleito pela Sociedade Real de Ciências britânica como o melhor livro de divulgação científica publicado em língua inglesa em 2010. Trata-se de “Life ascending - The ten great inventions of evolution” (Norton, US$ 26,95, 344 páginas), do bioquímico Nick Lane, do University College de Londres. É brilhante!
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
“Somos poeira de estrelas”
Todos os átomos do nosso corpo e do universo que nos cerca foram forjados há bilhões de anos, no coração de estrelas que explodiram
PETER MOON
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Peter Moon Repórter especial
de ÉPOCA vive No mundo da
Lua, um espaço onde dá
vazão ao seu fascínio por
aventura, cultura, ciência e
tecnologia.
petermoon@edglobo.com.br
“Somos poeira de estrelas”. A frase é do cosmologista Carl Sagan (1934-1996) e foi celebrizada na série “Cosmos”, de 1980. Sagan era um cientista brilhante e divulgador da ciência melhor ainda. Ele tinha o dom de sintetizar em frases inspiradas todo o sentido do maravilhoso que percebia na observação do universo. Assim, a Terra tornou-se aquele “pálido ponto azul” (pale blue dot) onde vivemos, um grão rochoso contaminado pela vida e orbitando uma estrela comum, como tantas bilhões de outras, num braço de uma galáxia em espiral chamada Via Láctea, que se confundia com as outras bilhões de galáxias do universo.
Ainda assim, e apesar do nosso pálido ponto azul ser um nada no oceano cósmico, seja na tevê seja em seus livros Sagan fazia a Terra reluzir como um brilhante precioso, por ser o berço da vida como a conhecemos, o berço da nossa espécie e a espaçonave que nos transporta em uma valsa celestial. Ao afirmar e reafirmar a preciosidade do nosso planeta, Sagan jamais usou este argumento para defender o indefensável, que a vida seria exclusiva da Terra. Ele, mais do que ninguém, defendeu a certeza estatística incontornável de que o universo está coalhado de vida e civilizações avançadas. Sagan usou a literatura para ilustrar essa certeza, no romance “Contato”, de 1985. “O universo é um lugar muito, muito grande”, diz Jody Foster no filme homônimo de 1997. “Se só existisse vida aqui na Terra, então o universo seria um enorme espaço desperdiçado.”
Mas não é. A prova é que estamos aqui, usando a imaginação para entender a natureza e sonhar com as possibilidades de vida em outros mundos. Outra prova está na universalidade das leis da física, que tanto determinam a formação de espirais de espuma quando se mexe com a colherinha numa xícara de café, quanto influem na dança das galáxias.
Os ingredientes da vida
Uma terceira prova de que o universo não é um enorme desperdício de espaço está na origem da matéria, a origem dos átomos aprisionados nas moléculas que constituem cada uma das 100 trilhões de células do corpo humano. Cada célula humana é constituída por uns 10 quadrilhões de átomos. E cada um destes foi forjado no coração de estrelas há muito extintas.
Não estou me referindo apenas aos átomos do seu e do meu corpo, mas também aos átomos de toda a humanidade, de todas as formas de vida, dos vírus à baleia-azul, assim como o ar que respiramos, o sapato que calçamos, o solo onde pisamos, a crosta terrestre que flutua sobre o manto de rocha liquefeita que forma a interior da Terra, os outros planetas do sistema solar, os bilhões de planetas das 100 bilhões de estrelas da Via Láctea, apenas uma entre as 400 bilhões de galáxias do universo visível... Todos estes átomos foram forjados no núcleo de estrelas que explodiram.
O oxigênio e o nitrogênio que respiramos; o carbono que é a base da vida; o cálcio de nossos ossos; o sódio, o fósforo, o magnésio, o iodo e o potássio essenciais ao organismo; o ferro e o alumínio das máquinas; o cobre dos fios elétricos e o silício dos computadores... Todos estes elementos químicos saíram da fornalha atômica de supernovas, estrelas gigantes que, ao esgotar seu combustível, explodiram, semeando na vastidão interestelar os ingredientes dos planetas e da vida.
A vida evoluiu na Terra há mais de 3 bilhões de anos. Já a matéria que constitui a vida é muito mais antiga. Os elementos químicos forjados nas supernovas tiveram que vagar por centenas de milhões de anos no espaço em nuvens de poeira. Eventualmente, a atração gravitacional em algum ponto de uma nuvem forçou o início de um processo de concentração, atraindo os átomos da nuvem e concentrando-os num local que viria a atingir densidade e temperatura incríveis. Quando, naquele ponto da nuvem, os átomos de hidrogênio se encontravam tão próximos uns dos outros a ponto de se fundir - e a temperatura se elevou aos 10 milhões de graus - dois átomos de hidrogênio se fundiram para formar outro, de hélio, liberando energia. Esta energia precipitou a fusão de outros átomos de hidrogênio, desencadeando uma reação nuclear em cadeia. Nascia o Sol.
Com os planetas a história foi diferente. As porções da nuvem que estavam afastadas o suficiente do Sol para não ser tragadas pela sua atração gravitacional acabaram por se condensar na forma de planetas. Ali os elementos químicos forjados há bilhões de anos no seio de supernovas puderam dar início à geologia e à vida.
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A evolução natural da vida é a morte
O cânone do violoncelo
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A forja elementar
O universo surgiu no Big Bang, a explosão primordial que lançou matéria e energia em todas as direções há 13,7 bilhões de anos. A temperatura infinita da explosão primordial foi suficiente para espalhar pelo universo só três elementos: o hidrogênio, o hélio e o lítio, os elementos mais leves, de números atômicos 1, 2 e 3, respectivamente, pois o átomo de hidrogênio possui apenas um próton solitário em seu núcleo, o hélio tem dois e o lítio, três.
Todos os demais elementos químicos, do elemento de número 4, o berílio, ao urânio de número 92, saíram das três gerações de supernovas que se sucederam desde o início dos tempos. Sua criação seguiu dois passos: a forja e a explosão.
O elemento mais abundante do universo é o hidrogênio. Ele é combustível nuclear das estrelas. Uma estrela pequena como o sol irá queimar o seu estoque de hidrogênio por 10 bilhões de anos (já se passaram 5 bilhões...) até o combustível esgotar e o Sol começar a se contrair e resfriar, tornando-se uma estrela anã-branca.
As estrelas cuja massa é, no mínimo, oito vezes maior que a do Sol têm uma vida mais curta e uma morte espetacular. O hidrogênio da estrela vai queimando e formando hélio. A fusão libera a cada instante uma energia equivalente a milhões de bombas atômicas explodindo simultaneamente. É esta energia incrível emitida do núcleo da estrela que impede que suas camadas externas dasabem em direção ao núcleo sob o efeito da força da gravidade. Assim, uma estrela pode ser definida como a luta incessante entre a fusão nuclear e a força da gravidade - um luta aonde a gravidade sempre vence.
No caso de estrelas muito grandes, a energia liberada no núcleo precisa ser maior para compensar a força gravitacional, que é também maior, dado o volume da estrela. A estrela começa queimando hidrogênio a 10 milhões de graus e produzindo hélio. A temperatura no núcleo vai aumentando até que o calor seja suficiente para começar a fundir átomos de hélio, criando lítio. O processo se repete como nos degraus de uma escada. Cada novo elemento precisa de temperaturas maiores para fundir e criar o elemento seguinte da tabela periódica. Assim chega a vez do elemento 6, o carbono, do oxigênio 8, do alumínio 13, do cálcio 20, e, por fim, do ferro 26. Neste ponto, a temperatura no interior da estrela é de 100 milhões de graus. Quando a estrela começa a produzir ferro, sua sorte está selada.
A explosão de vida
O fim da estrela chegou. Ao tentar fundir átomos de ferro para produzir o elemento seguinte, que seria o cobalto, a reação nuclear deixa de produzir energia suficiente para manter a coesão da estrela. É o momento em que a força da gravidade vence a luta, o instante em que a fusão nuclear acaba, e as camadas externas da estrela conseguem desabar livremente em direção ao núcleo. Como não há espaço para todo aquela matéria ocupar o mesmo lugar, a estrela explode em supernova.
As supernovas são as explosões mais cataclísmicas conhecidas dos astrônomos. No momento em que acontecem, alcançam temperaturas de vários bilhões de graus, suficiente para forjar todos os demais elementos naturais, do cobalto 27 ao urânio 92.
Quando a supernova ejeta ao espaço as suas camadas externas, ela está semeando o espaço interestelar com os elementos químicos que forjou. É a “poeira de estrelas” que Sagan tão bem descreveu de forma poética, a “poeira de estrelas” que um dia circulará em nosso sangue.
P.S.:
Os demais elementos, mais pesados que o urânio 92, não existem na natureza. Se foram criados no Big Bang ou em explosões de supernovas, desapareceram no instante seguinte. No caso do plutônio (o elemento 94), ele surge na forma de lixo das usinas nucleares.
Já os novos elementos de número 113 (ununtrium) e 118 (ununoctium), recém-descobertos em 2010, são artificiais, assim como todos os elementos mais pesados que o urânio, à exceção do plutônio. Eles foram detectados durante os seus poucos milionésimos de segundo de existência, no meio dos escombros das colisões de átomos no interior dos aceleradores de partículas. Estes elementos são absurdamente instáveis. Só existem por um instante, decaindo assim que são criados para formar outros elementos estáveis, aqueles que constituem a matéria do universo em que vivemos.
Todos os átomos do nosso corpo e do universo que nos cerca foram forjados há bilhões de anos, no coração de estrelas que explodiram
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“Somos poeira de estrelas”. A frase é do cosmologista Carl Sagan (1934-1996) e foi celebrizada na série “Cosmos”, de 1980. Sagan era um cientista brilhante e divulgador da ciência melhor ainda. Ele tinha o dom de sintetizar em frases inspiradas todo o sentido do maravilhoso que percebia na observação do universo. Assim, a Terra tornou-se aquele “pálido ponto azul” (pale blue dot) onde vivemos, um grão rochoso contaminado pela vida e orbitando uma estrela comum, como tantas bilhões de outras, num braço de uma galáxia em espiral chamada Via Láctea, que se confundia com as outras bilhões de galáxias do universo.
Ainda assim, e apesar do nosso pálido ponto azul ser um nada no oceano cósmico, seja na tevê seja em seus livros Sagan fazia a Terra reluzir como um brilhante precioso, por ser o berço da vida como a conhecemos, o berço da nossa espécie e a espaçonave que nos transporta em uma valsa celestial. Ao afirmar e reafirmar a preciosidade do nosso planeta, Sagan jamais usou este argumento para defender o indefensável, que a vida seria exclusiva da Terra. Ele, mais do que ninguém, defendeu a certeza estatística incontornável de que o universo está coalhado de vida e civilizações avançadas. Sagan usou a literatura para ilustrar essa certeza, no romance “Contato”, de 1985. “O universo é um lugar muito, muito grande”, diz Jody Foster no filme homônimo de 1997. “Se só existisse vida aqui na Terra, então o universo seria um enorme espaço desperdiçado.”
Mas não é. A prova é que estamos aqui, usando a imaginação para entender a natureza e sonhar com as possibilidades de vida em outros mundos. Outra prova está na universalidade das leis da física, que tanto determinam a formação de espirais de espuma quando se mexe com a colherinha numa xícara de café, quanto influem na dança das galáxias.
Os ingredientes da vida
Uma terceira prova de que o universo não é um enorme desperdício de espaço está na origem da matéria, a origem dos átomos aprisionados nas moléculas que constituem cada uma das 100 trilhões de células do corpo humano. Cada célula humana é constituída por uns 10 quadrilhões de átomos. E cada um destes foi forjado no coração de estrelas há muito extintas.
Não estou me referindo apenas aos átomos do seu e do meu corpo, mas também aos átomos de toda a humanidade, de todas as formas de vida, dos vírus à baleia-azul, assim como o ar que respiramos, o sapato que calçamos, o solo onde pisamos, a crosta terrestre que flutua sobre o manto de rocha liquefeita que forma a interior da Terra, os outros planetas do sistema solar, os bilhões de planetas das 100 bilhões de estrelas da Via Láctea, apenas uma entre as 400 bilhões de galáxias do universo visível... Todos estes átomos foram forjados no núcleo de estrelas que explodiram.
O oxigênio e o nitrogênio que respiramos; o carbono que é a base da vida; o cálcio de nossos ossos; o sódio, o fósforo, o magnésio, o iodo e o potássio essenciais ao organismo; o ferro e o alumínio das máquinas; o cobre dos fios elétricos e o silício dos computadores... Todos estes elementos químicos saíram da fornalha atômica de supernovas, estrelas gigantes que, ao esgotar seu combustível, explodiram, semeando na vastidão interestelar os ingredientes dos planetas e da vida.
A vida evoluiu na Terra há mais de 3 bilhões de anos. Já a matéria que constitui a vida é muito mais antiga. Os elementos químicos forjados nas supernovas tiveram que vagar por centenas de milhões de anos no espaço em nuvens de poeira. Eventualmente, a atração gravitacional em algum ponto de uma nuvem forçou o início de um processo de concentração, atraindo os átomos da nuvem e concentrando-os num local que viria a atingir densidade e temperatura incríveis. Quando, naquele ponto da nuvem, os átomos de hidrogênio se encontravam tão próximos uns dos outros a ponto de se fundir - e a temperatura se elevou aos 10 milhões de graus - dois átomos de hidrogênio se fundiram para formar outro, de hélio, liberando energia. Esta energia precipitou a fusão de outros átomos de hidrogênio, desencadeando uma reação nuclear em cadeia. Nascia o Sol.
Com os planetas a história foi diferente. As porções da nuvem que estavam afastadas o suficiente do Sol para não ser tragadas pela sua atração gravitacional acabaram por se condensar na forma de planetas. Ali os elementos químicos forjados há bilhões de anos no seio de supernovas puderam dar início à geologia e à vida.
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A forja elementar
O universo surgiu no Big Bang, a explosão primordial que lançou matéria e energia em todas as direções há 13,7 bilhões de anos. A temperatura infinita da explosão primordial foi suficiente para espalhar pelo universo só três elementos: o hidrogênio, o hélio e o lítio, os elementos mais leves, de números atômicos 1, 2 e 3, respectivamente, pois o átomo de hidrogênio possui apenas um próton solitário em seu núcleo, o hélio tem dois e o lítio, três.
Todos os demais elementos químicos, do elemento de número 4, o berílio, ao urânio de número 92, saíram das três gerações de supernovas que se sucederam desde o início dos tempos. Sua criação seguiu dois passos: a forja e a explosão.
O elemento mais abundante do universo é o hidrogênio. Ele é combustível nuclear das estrelas. Uma estrela pequena como o sol irá queimar o seu estoque de hidrogênio por 10 bilhões de anos (já se passaram 5 bilhões...) até o combustível esgotar e o Sol começar a se contrair e resfriar, tornando-se uma estrela anã-branca.
As estrelas cuja massa é, no mínimo, oito vezes maior que a do Sol têm uma vida mais curta e uma morte espetacular. O hidrogênio da estrela vai queimando e formando hélio. A fusão libera a cada instante uma energia equivalente a milhões de bombas atômicas explodindo simultaneamente. É esta energia incrível emitida do núcleo da estrela que impede que suas camadas externas dasabem em direção ao núcleo sob o efeito da força da gravidade. Assim, uma estrela pode ser definida como a luta incessante entre a fusão nuclear e a força da gravidade - um luta aonde a gravidade sempre vence.
No caso de estrelas muito grandes, a energia liberada no núcleo precisa ser maior para compensar a força gravitacional, que é também maior, dado o volume da estrela. A estrela começa queimando hidrogênio a 10 milhões de graus e produzindo hélio. A temperatura no núcleo vai aumentando até que o calor seja suficiente para começar a fundir átomos de hélio, criando lítio. O processo se repete como nos degraus de uma escada. Cada novo elemento precisa de temperaturas maiores para fundir e criar o elemento seguinte da tabela periódica. Assim chega a vez do elemento 6, o carbono, do oxigênio 8, do alumínio 13, do cálcio 20, e, por fim, do ferro 26. Neste ponto, a temperatura no interior da estrela é de 100 milhões de graus. Quando a estrela começa a produzir ferro, sua sorte está selada.
A explosão de vida
O fim da estrela chegou. Ao tentar fundir átomos de ferro para produzir o elemento seguinte, que seria o cobalto, a reação nuclear deixa de produzir energia suficiente para manter a coesão da estrela. É o momento em que a força da gravidade vence a luta, o instante em que a fusão nuclear acaba, e as camadas externas da estrela conseguem desabar livremente em direção ao núcleo. Como não há espaço para todo aquela matéria ocupar o mesmo lugar, a estrela explode em supernova.
As supernovas são as explosões mais cataclísmicas conhecidas dos astrônomos. No momento em que acontecem, alcançam temperaturas de vários bilhões de graus, suficiente para forjar todos os demais elementos naturais, do cobalto 27 ao urânio 92.
Quando a supernova ejeta ao espaço as suas camadas externas, ela está semeando o espaço interestelar com os elementos químicos que forjou. É a “poeira de estrelas” que Sagan tão bem descreveu de forma poética, a “poeira de estrelas” que um dia circulará em nosso sangue.
P.S.:
Os demais elementos, mais pesados que o urânio 92, não existem na natureza. Se foram criados no Big Bang ou em explosões de supernovas, desapareceram no instante seguinte. No caso do plutônio (o elemento 94), ele surge na forma de lixo das usinas nucleares.
Já os novos elementos de número 113 (ununtrium) e 118 (ununoctium), recém-descobertos em 2010, são artificiais, assim como todos os elementos mais pesados que o urânio, à exceção do plutônio. Eles foram detectados durante os seus poucos milionésimos de segundo de existência, no meio dos escombros das colisões de átomos no interior dos aceleradores de partículas. Estes elementos são absurdamente instáveis. Só existem por um instante, decaindo assim que são criados para formar outros elementos estáveis, aqueles que constituem a matéria do universo em que vivemos.
Qual é o tamanho do universo?
Construa comigo uma imagem mental das dimensões do cosmo
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petermoon@edglobo.com.br
Eu sempre adorei astronomia. Desde pequeno lembro-me de olhar fascinado uma coleção de livros da revista Life que meu pai comprou, com fotos de estrelas e galáxias. Era o início dos anos 1970, o homem já havia pisado na Lua, o universo era fascinante, inescrutável e em preto e branco. Foi só nos anos 1990, com as imagens captadas pelo telescópio espacial Hubble, que o universo foi pintado com cores deslumbrantes. Foi quando descobrimos que aquelas nebulosas distantes não eram nuvens de poeira acinzentada, mas que reluziam com todos os tons cores do espectro.
Ainda menino, fascinado com a beleza monocrômica das estrelas e galáxias, comecei a tentar conceber o que significariam as inconcebíveis distâncias cosmológicas envolvidas. Naquela época, li que a Via Láctea, a nossa galáxia, é uma espiral com 100 bilhões de estrelas e um diâmetro de 100 mil anos-luz. É impossível imaginar o que isto significa. Mas confesso que, aos 12 anos, tentei fazê-lo. Eu queria imaginar mentalmente o que significariam os 100 mil anos-luz do diâmetro da Via Láctea para, a partir deste cálculo, tentar imaginar o tamanho do universo.
Nos anos 1970, a teoria do Big Bang já estava bem consolidada. Ela reza que o universo surgiu de uma explosão primordial que lançou matéria e energia em todas as direções. Com o passar das eras, matéria e energia começaram a formar galáxias e estrelas. Nos anos 1970, a idade do universo ainda era incerta. Lembro que meus primeiros cálculos mentais foram feitos com base num universo surgido há 20 bilhões de anos – hoje sabemos com precisão que o Big Bang aconteceu há 13,7 bilhões de anos.
O universo é tão antigo e sua escala de tempo é tão deslocada da escala de tempo de uma vida humana, ou mesmo da civilização, que se torna incompreensível. Não é possível imaginar o que são 13,7 bilhões de anos. Mas é possível conceber analogias que nos aproximem - se não de uma resposta -, pelo menos de um significado, de uma imagem cerebral do universo. Foi o que aquele menino paulistano de 12 anos começou a fazer – e faz até hoje.
Vamos lá. O segredo deste exercício mental é esquecer a palavra tempo, e passar a imaginar o tempo como um sinônimo de espaço. Na verdade, o espaço e o tempo são duas faces da mesma moeda universal, assim como a matéria e a energia, como Albert Einstein nos ensinou. O espaço e o tempo nasceram com o Big Bang. Logo, não faz sentido tentar imaginar se existe algo “fora” ou “além” do universo, porque só existe espaço e tempo no universo. Se existem outros universos ou universos-bebês?, e se eles nascem do interior de buracos-negros para se expandir em dimensões desconhecidas?, estas são especulações teóricas do âmbito dos cosmólogos – e terreno fértil para quem busca respostas metafísicas para a origem de tudo. Não é o meu caso.
Como imaginar o tamanho da Via Láctea?
A unidade de distância cosmológica é a velocidade da luz, ou seja, 299.792,49 quilômetros por segundo, que se convencionou arredondar para 300 mil km/s. É muito. A nave espacial mais veloz construída pelo homem é a sonda americana Voyager I, lançada em 1977. Passados 34 anos, a Voyager I se encontra neste momento além da órbita de Plutão, na porta de saída do Sistema Solar. Sua velocidade é 17,46 km/s. Ou seja, a Voyager I cobriria os 446 km que separam São Paulo do Rio de Janeiro em 25 segundos. É muito rápida, mas uma lesma paralítica caso comparada à velocidade da luz. A velocidade da luz é mais de 17 mil vezes superior à da Voyager I.
Basta um segundo para a luz completar 7,5 voltas em torno da Terra, cuja circunferência é de 40 mil km. A distância média da Terra à Lua é de 384 mil km. A luz emitida pelo Sol que ilumina a superfície da Lua, e reflete em direção à Terra leva 1,28 segundos para, saindo da Lua, atingir a sua retina. Ou seja, a imagem que vemos da Lua é como ela era 1,28 segundos no passado.
O Sol encontra-se a 150 milhões de km da Terra. A luz leva 8 minutos e 18 segundos para cobrir essa distância. Se o Sol explodisse neste exato instante – fique tranquilo, isto jamais acontecerá – a imagem da explosão só seria visível daqui 8 minutos e 18 segundos – e seria a última coisa que qualquer um de nós assistiria, pois a Terra deixaria de existir.
É quando olhamos o céu noturno pontilhado de estrelas que as coisas começam a ficar realmente assombrosas. Quantas estrelas existem no céu? Elas são incontáveis, e ainda assim são um número ínfimo se comparado às estrelas da Via Láctea que são invisíveis ao olho nu. Pensando apenas nos pontinhos cintilantes que conseguimos distinguir no céu noturno, quão longe eles estão? Bem longe. De todas as estrelas no céu, a mais próxima do sistema solar é, como seu nome indica, Próxima Centauri, a 4,2 anos-luz de distância. A mesma luz que dá 7,5 voltas na Terra em um segundo precisa de 4,2 anos para cobrir a distância que separa Próxima Centauri do Sol. Daí se conclui que a luz de todas as estrelas que observamos à noite levou, NO MÍNIMO, 4,2 anos viajando pelo espaço interestelar até chegar à nossa retina.
Agora estamos começando a adentrar as dimensões cósmicas. Elas são incompreensíveis. Estão aquém e além das dimensões do microcosmo ao qual estamos acostumados. Aqui, a unidade básica é o ano-luz, a distância que a luz percorre em um ano, ou 9,46 trilhões de quilômetros. Este número é tão grande que, para todos os efeitos, não tem significado algum. Pode esquecê-lo. Nossa unidade é o ano-luz.
Sabemos que a Via Láctea é uma imensa galáxia em espiral que abriga 100 bilhões de estrelas e tem um diâmetro de 100 mil anos-luz. Ou seja, a luz emitida por uma estrela em uma extremidade leva 100 milênios para atingir a outra extremidade. Há 100 mil anos, nossa espécie, os Homo sapiens, ainda se encontrava confinada na África.
A galáxia gigante de Andrômeda, irmã gêmea da Via Láctea, é a galáxia em espiral mais próxima da nossa. Andrômeda está a 2,9 milhões de anos-luz de distância. Vale dizer que, ao usar-se um telescópio para observar Andrômeda, o que se vê é a luz que saiu dela para cobrir a vastidão intergaláctica há 2,9 milhões de anos, quando Lucy e os Australopithecus afarensis viviam tranquilos na África, sem sonhar que, de sua linhagem, evoluiriam primatas capazes de ir á Lua.
Como imaginar o tamanho do universo?
Foi este o cálculo mental que fiz pela primeira vez aos 12 anos. Agora que sabemos que a Via Láctea mede 100 mil anos-luz, esqueça tudo isto e considere os 100 mil anos-luz da nossa galáxia como se sendo apenas e tão somente um centímetro do metro de uma trena cósmica. Nesse caso, Andrômeda estaria a 29 cm de distância. Não parece tão longe quanto antes, parece?
Longe mesmo são os confins do universo. O universo surgiu há 13,7 bilhões de anos. O Big Bang foi uma explosão que lançou matéria e energia em todas as direções, logo as primeiras radiações emitidas estão há 13,7 bilhões de anos viajando em todas as direções. Se imaginarmos o universo como um balão de festa que vai enchendo na medida em que se sopra dentro dele, 13,7 bilhões de anos, ou 13,7 bilhões de anos-luz, é o raio do balão. Como o diâmetro é o dobro do raio, o diâmetro do universo deve estar em cerca de 27,4 bilhões de anos-luz.
Retome agora a nossa trena cósmica e vamos calcular o tamanho do cosmo. Se os 100 mil anos-luz da Via Láctea correspondem a um centímetro da trena cósmica, quanto seria 27,4 bilhões de anos-luz? A conta é fácil, embora cheia de zeros. Uso uma calculadora para chegar ao resultado. Obtenho a resposta. O diâmetro do universo é 274 mil vezes maior que o da Via Láctea. Convencionamos que o comprimento da nossa galáxia é um centímetro, certo? Então o diâmetro do universo é 2,74 km.
O universo pode ser imaginado como uma esfera em expansão com diâmetro atual de 2,74 km, sendo que cada centímetro equivale a uma Via Láctea. Esta esfera tem um volume de 10,77 km³. Em seu interior cabe todas as 400 bilhões de galáxias do universo visível, cada qual com uma média de 100 bilhões de estrelas, cada uma com seus incontáveis planetas.
“O universo é um lugar muito, muito grande”, lê-se no romance “Contato” (1985), de Carl Sagan. “Se só existisse vida aqui na Terra, então o universo seria um enorme desperdício de espaço.” Não consigo imaginar afirmação mais verdadeira.
Construa comigo uma imagem mental das dimensões do cosmo
PETER MOON
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Peter Moon Repórter especial
de ÉPOCA vive No mundo da
Lua, um espaço onde dá
vazão ao seu fascínio por
aventura, cultura, ciência e
tecnologia.
petermoon@edglobo.com.br
Eu sempre adorei astronomia. Desde pequeno lembro-me de olhar fascinado uma coleção de livros da revista Life que meu pai comprou, com fotos de estrelas e galáxias. Era o início dos anos 1970, o homem já havia pisado na Lua, o universo era fascinante, inescrutável e em preto e branco. Foi só nos anos 1990, com as imagens captadas pelo telescópio espacial Hubble, que o universo foi pintado com cores deslumbrantes. Foi quando descobrimos que aquelas nebulosas distantes não eram nuvens de poeira acinzentada, mas que reluziam com todos os tons cores do espectro.
Ainda menino, fascinado com a beleza monocrômica das estrelas e galáxias, comecei a tentar conceber o que significariam as inconcebíveis distâncias cosmológicas envolvidas. Naquela época, li que a Via Láctea, a nossa galáxia, é uma espiral com 100 bilhões de estrelas e um diâmetro de 100 mil anos-luz. É impossível imaginar o que isto significa. Mas confesso que, aos 12 anos, tentei fazê-lo. Eu queria imaginar mentalmente o que significariam os 100 mil anos-luz do diâmetro da Via Láctea para, a partir deste cálculo, tentar imaginar o tamanho do universo.
Nos anos 1970, a teoria do Big Bang já estava bem consolidada. Ela reza que o universo surgiu de uma explosão primordial que lançou matéria e energia em todas as direções. Com o passar das eras, matéria e energia começaram a formar galáxias e estrelas. Nos anos 1970, a idade do universo ainda era incerta. Lembro que meus primeiros cálculos mentais foram feitos com base num universo surgido há 20 bilhões de anos – hoje sabemos com precisão que o Big Bang aconteceu há 13,7 bilhões de anos.
O universo é tão antigo e sua escala de tempo é tão deslocada da escala de tempo de uma vida humana, ou mesmo da civilização, que se torna incompreensível. Não é possível imaginar o que são 13,7 bilhões de anos. Mas é possível conceber analogias que nos aproximem - se não de uma resposta -, pelo menos de um significado, de uma imagem cerebral do universo. Foi o que aquele menino paulistano de 12 anos começou a fazer – e faz até hoje.
Vamos lá. O segredo deste exercício mental é esquecer a palavra tempo, e passar a imaginar o tempo como um sinônimo de espaço. Na verdade, o espaço e o tempo são duas faces da mesma moeda universal, assim como a matéria e a energia, como Albert Einstein nos ensinou. O espaço e o tempo nasceram com o Big Bang. Logo, não faz sentido tentar imaginar se existe algo “fora” ou “além” do universo, porque só existe espaço e tempo no universo. Se existem outros universos ou universos-bebês?, e se eles nascem do interior de buracos-negros para se expandir em dimensões desconhecidas?, estas são especulações teóricas do âmbito dos cosmólogos – e terreno fértil para quem busca respostas metafísicas para a origem de tudo. Não é o meu caso.
Como imaginar o tamanho da Via Láctea?
A unidade de distância cosmológica é a velocidade da luz, ou seja, 299.792,49 quilômetros por segundo, que se convencionou arredondar para 300 mil km/s. É muito. A nave espacial mais veloz construída pelo homem é a sonda americana Voyager I, lançada em 1977. Passados 34 anos, a Voyager I se encontra neste momento além da órbita de Plutão, na porta de saída do Sistema Solar. Sua velocidade é 17,46 km/s. Ou seja, a Voyager I cobriria os 446 km que separam São Paulo do Rio de Janeiro em 25 segundos. É muito rápida, mas uma lesma paralítica caso comparada à velocidade da luz. A velocidade da luz é mais de 17 mil vezes superior à da Voyager I.
Basta um segundo para a luz completar 7,5 voltas em torno da Terra, cuja circunferência é de 40 mil km. A distância média da Terra à Lua é de 384 mil km. A luz emitida pelo Sol que ilumina a superfície da Lua, e reflete em direção à Terra leva 1,28 segundos para, saindo da Lua, atingir a sua retina. Ou seja, a imagem que vemos da Lua é como ela era 1,28 segundos no passado.
O Sol encontra-se a 150 milhões de km da Terra. A luz leva 8 minutos e 18 segundos para cobrir essa distância. Se o Sol explodisse neste exato instante – fique tranquilo, isto jamais acontecerá – a imagem da explosão só seria visível daqui 8 minutos e 18 segundos – e seria a última coisa que qualquer um de nós assistiria, pois a Terra deixaria de existir.
É quando olhamos o céu noturno pontilhado de estrelas que as coisas começam a ficar realmente assombrosas. Quantas estrelas existem no céu? Elas são incontáveis, e ainda assim são um número ínfimo se comparado às estrelas da Via Láctea que são invisíveis ao olho nu. Pensando apenas nos pontinhos cintilantes que conseguimos distinguir no céu noturno, quão longe eles estão? Bem longe. De todas as estrelas no céu, a mais próxima do sistema solar é, como seu nome indica, Próxima Centauri, a 4,2 anos-luz de distância. A mesma luz que dá 7,5 voltas na Terra em um segundo precisa de 4,2 anos para cobrir a distância que separa Próxima Centauri do Sol. Daí se conclui que a luz de todas as estrelas que observamos à noite levou, NO MÍNIMO, 4,2 anos viajando pelo espaço interestelar até chegar à nossa retina.
Agora estamos começando a adentrar as dimensões cósmicas. Elas são incompreensíveis. Estão aquém e além das dimensões do microcosmo ao qual estamos acostumados. Aqui, a unidade básica é o ano-luz, a distância que a luz percorre em um ano, ou 9,46 trilhões de quilômetros. Este número é tão grande que, para todos os efeitos, não tem significado algum. Pode esquecê-lo. Nossa unidade é o ano-luz.
Sabemos que a Via Láctea é uma imensa galáxia em espiral que abriga 100 bilhões de estrelas e tem um diâmetro de 100 mil anos-luz. Ou seja, a luz emitida por uma estrela em uma extremidade leva 100 milênios para atingir a outra extremidade. Há 100 mil anos, nossa espécie, os Homo sapiens, ainda se encontrava confinada na África.
A galáxia gigante de Andrômeda, irmã gêmea da Via Láctea, é a galáxia em espiral mais próxima da nossa. Andrômeda está a 2,9 milhões de anos-luz de distância. Vale dizer que, ao usar-se um telescópio para observar Andrômeda, o que se vê é a luz que saiu dela para cobrir a vastidão intergaláctica há 2,9 milhões de anos, quando Lucy e os Australopithecus afarensis viviam tranquilos na África, sem sonhar que, de sua linhagem, evoluiriam primatas capazes de ir á Lua.
Como imaginar o tamanho do universo?
Foi este o cálculo mental que fiz pela primeira vez aos 12 anos. Agora que sabemos que a Via Láctea mede 100 mil anos-luz, esqueça tudo isto e considere os 100 mil anos-luz da nossa galáxia como se sendo apenas e tão somente um centímetro do metro de uma trena cósmica. Nesse caso, Andrômeda estaria a 29 cm de distância. Não parece tão longe quanto antes, parece?
Longe mesmo são os confins do universo. O universo surgiu há 13,7 bilhões de anos. O Big Bang foi uma explosão que lançou matéria e energia em todas as direções, logo as primeiras radiações emitidas estão há 13,7 bilhões de anos viajando em todas as direções. Se imaginarmos o universo como um balão de festa que vai enchendo na medida em que se sopra dentro dele, 13,7 bilhões de anos, ou 13,7 bilhões de anos-luz, é o raio do balão. Como o diâmetro é o dobro do raio, o diâmetro do universo deve estar em cerca de 27,4 bilhões de anos-luz.
Retome agora a nossa trena cósmica e vamos calcular o tamanho do cosmo. Se os 100 mil anos-luz da Via Láctea correspondem a um centímetro da trena cósmica, quanto seria 27,4 bilhões de anos-luz? A conta é fácil, embora cheia de zeros. Uso uma calculadora para chegar ao resultado. Obtenho a resposta. O diâmetro do universo é 274 mil vezes maior que o da Via Láctea. Convencionamos que o comprimento da nossa galáxia é um centímetro, certo? Então o diâmetro do universo é 2,74 km.
O universo pode ser imaginado como uma esfera em expansão com diâmetro atual de 2,74 km, sendo que cada centímetro equivale a uma Via Láctea. Esta esfera tem um volume de 10,77 km³. Em seu interior cabe todas as 400 bilhões de galáxias do universo visível, cada qual com uma média de 100 bilhões de estrelas, cada uma com seus incontáveis planetas.
“O universo é um lugar muito, muito grande”, lê-se no romance “Contato” (1985), de Carl Sagan. “Se só existisse vida aqui na Terra, então o universo seria um enorme desperdício de espaço.” Não consigo imaginar afirmação mais verdadeira.
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Peter Moon Repórter especial
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petermoon@edglobo.com.br
Na coluna Qual é o tamanho do universo?, convidei os leitores a construir uma imagem mental das dimensões do cosmo. Aqui faremos uma trajetória no sentido inverso. O destino é o coração da matéria. Trata-se de uma travessia muito mais distante. Não, não me enganei. É isso mesmo. O caminho até o coração da matéria é muito mais longo do que aquele que leva às fronteiras do cosmo.
O universo é incompreensivelmente colossal. Embora as dimensões do nosso dia-a-dia percam qualquer significado quando comparadas às vastidões intergalácticas, ainda assim as dimensões do cotidiano são enganosas. Isto porque, proporcionalmente, o diminuto no coração da matéria é algumas ordens de grandeza mais vasto do que a distância que nos separa dos limites do universo. “Há muito espaço lá em baixo” (“There`s plenty of room at the bottom”), afirmou, em 1959, o físico americano e ganhador do Nobel, Richard Feynman. Ele fazia menção à vastidão de espaços vazios que se esconde no interior da matéria. É esta vastidão oculta que me disponho a explorar.
Aqui vale o ditado: uma imagem vale mais do que mil palavras. Imagine uma trena de um metro de comprimento. Este metro é um cisco se comparado ao tamanho do universo visível. Na ponta do lápis, um metro é um comprimento 13 bilhões de trilhões de trilhões de vezes menor que o raio do universo atual, ou seja, os 13,7 bilhões de anos-luz decorridos desde o início dos tempos, no Big Bang.
Agora, o sentido inverso. Se a maior estrutura que existe é o universo, a menor é o comprimento de Planck. É a menor unidade de comprimento da Física. Seu nome é uma homenagem ao fundador da Mecânica Quântica, o físico alemão Max Planck (1858-1947). O comprimento de Planck desempenha uma função importante na física moderna, pois para comprimentos inferiores a este, tanto a Mecânica Quântica quanto a Relatividade Geral, as duas teorias basilares da Física moderna, perdem o sentido, deixando de poder descrever os comportamentos de partículas.
Se as leis da física “perdem o sentido” em qualquer comprimento menor do que o comprimento de Planck, então o comprimento de Planck deve ser o menor comprimento do universo. Ele seria uma barreira intransponível, assim como a velocidade da luz é a velocidade limite do universo, e nada pode ser mais veloz.
O comprimento de Planck era o tamanho do universo no instante do Big Bang. O comprimento de Planck era praticamente igual a nada, salvo um cisco infinitesimal. Foi daquele cisco infinitesimal, trilhões de vezes menor do que um átomo de hidrogênio, que surgiu o universo. Num instante, não havia nada. No outro, do nada surgiu o tudo.
Qual seria o tamanho daquele quase “nada”, daquele cisco infinitesimal que os físicos convencionaram chamar de comprimento de Planck? É muito, muito, muito pequeno. O comprimento de Planck é 160 trilhões de trilhões de trilhões de vezes menor do que o metro, ou um número com 35 casas decimais depois da vírgula.
Do macrocosmo ao microcosmo
Agora retomemos a comparação do metro com o universo. O metro é 13 bilhões de trilhões de trilhões de vezes menor que o universo atual. Este mesmo metro também é 160 trilhões de trilhões de trilhões de vezes maior do que o comprimento de Planck. Basta um cálculo de divisão para se descobrir o seguinte: se, por um instante, considerássemos o comprimento de Planck como sendo igual a um metro, e multiplicássemos este metro 160 trilhões de trilhões de trilhões de vezes, teríamos uma distância equivalente a cerca de 12.300 universos. O resultado seria 12.300 vezes maior que os 13,7 bilhões de anos-luz que nos separam do Big Bang. Por consequência, a distância que nos separa do limiar do universo é proporcionalmente 12.300 vezes menor do que a distância que nos separa dos limiar da matéria.
Neste momento você talvez esteja um pouco confuso. Confesso que eu também. Nossa mente não evoluiu para trabalhar com escalas e dimensões de tamanha grandeza, sejam elas quase infinitas ou quase infinitesimais, macrocósmicas ou microcósmicas. O que tentei demonstrar acima é que o trajeto de uma viagem fantástica ao coração da matéria é 12.300 vezes mais longo – em termos tridimensionais - do que uma viagem cósmica aos confins do universo. Vamos embarcar nesta miniaturização?
Rumo à intimidade da matéria
1 - O METRO
Comprimento: 1 metro
Tudo começa com o metro, usado para medir as dimensões do dia-a-dia do Homo sapiens. O metro é o ponto de partida de um passeio que terá várias paradas. Cada uma delas ocorrerá em um espaço tridimensional 1.000 vezes menor do que o anterior.
2 - O SAL
Comprimento: 1 milímetro (mm) = 0,001 metro
Assim, do metro descemos ao seu milésimo, o milímetro. O diâmetro de um grão de sal é 0,5 mm. Não há desconforto em tentar visualizar esta dimensão, pois ela faz parte do nosso cotidiano, assim como fios de cabelo e cabeças de alfinete.
3 - A CÉLULA
Comprimento: 1 micrômetro (µm) = 0,000.001 metro
Do milímetro vamos ao milionésimo do metro, que se chama micrômetro ou mícron. A microtecnologia é assim chamada porque opera na escala micrométrica. O micro é a unidade de comprimento básica da biologia. O diâmetro de uma célula de sangue é 7 µm. Este é um domínio invisível ao olho humano, que só pôde ser perscrutado a partir da invenção do microscópio, no século XVII.
4 – MOLÉCULAS E VÍRUS
Comprimento: 1 nanômetro (nm) = 0,000.000.001 metro
Encolhendo-se outras três ordens de grandeza chega-se ao nanômetro, a bilionésima parte do metro. A nanotecnologia tem este nome porque suas técnicas operam (ou um dia operarão) na escala dos nanômetros. O nanômetro é a unidade de comprimento de moléculas grandes, como o DNA, e dos vírus. O diâmetro do vírus da Aids é 90 nm. O domínio nanométrico só pôde começar a ser visualizado a partir dos anos 1930, com os primeiros microscópios eletrônicos.
5 – O ÁTOMO
Comprimento: 1 picômetro (pm) = 0,000.000.000.001 metro
A próxima parada desta miniaturização é o picômetro, a trilionésima parte do metro. Uma molécula de água mede 280 pm. O diâmetro de um átomo de hidrogênio, o menor, mais leve, mais simples e abundante dos elementos químicos, é 25 pm. Este é o domínio observado através dos microscópios de varredura. Inventados nos anos 1980, são os mais avançados.
6 – O NÚCLEO ATÔMICO
Comprimento: 1 femtômetro (fm) = 0,000.000.000.000.001 metro
Quando as dimensões atingem a quadrilionésima parte do metro, o femtômetro, adentramos os domínios subatômicos. O diâmetro médio de um núcleo atômico, com seus prótons e nêutrons reunidos, é 10 femtômetros. Já o diâmetro de prótons e nêutrons é 1 femtômetro. Ou seja, o átomo é rigorosamente uma esfera vazia no centro da qual reside um núcleo 100 mil vezes menor que o átomo. Em torno do núcleo orbita uma nuvem de elétrons à velocidade da luz. Afinal, onde está a matéria que observamos ao abrir os olhos? O que chamamos matéria é um imenso conjunto de átomos que são, essencialmente, ocos e vazios.
Aqui começa o mundo invisível da matéria. Nenhum núcleo atômico jamais foi observado por um microscópio. Não observar não é sinônimo de não conhecer. Os domínios do quadrilionésimo do metro são investigados 24 horas por dia, 365 dias por ano e milhões de vezes por segundo, no interior do Grande Colisor de Hádrons (LHC), o acelerador de partículas em Genebra. Os físicos usam o LHC para acelerar prótons a velocidades próximas às da luz e então chocá-los de frente, para assim poder estudar os escombros das trombadas à caça de partículas subatômicas desconhecidas.
7 – ELÉTRONS E QUARKS
Comprimento: 1 attômetro (am) = 0,000.000.000.000.000.001 metro
O elétron, esse nosso companheiro tão cotidiano, é o responsável pela eletricidade e por permitir o funcionamento da maioria das tecnologias da era da informação. O diâmetro de um elétron é a quintilionésima parte do metro ou 1 attômetro. É o mesmo diâmetro dos quarks, as partículas subatômicas aprisionadas no interior de prótons e nêutrons. Novamente, perceba, o núcleo atômico é outra estrutura essencialmente vazia, pois cada próton e nêutron é composto por três quarks, cada qual mil vezes menor. Logo, só 3 partes por mil do volume de um próton ou de um nêutron são ocupados por matéria. E do que são feitos os quarks? Essa é uma pergunta que os físicos procuram sem sucesso tentar responder há quase meio século. Se os quarks são ou não são indivisíveis, ainda não sabemos.
8 – NEUTRINOS ALTAMENTE ENERGIZADOS
Comprimento: 1 zeptômetro (zm) = 0,000.000.000.000.000.000.001 metro
Os neutrinos são ínfimos. São tão pequenos que quase não interagem com o restante da matéria do universo. A cada segundo, 60 milhões de neutrinos produzidos no Sol atravessam cada centímetro cúbico do seu corpo. Eles são tão diminutos que não interagem com nenhum dos trilhões de átomos aí existentes. O diâmetro de um neutrino altamente energizado é um sextilionésimo de metro ou 1 zeptômetro.
9 – O NEUTRINO DE BAIXA ENERGIA
Comprimento: 1 yoctômtero (ym) = 0,000.000.000.000.000.000.000.001 metro
O yoctômetro ou a septilionésima parte do metro, é o diâmetro de um neutrino de baixa energia. É a menor das partículas subatômicas. Se existe alguma partícula menor, ainda não foi descoberta nem prevista em teoria.
10 – O MILÉSIMO DO YOCTÔMETRO
Comprimento: 0,000.000.000.000.000.000.000.000.001 metro
Por que não há nome para uma unidade de comprimento mil vezes menor que o yoctômetro? É porque os métodos de observação atuais não alcançam distâncias tão curtas, logo esta medida não é utilizável, daí AINDA não ter nome.
11 – O MILIONÉSIMO DO YOCTÔMETRO
Comprimento: 0,000.000.000.000.000.000.000.000.000.001 metro
Idem (vide acima). A vastidão de vazios oculta no interior da matéria de que Feynman falou parece não ter fim.
12 - O BILIONÉSIMO DO YOCTÔMETRO
Comprimento: 0,000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.001 metro
Ibidem. Feynman era um gênio, um dos pensadores do século XX.
13 – O COMPRIMENTO DE PLANCK
Comprimento: 0,000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.16 metro
É o final da jornada microcósmica. O comprimento de Planck é 160 trilhões de trilhões de trilhões de vezes menor do que o metro. Ou 160 avos da bilionésima parte do yoctômetro. É o infinitamente pequeno, uma distância inconcebivelmente curta. Para os físicos defensores da Teoria das Cordas, é nesta dimensão que as tais “cordas” constituintes da matéria “vibrariam”, e da sua vibração ecoaria o mundo como o conhecemos.
O vazio universal
O comprimento de Planck é um limite universal - e um conceito teórico. Ele nunca foi observado, provavelmente nunca o será, e sua existência só é descrita por equações. Se existe algo menor, falta-nos um novo Albert Einstein, outro Isaac Newton ou um Max Planck para revelar uma lógica da Natureza insuspeita, capaz de reger a ordem universal em um nível ainda mais elementar.
Neste itinerário que parte das dimensões do nosso cotidiano até chegar ao âmago da matéria, o que salta aos olhos é o inacreditável, o quase incomensurável vazio ao qual chamamos matéria. Tanto nos mais íntimos recônditos do átomo quanto nas vastidões interestelares e intergalácticas, o que existe é o vazio - ou praticamente nada. Voltando ao Big Bang, antes dele não havia nada, e do nada brotou o tudo. E o tudo, o universo, é vazio. Logo, o nada ainda é o nada - à exceção das 400 bilhões de galáxias, com as suas centenas de bilhões de estrelas e planetas - e, claro, da vida que nos move.
P.S.
Aos interessados em visualizar o que significaria uma viagem dimensional do Big Bang ao coração da matéria, sugiro uma visita ao site A escala do universo.
E aos leitores que puderem um dia ir a Nova York, defendo ardorosamente uma visita ao Planetário Hayden, no Museu Americano de História Natural. O planetário é dos anos 1930. Ele foi reformado em 2000. Agora tem uma esfera prateada de 20 metros de diâmetro que simboliza o universo. Ao seu redor, uma rampa em espiral de 110 metros desce lentamente, envolvendo a esfera. É o Passeio Cósmico (ou Cosmic Pathway), um trajeto que nos leva do macrocosmo ao microcosmo. É um passeio inesquecível.
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Peter Moon Repórter especial
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Lua, um espaço onde dá
vazão ao seu fascínio por
aventura, cultura, ciência e
tecnologia.
petermoon@edglobo.com.br
Na coluna Qual é o tamanho do universo?, convidei os leitores a construir uma imagem mental das dimensões do cosmo. Aqui faremos uma trajetória no sentido inverso. O destino é o coração da matéria. Trata-se de uma travessia muito mais distante. Não, não me enganei. É isso mesmo. O caminho até o coração da matéria é muito mais longo do que aquele que leva às fronteiras do cosmo.
O universo é incompreensivelmente colossal. Embora as dimensões do nosso dia-a-dia percam qualquer significado quando comparadas às vastidões intergalácticas, ainda assim as dimensões do cotidiano são enganosas. Isto porque, proporcionalmente, o diminuto no coração da matéria é algumas ordens de grandeza mais vasto do que a distância que nos separa dos limites do universo. “Há muito espaço lá em baixo” (“There`s plenty of room at the bottom”), afirmou, em 1959, o físico americano e ganhador do Nobel, Richard Feynman. Ele fazia menção à vastidão de espaços vazios que se esconde no interior da matéria. É esta vastidão oculta que me disponho a explorar.
Aqui vale o ditado: uma imagem vale mais do que mil palavras. Imagine uma trena de um metro de comprimento. Este metro é um cisco se comparado ao tamanho do universo visível. Na ponta do lápis, um metro é um comprimento 13 bilhões de trilhões de trilhões de vezes menor que o raio do universo atual, ou seja, os 13,7 bilhões de anos-luz decorridos desde o início dos tempos, no Big Bang.
Agora, o sentido inverso. Se a maior estrutura que existe é o universo, a menor é o comprimento de Planck. É a menor unidade de comprimento da Física. Seu nome é uma homenagem ao fundador da Mecânica Quântica, o físico alemão Max Planck (1858-1947). O comprimento de Planck desempenha uma função importante na física moderna, pois para comprimentos inferiores a este, tanto a Mecânica Quântica quanto a Relatividade Geral, as duas teorias basilares da Física moderna, perdem o sentido, deixando de poder descrever os comportamentos de partículas.
Se as leis da física “perdem o sentido” em qualquer comprimento menor do que o comprimento de Planck, então o comprimento de Planck deve ser o menor comprimento do universo. Ele seria uma barreira intransponível, assim como a velocidade da luz é a velocidade limite do universo, e nada pode ser mais veloz.
O comprimento de Planck era o tamanho do universo no instante do Big Bang. O comprimento de Planck era praticamente igual a nada, salvo um cisco infinitesimal. Foi daquele cisco infinitesimal, trilhões de vezes menor do que um átomo de hidrogênio, que surgiu o universo. Num instante, não havia nada. No outro, do nada surgiu o tudo.
Qual seria o tamanho daquele quase “nada”, daquele cisco infinitesimal que os físicos convencionaram chamar de comprimento de Planck? É muito, muito, muito pequeno. O comprimento de Planck é 160 trilhões de trilhões de trilhões de vezes menor do que o metro, ou um número com 35 casas decimais depois da vírgula.
Do macrocosmo ao microcosmo
Agora retomemos a comparação do metro com o universo. O metro é 13 bilhões de trilhões de trilhões de vezes menor que o universo atual. Este mesmo metro também é 160 trilhões de trilhões de trilhões de vezes maior do que o comprimento de Planck. Basta um cálculo de divisão para se descobrir o seguinte: se, por um instante, considerássemos o comprimento de Planck como sendo igual a um metro, e multiplicássemos este metro 160 trilhões de trilhões de trilhões de vezes, teríamos uma distância equivalente a cerca de 12.300 universos. O resultado seria 12.300 vezes maior que os 13,7 bilhões de anos-luz que nos separam do Big Bang. Por consequência, a distância que nos separa do limiar do universo é proporcionalmente 12.300 vezes menor do que a distância que nos separa dos limiar da matéria.
Neste momento você talvez esteja um pouco confuso. Confesso que eu também. Nossa mente não evoluiu para trabalhar com escalas e dimensões de tamanha grandeza, sejam elas quase infinitas ou quase infinitesimais, macrocósmicas ou microcósmicas. O que tentei demonstrar acima é que o trajeto de uma viagem fantástica ao coração da matéria é 12.300 vezes mais longo – em termos tridimensionais - do que uma viagem cósmica aos confins do universo. Vamos embarcar nesta miniaturização?
Rumo à intimidade da matéria
1 - O METRO
Comprimento: 1 metro
Tudo começa com o metro, usado para medir as dimensões do dia-a-dia do Homo sapiens. O metro é o ponto de partida de um passeio que terá várias paradas. Cada uma delas ocorrerá em um espaço tridimensional 1.000 vezes menor do que o anterior.
2 - O SAL
Comprimento: 1 milímetro (mm) = 0,001 metro
Assim, do metro descemos ao seu milésimo, o milímetro. O diâmetro de um grão de sal é 0,5 mm. Não há desconforto em tentar visualizar esta dimensão, pois ela faz parte do nosso cotidiano, assim como fios de cabelo e cabeças de alfinete.
3 - A CÉLULA
Comprimento: 1 micrômetro (µm) = 0,000.001 metro
Do milímetro vamos ao milionésimo do metro, que se chama micrômetro ou mícron. A microtecnologia é assim chamada porque opera na escala micrométrica. O micro é a unidade de comprimento básica da biologia. O diâmetro de uma célula de sangue é 7 µm. Este é um domínio invisível ao olho humano, que só pôde ser perscrutado a partir da invenção do microscópio, no século XVII.
4 – MOLÉCULAS E VÍRUS
Comprimento: 1 nanômetro (nm) = 0,000.000.001 metro
Encolhendo-se outras três ordens de grandeza chega-se ao nanômetro, a bilionésima parte do metro. A nanotecnologia tem este nome porque suas técnicas operam (ou um dia operarão) na escala dos nanômetros. O nanômetro é a unidade de comprimento de moléculas grandes, como o DNA, e dos vírus. O diâmetro do vírus da Aids é 90 nm. O domínio nanométrico só pôde começar a ser visualizado a partir dos anos 1930, com os primeiros microscópios eletrônicos.
5 – O ÁTOMO
Comprimento: 1 picômetro (pm) = 0,000.000.000.001 metro
A próxima parada desta miniaturização é o picômetro, a trilionésima parte do metro. Uma molécula de água mede 280 pm. O diâmetro de um átomo de hidrogênio, o menor, mais leve, mais simples e abundante dos elementos químicos, é 25 pm. Este é o domínio observado através dos microscópios de varredura. Inventados nos anos 1980, são os mais avançados.
6 – O NÚCLEO ATÔMICO
Comprimento: 1 femtômetro (fm) = 0,000.000.000.000.001 metro
Quando as dimensões atingem a quadrilionésima parte do metro, o femtômetro, adentramos os domínios subatômicos. O diâmetro médio de um núcleo atômico, com seus prótons e nêutrons reunidos, é 10 femtômetros. Já o diâmetro de prótons e nêutrons é 1 femtômetro. Ou seja, o átomo é rigorosamente uma esfera vazia no centro da qual reside um núcleo 100 mil vezes menor que o átomo. Em torno do núcleo orbita uma nuvem de elétrons à velocidade da luz. Afinal, onde está a matéria que observamos ao abrir os olhos? O que chamamos matéria é um imenso conjunto de átomos que são, essencialmente, ocos e vazios.
Aqui começa o mundo invisível da matéria. Nenhum núcleo atômico jamais foi observado por um microscópio. Não observar não é sinônimo de não conhecer. Os domínios do quadrilionésimo do metro são investigados 24 horas por dia, 365 dias por ano e milhões de vezes por segundo, no interior do Grande Colisor de Hádrons (LHC), o acelerador de partículas em Genebra. Os físicos usam o LHC para acelerar prótons a velocidades próximas às da luz e então chocá-los de frente, para assim poder estudar os escombros das trombadas à caça de partículas subatômicas desconhecidas.
7 – ELÉTRONS E QUARKS
Comprimento: 1 attômetro (am) = 0,000.000.000.000.000.001 metro
O elétron, esse nosso companheiro tão cotidiano, é o responsável pela eletricidade e por permitir o funcionamento da maioria das tecnologias da era da informação. O diâmetro de um elétron é a quintilionésima parte do metro ou 1 attômetro. É o mesmo diâmetro dos quarks, as partículas subatômicas aprisionadas no interior de prótons e nêutrons. Novamente, perceba, o núcleo atômico é outra estrutura essencialmente vazia, pois cada próton e nêutron é composto por três quarks, cada qual mil vezes menor. Logo, só 3 partes por mil do volume de um próton ou de um nêutron são ocupados por matéria. E do que são feitos os quarks? Essa é uma pergunta que os físicos procuram sem sucesso tentar responder há quase meio século. Se os quarks são ou não são indivisíveis, ainda não sabemos.
8 – NEUTRINOS ALTAMENTE ENERGIZADOS
Comprimento: 1 zeptômetro (zm) = 0,000.000.000.000.000.000.001 metro
Os neutrinos são ínfimos. São tão pequenos que quase não interagem com o restante da matéria do universo. A cada segundo, 60 milhões de neutrinos produzidos no Sol atravessam cada centímetro cúbico do seu corpo. Eles são tão diminutos que não interagem com nenhum dos trilhões de átomos aí existentes. O diâmetro de um neutrino altamente energizado é um sextilionésimo de metro ou 1 zeptômetro.
9 – O NEUTRINO DE BAIXA ENERGIA
Comprimento: 1 yoctômtero (ym) = 0,000.000.000.000.000.000.000.001 metro
O yoctômetro ou a septilionésima parte do metro, é o diâmetro de um neutrino de baixa energia. É a menor das partículas subatômicas. Se existe alguma partícula menor, ainda não foi descoberta nem prevista em teoria.
10 – O MILÉSIMO DO YOCTÔMETRO
Comprimento: 0,000.000.000.000.000.000.000.000.001 metro
Por que não há nome para uma unidade de comprimento mil vezes menor que o yoctômetro? É porque os métodos de observação atuais não alcançam distâncias tão curtas, logo esta medida não é utilizável, daí AINDA não ter nome.
11 – O MILIONÉSIMO DO YOCTÔMETRO
Comprimento: 0,000.000.000.000.000.000.000.000.000.001 metro
Idem (vide acima). A vastidão de vazios oculta no interior da matéria de que Feynman falou parece não ter fim.
12 - O BILIONÉSIMO DO YOCTÔMETRO
Comprimento: 0,000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.001 metro
Ibidem. Feynman era um gênio, um dos pensadores do século XX.
13 – O COMPRIMENTO DE PLANCK
Comprimento: 0,000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.000.16 metro
É o final da jornada microcósmica. O comprimento de Planck é 160 trilhões de trilhões de trilhões de vezes menor do que o metro. Ou 160 avos da bilionésima parte do yoctômetro. É o infinitamente pequeno, uma distância inconcebivelmente curta. Para os físicos defensores da Teoria das Cordas, é nesta dimensão que as tais “cordas” constituintes da matéria “vibrariam”, e da sua vibração ecoaria o mundo como o conhecemos.
O vazio universal
O comprimento de Planck é um limite universal - e um conceito teórico. Ele nunca foi observado, provavelmente nunca o será, e sua existência só é descrita por equações. Se existe algo menor, falta-nos um novo Albert Einstein, outro Isaac Newton ou um Max Planck para revelar uma lógica da Natureza insuspeita, capaz de reger a ordem universal em um nível ainda mais elementar.
Neste itinerário que parte das dimensões do nosso cotidiano até chegar ao âmago da matéria, o que salta aos olhos é o inacreditável, o quase incomensurável vazio ao qual chamamos matéria. Tanto nos mais íntimos recônditos do átomo quanto nas vastidões interestelares e intergalácticas, o que existe é o vazio - ou praticamente nada. Voltando ao Big Bang, antes dele não havia nada, e do nada brotou o tudo. E o tudo, o universo, é vazio. Logo, o nada ainda é o nada - à exceção das 400 bilhões de galáxias, com as suas centenas de bilhões de estrelas e planetas - e, claro, da vida que nos move.
P.S.
Aos interessados em visualizar o que significaria uma viagem dimensional do Big Bang ao coração da matéria, sugiro uma visita ao site A escala do universo.
E aos leitores que puderem um dia ir a Nova York, defendo ardorosamente uma visita ao Planetário Hayden, no Museu Americano de História Natural. O planetário é dos anos 1930. Ele foi reformado em 2000. Agora tem uma esfera prateada de 20 metros de diâmetro que simboliza o universo. Ao seu redor, uma rampa em espiral de 110 metros desce lentamente, envolvendo a esfera. É o Passeio Cósmico (ou Cosmic Pathway), um trajeto que nos leva do macrocosmo ao microcosmo. É um passeio inesquecível.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
COMO ENTENDER UM ATEU
“Quem quiser crer, crê e acabou-se.” Saramago
Autor: Meire Gomes
Em 2009 publiquei um ensaio extenso chamado ‘Acerca da Fé – uma peça em 12 atos‘, objetivando estimular tanto a tolerância entre pessoas com fé e sem fé quanto entre pessoas com credos distintos.
Apesar do ateu ser alvo de um preconceito praticamente generalizado e nada implícito, muitas vezes o crente também é alvo de preconceitos vindos de ateus imaturos ou muito passionais.
Este trecho do Ensaio foi construído com questões recorrentes em debates virtuais e presenciais.
Para boa parte dos leitores não haverá nada novo. O FAQ destina-se sobretudo aos crentes e aos ateus que, em vez de tratar o tema com controle emocional, debatem de maneira jocosa ou agressiva e julgam-se intelectualmente ou moralmente superiores.
Como entender um ateu?
(1) Por que eles não acreditam em Deus? E por que eles não acreditam numa mente superior?
Eles não acreditam porque não existem evidências que os convençam de que exista uma força não natural agindo sobre o Universo. Se existisse uma evidência convincente para os ateus, ela seria forte o suficiente para todo o mundo ter uma religião só ou acreditar no mesmo ou nos mesmos deuses.
As evidências das pessoas que creem são tão variadas em seus significados, que geram milhões de entendimentos mundo afora, porque elas não são fatos e sim sensações que as pessoas interpretam à sua maneira.
Da mesma forma que os religiosos merecem respeito pelo valor que dão a essas sensações, os ateus merecem respeito pelo valor que dão ao peso das evidências.
As Leis da Física, a Biologia e as Ciências de uma maneira geral conferem respostas naturais para fenômenos que são tido como sobrenaturais ou miraculosos para muitas pessoas. Quando existem lacunas e ausência de respostas, os ateus não a preenchem com forças fora da natureza: esta é uma das principais diferenças entre ateus e crentes.
Da mesma forma que você está no direito de não crer no deus dos outros, os ateus também tem o mesmo direito. Como você, eles também não compartilham a fé dos outros.
(2) Se Deus não existe, tudo é permitido para os ateus?
Não, da mesma forma que tudo não é permitido para quaisquer outras pessoas.
Se você não rouba, não mata e não estupra só porque tem medo de ir para o inferno, isto não acontece com a maior parte das pessoas, sejam elas ateias ou crentes.
Os atos do homem são passíveis de duas sentenças: os ditames de sua consciência e as normas legais de seu país. Estes dois juízes são universais e existem tenha a pessoa ou não fé em um Deus em particular.
As pessoas em geral não matam, roubam ou estupram porque o homem é um ser adaptado à vida gregária e tem freios morais devidamente selecionados ao longo da evolução da nossa espécie. A consciência é uma ‘ferramenta’ vantajosa para a vida em sociedade presente em pessoas de todas as etnias e culturas.
Pessoas destituídas de consciência, empatia ou arrependimento são os Sociopatas ou Psicopatas, que constituem, para nossa felicidade, parcela menor da população.
Os psicopatas não são apenas os serial killers, são desde pessoas que buscam ganhos ilegítimos, como alguns líderes religiosos e políticos, como aquele ‘amigo’ ou parceiro sexual aproveitador que provoca danos em terceiros e não respeita os sentimentos de ninguém.
Pode existir algum psicopata ateu? Claro que pode, ateus são pessoas como outras quaisquer.
(3) Os ateus são a favor do aborto?
Ateus não são pessoas feitas em série e que concordam entre si em todos os aspectos. Por definição, ateu é todo aquele que não acredita em um ou mais deuses.
Os ateus podem discordar entre si em outros assuntos tanto quanto um crente de uma igreja discorda de outro crente da mesma igreja.
Há ateus favoráveis à legalização do aborto, ateus contrários e ateus sem opinião formada. E o mesmo ocorre com religiosos. Muitos religiosos são favoráveis à legalização do aborto por questões de saúde pública.
(4) Os ateus cultuam o’ satã’?
Não.
O Satanás, conforme os crentes, foi criado pelo Deus cristão e seria um anjo caído. Só é possível para alguém cultuar o Satanás se acredita na existência de Deus, portanto, tal culto é um ato antirreligioso ou herege realizado por uma pessoa crente.
(5) Como os ateus enfrentam momentos de dificuldade e tristeza?
Como quaisquer outras pessoas, buscando o que lhes forneça conforto, como o apoio da família, ou de um ombro amigo. Todas as pessoas precisam de um conforto, a diferença é que ateus não buscam um conforto sobrenatural.
Da mesma forma que uma pessoa que crê em Krishna não busca Allah nos momentos difíceis, uma pessoa que crê em Alah não busca conforto em Jesus Cristo ou você, cristão, não busca conforto na Cientologia, o ateu faz o mesmo. Não busca conforto em Krishna, em Allah, em Jesus Cristo ou na Cientologia.
(6) Como a pessoa se torna ateia?
Como a formalização da crença depende primordialmente de onde a pessoa nasce, do que lhe foi ensinado na infância, das experiências que acumulou ao longo da vida, do que ouviu, viu, estudou etc, com a falta de uma crença pode ocorrer coisa similar. Mas no geral o processamento mental de não crer é mais complexo, porque nosso cérebro é predisposto a crer.
Um exercício para entender: suponhamos que você seja brasileiro e seus pais católicos e que você seja católico praticante. Se você tivesse nascido em Israel e fosse filho de Judeus ortodoxos, acha que mesmo assim seria cristão? Na infância e adolescência precoce certamente não. Mas poderia vir a ser cristão, ateu ou budista no futuro, com base em outras experiências na adultícia e seus questionamentos, ou permanecer muçulmano o resto de sua vida.
Se a pessoa já nasce num lar ateu ou agnóstico e não é ensinada a seguir um credo em particular, poderá ser ateia para o resto da vida, como poderá, em algum momento, passar a crer por influência do meio.
As pessoas adultas se julgam ateias ou crentes através de um questionamento, o que varia entre elas é o grau de satisfação das respostas que obtem. Como há pessoas com pouca ou com muita confiança em Deus, há ateus mais ou menos convictos. A fé de uma pessoa pode sofrer altos e baixos e nada impede que a convicção de um ateu em particular sofra o mesmo.
O que torna mais difícil uma pessoa tipicamente ateia se converter a algum credo em particular, é que na trajetória do ateísmo é comum a pessoa já ter sido crente antes e ter estudado ou observado diversas religiões. É possível que a mente do ateu tenha um processamento lógico diferente da mente do crente, mas isto é tema para outra discussão.
Há também a possibilidade da pessoa se tornar ateia porque perdeu um filho ou se decepcionou com a bondade de Deus. Esse tipo particular de ateísmo, o ateísmo do ‘revoltado’, é basicamente emocional e pode fazer com que a pessoa mude de opinião se sentir abençoada ou for convencida de que os problemas do mundo são provações para o crescimento espiritual do povo de Deus ou algo similar.
(7) É verdade que na hora da morte muitos ateus se convertem?
Os ateus veem a morte como algo natural e consequência da vida, mas podem ter angústias no leito de morte como quaisquer outras pessoas venham a ter.
Basta irmos a um velório para vermos o quanto as pessoas sofrem com a morte, mesmo quando creem em Deus.
Crer ou não crer não torna a nossa morte mais atraente. Pela lógica, quem acredita em Deus, Paraíso e vida após a morte deveria alegrar-se ao morrer, mas não é isto que se vê em velórios de cristãos. Uma crença autêntica na vida eterna em um mundo paralelo florido e asséptico não é compatível com luto ou medo da morte.
A morte é a demonstração concreta de nossa finitude. Choramos tanto pelo ente perdido quanto por nossa constatação de que poderemos ser o próximo.
Mesmo crendo em vida após a morte e creditando a esta o status de passagem para algo melhor, há pessoas que sofrem por anos ou até durante toda a sua vida quando perdem um filho, por exemplo. Alegar que alguém está sofrendo durante um velório exatamente por ser ateu é um vício de confirmação.
Contrariando o que muitas pessoas pensam, pacientes com longas enfermidades enfrentam a vinda da morte com muita serenidade porque tiveram mais tempo para refletir.
Defender que uma conversão de um ateu deve ocorrer na hora do sofrimento é advogar contra sua própria fé: é preciso estar desesperado para crer?
As pessoas que pensam assim esquecem que ateus são pessoas que também passam por problemas em suas vidas, e nem por isto necessariamente voltam-se para algum tipo de crença, da mesma forma que pessoas que creem necessariamente não deixam de crer porque Deus não teria ouvido suas preces.
Stephen Jay Gould, Carl Sagan e José Saramago, a exemplo de muitos outros ateus, enfrentaram suas moléstias e despediram-se da vida sem conversões religiosas.
Se você passou a vida inteira cristão convicto não se tornará ateu justamente na hora da morte, da mesma forma que um ateu em geral não abraçará algum credo.
Estar com medo ou sob ameaça dificulta um raciocínio adequado, portanto, pensar a morte anos antes dela ocorrer é a forma de se preparar ao menos parcialmente para ela, seja a pessoa crente ou ateia.
A imposição por ameaça – fogo do inferno, por exemplo – ou promessa de cura e prosperidade são formas comumente usadas por muitos líderes religiosos para forçar conversões de pessoas que de fato já são crentes, mas que estavam ‘desviadas’ da Igreja.
Os mecanismos de conversão muitos ateus conhecem na prática, porque muitos deles já creram em Deus um dia através desses caminhos.
O momento em que a pessoa está mais fragilizada emocionalmente é o mais fértil para que ela ou perca a sua fé ou se converta e não se constituem situações que especificamente caracterizem uma opção consciente.
(8) Os ateus são contra Religiões?
Alguns ateus são contra, outros são indiferentes e outros ainda apostam que a paz entre os povos seja possível mesmo com religiões.
Como já foi dito antes, o fato de alguém ser ateu não transforma sua opinião idêntica a de outros ateus em assuntos diversos.
(9) Os ateus são mais inteligentes do que os crentes? Por que há tantos ateus nas universidades e nos meios científicos? E por que praticamente não existem ateus nos presídios?
Não, ateus não são mais inteligentes do que quaisquer outras pessoas.
O que ocorre é que entre as pessoas não alfabetizadas ou com pouca instrução há uma parcela pequena de ateus/humanistas seculares, mas isso ocorre por questões sobretudo culturais.
Entre os ateus há uma parcela importante de pessoas com nível de instrução mais elevado que podem ser tão inteligentes e produtivas quanto são inteligentes e produtivos muitos crentes com o mesmo nível de instrução. Instrução e inteligência não são a mesma coisa.
O que ocorre de fato é que é mais possível uma pessoa se tornar ateia se tiver acesso à diversidade dos credos, a preceitos filosóficos e científicos, viajar mais e conhecer outras culturas.
Para ficar bem claro e evitar preconceito dos dois lados: não é preciso ser mais inteligente do que os outros para ser ateu, mas pode ser preciso ter mais instrução. E um maior nível de instrução não torna necessariamente uma pessoa ateia.
Quando se demonstra estatisticamente que o índice de criminalidade entre ateus é menor que entre crentes, não podemos concluir que ateus seriam menos predispostos ao crime do que crentes.
Há menos apenados entre os ateus da mesma forma que há menos apenados entre pessoas que creem em Deus e são economicamente favorecidas. Certamente há muitas explicações para isto, como a facilidade de acesso a bons advogados, condições materiais para o pagamento de fiança ou ação criminosa melhor planejada, como sonegação de impostos, lavagem de dinheiro, estelionato e fraudes de uma maneira geral.
As pessoas privadas das necessidades básicas – sobretudo aquelas que vivem na periferia de grande centros, já quem em zonas rurícolas há acesso à agricultura de subsistência – perpetram crimes como assalto e furtos em maior proporção quando comparadas a pessoas em menor vulnerabilidade social.
Não estou afirmando que o ambiente é a única variável, tampouco que em termos individuais a pobreza transforme alguém em criminoso, mas que as condições sociais perversas como a fome e o endividamento são variáveis de peso em termos populacionais.
Em suma: Ao atribuirmos a uma correlação estatística o mesmo peso que concedemos às verdadeiras relações de causa e efeito, poderíamos concluir que ser crente é fator de risco para ser bandido porque os presídios estão lotados de cristãos ou que o arroz cause tuberculose porque 95% dos portadores de Tuberculose ingeria arroz diariamente.
(10) Você é ateia porque nunca adoeceu ! Quero ver ser ateia quando estiver num avião caindo! Você é ateia porque nunca teve problemas !
Esses ‘argumentos’ coroam boa parte das discussões. O fato de parte significativa dos ateus ser favorecida pelo menos culturalmente gera o mito de que o ateísmo resulta da bonança, da falta de problemas.
Meu pai morreu nos meus braços, foi uma das maiores dores que tive na vida. Passado o choque inicial, permaneci serena e aceitei. Nada similar a algum tipo de conversão aconteceu.
Em 2006 eu tive suspeita de câncer. Submeti-me a duas cirurgias e em nenhum momento pensei em algum tipo de apoio sobrenatural. De fato, ser ateia me ajudou nas semanas mais difíceis, porque o crente tende a se autoflagelar com questionamentos como: “Meu Deus, por que comigo?” ou “O que eu fiz para merecer?“.
Em 2007 passei por uma turbulência durante um voo, e permitam-me os pis, mas as únicas palavras que sairam da minha boca foram: eita p****, essa m**** vai cair! E isto virou lenda entre meus amigos porque era a última ‘provação’ que faltava.
E a inversão vem ai. Depois que rebato as acusações de que sou ateia por ter ‘vida de princesa‘, o crente tende a fechar sua argumentação invertendo-a cem por cento: “Ahhhh ! Você é ateia porque acha que Deus está contra você!”
***
Não há como construirmos tolerância entre ateus e crentes de uma forma que não envolva combate bilateral ao preconceito e debate racional.
Esta é a nossa Revolução.
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postado por MeireG em Meire Gomes,Religião
Comentários (41)
Tags: Ateísmo
41 Comentários
Renan, em 9 novembro 2010 às 10:44
Excelente.
Augusto, em 9 novembro 2010 às 10:54
Muito elucidador o texto. Sintetiza de forma clara o que todo ateu poderia usar como idéia de conduta, porque nele não existe prepotência, imposição de crença e sobretudo preconceitos. Parabéns a autora.
Homero, em 9 novembro 2010 às 11:30
Excelente, muito bom o texto, e muito claro e preciso. Um texto que deveria ser distribuído nas escolas..:-). É um resumo bastante acurado da maioria das discussões com quem crê, inclusive as inversões malucas de “argumentos”.
Parabéns.
Homero
Francisco Maximiano da Silva, em 9 novembro 2010 às 11:50
O texto já era um antigo conhecido. Realmente muito esclarecedor, e compartilho da opinião de que deveria ser distribuído nas escolas. Está de parabéns!
Saulo, em 9 novembro 2010 às 11:52
Excelente texto! Tomei a liberdade de retirar um trecho e postar no meu orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16041319964563860926
Tariq Trindade, em 9 novembro 2010 às 12:07
Genial o modo como ela expôs os argumentos. Expressou coisas que eu demoraria muitos anos pra conseguir traduzir em palavras mas que estavam na minha cabeça há anos.
Sérgio K, em 9 novembro 2010 às 12:21
Excelente texto. Principalmente pelo item 4, raramente abordado. Muitas pessoas que acreditam em deus pensam que os ateus são adoradores do diabo, satanás ou qualquer outro nome. Não percebem que a concepção da existência do demônio só se justifica para contrapor a ideia de deus.
Bosco, em 9 novembro 2010 às 13:41
Um belo texto, mostra bem o cotidiano de um ateu que vive muito perto de crentes.
Heyder, em 9 novembro 2010 às 15:27
Um texto preciso.
Ah, e vejam “José & Pilar”, vale muito a pena.
felipe, em 9 novembro 2010 às 15:32
“Você é ateia porque nunca adoeceu !”
Então todo teista é doente.
lol, vi uma resposta assim, mas não me lembro onde.
Bosco, em 9 novembro 2010 às 15:38
‘Acerca da Fé – uma peça em 12 atos‘
Onde consigo na íntegra?
Mauricio, em 9 novembro 2010 às 16:31
O texto é bom, mas não levem a mal, ter um texto explicando oque é um ateu em um blog ateu, me parece uma redundancia, é verdade que alguns religiosos postam aqui, mas são uma minoria.
Se esse texto for colocado em um jornal, ou no site de um jornal de grande circulação, ai sim faria alguma diferença.
Leon, em 9 novembro 2010 às 16:58
Gostei do texto, muito bem feito, ótimo pra mostrar aos amigos, especialmente aos religiosos.
Particularmente, achei q faltou desenvolver um ponto: as crenças interferem na vida tanto dos religiosos quanto dos ateus, por isso surgem grupos como o Bule. Isso poderia deixar o texto mais agressivo, o que não me parece a intenção, mas me fez falta realmente.
Josef, em 9 novembro 2010 às 17:31
Ótimo texto. Perfeito. Já vou divulga-lo em meios onde há falta de compreensão e preconceitos. As vezes cansa dar as mesmas respostas dia após dia.
Meire G, em 9 novembro 2010 às 20:28
Bosco,
Retirei o Ensaio do ar para revisá-lo, mas ele ainda está no cache do Google:
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:nJgYyI7HFG0J:saladamedica.wordpress.com/2009/07/01/acerca-da-fe-uma-peca-em-12-atos/+%22acerca+da+f%C3%A9%22+uma+pe%C3%A7a&cd=5&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
Abraço,
@meire_g
Igor Santos, em 9 novembro 2010 às 20:52
Não existe ateu em avião caindo da mesma forma como não existe crente em ambulância.
Se a fé fosse realmente forte, não precisaria ligar para o SAMU.
Muito bom, gostei da serenidade.
Hudson Lacerda, em 9 novembro 2010 às 21:31
Meire,
Ótimo texto!
:=)
Diego Pedro, em 9 novembro 2010 às 22:33
É um ótimo texto, porém falha em alguns pontos.
Falar de várias religiões não explica o fato da não existência de Deus até porque estas religiões estão entrelaçadas em partes com a cultura de seus povos a exemplo do Islamismo e o Hindu.
O fato de a média de instrução dos ateus ser superior aos dos cristãos, atende ao fato de que os ateus acreditam que tudo pode ser explicado através da razão, e que acreditam que todas as respostas para as perguntas não respondidas um dia serão encontradas.
“Como o tudo pode ter vindo do nada?”
Esta pergunta eu fiz a vários ateus com quem tive a oportunidade de discutir sobre religião, alguns disseram que o ser humano encontrará a resposta para esta pergunta e outros rebateram com uma pergunta “E o seu Deus de onde veio”.
A questão é que os Ateus acreditam na não existência de Deus pelo fato de não haver provas físicas de sua existência, ora bolas, se existisse estas tais provas, qual seria o sentido da fé?
A fé é simplismente o ato de acreditar em algo que não há provas, parece ser algo meio sem argumento, pelo fato de o pensar ciêntifico acreditar em algo apenas se existe provas que comprove a sua veracidade. A fé é algo que não pode ser ensinada ou persuadida, e sim encontrada.
Leo, em 9 novembro 2010 às 22:48
Muuuuito bom mesmo, um texto serio e calmo.
Tata do assunto com muito realismo e susinticidade.
=)
Naná, em 10 novembro 2010 às 03:44
É foda!
P.s: Saramago era um fofo! *.*
Naná, em 10 novembro 2010 às 03:53
Outra coisa, sou atéia e morro de medo de viajar de avião!
kkkkkkk
MeireG, em 10 novembro 2010 às 07:47
Diego Pedro,
A questão “Como o tudo pode ter vindo do nada?” já começa afirmando ser verdade que o universo veio do nada, e desconsidera a possibilidade dele sempre ter existido. É um mero exercício retórico que não prova que um ou mais deuses existam ou que não existam, porém sugere muito mais a inexistência de deuses. Parafraseando Sagan, se NADA pode vir do nada, de onde teria vindo deus? E se o universo sempre existiu, não teve criador.
Nem tudo tem ou precisa ter uma explicação. É possível que a resposta para a questão de onde veio o universo nunca exista, e que as pessoas continuem criando novos deuses e novas religiões, como a Cientologia, que cresce em todo mundo. Religiões quase mortas como algumas crenças nórdicas estão voltando, e assim as pessoas vão preenchendo suas dúvidas.
O texto fala de crença e falta de crença. Eu não afirmo que não exista um deus, 10 deuses ou que o verdadeiro deus não seja Odin. Só não acredito que eles existam, da mesma forma que talvez você não acredite em Isis ou Afrodite. Sua falta de crença em Isis é tão válida quanto a minha falta de crença em qualquer outro deus e se baseia nas mesmas coisas. Não tem nada a ver acreditar em Isis, em suma.
O fato de cada cultura criar um sistema de crenças e incluir nele um ou mais deuses, a inexistência de quaisquer evidências que apontem para a existência de Odin ou Alah, toda bagagem desde a infância, tudo que li quando adulta, me tornaram ateia. Ninguém vira ateu só porque constatou que existem 25.000 credos distintos no mundo (conforme Mircea Eliade). Desculpe por ter dado esta impressão ao escrever o texto.
Um abraço,
@meire_g
Carlos, em 10 novembro 2010 às 09:16
Excelente!!! De vem em quando, precisamos de uns textos assim, como, também, por exemplo, sobre o Casamento Gay, Aborto (Eli), Estado Laico, entre outros que já obtivemos, semanas atrás. Sugiro até que os editem, maaaaaais tarde, em forma de livretos, como popularização desses conhecimentos.
Parabéns, Meire!
Mauricio, em 10 novembro 2010 às 09:39
Diego Pedro
“Falar de várias religiões não explica o fato da não existência de Deus até porque estas religiões estão entrelaçadas em partes com a cultura de seus povos a exemplo do Islamismo e o Hindu.”
Explica, porque mostra que existem muitas outras religiões, cada uma com sua ideia de como o universo se formou, e nenhuma delas apresenta evdencias pro seus deuses.
“O fato de a média de instrução dos ateus ser superior aos dos cristãos, atende ao fato de que os ateus acreditam que tudo pode ser explicado através da razão, e que acreditam que todas as respostas para as perguntas não respondidas um dia serão encontradas.”
Meio certo essa parte, sim um ateu, quando quer saber alguma coisa, pesquisa sobre o assunto,por isso a instrução maior, mas é principalmente porque nos não fomos programados pela igreja a simplesmente dizer: foi deus que fez; ou escapamos dessa programação.
Mas nem todo ateu acredita que tudo vai ter respostas, eu pelo menos no seu tempo de vida, oque da quase no mesmo.
““Como o tudo pode ter vindo do nada?”
Esta pergunta eu fiz a vários ateus com quem tive a oportunidade de discutir sobre religião, alguns disseram que o ser humano encontrará a resposta para esta pergunta e outros rebateram com uma pergunta “E o seu Deus de onde veio”.”
Nossa ciencia explica desde o Big Bang, passando pela formação das estrelas, planetas, buracos negros, materia negras, surgimento e evolução da vida, então esta longe de dizer que tudo veio o nada.
Mas se você me perguntar de onde veio a materia do Big Bang, eu não sei, mas isso não torna sua ideia, uma verdade, você ainda tem que provar que deus existe.
“A questão é que os Ateus acreditam na não existência de Deus pelo fato de não haver provas físicas de sua existência, ora bolas, se existisse estas tais provas, qual seria o sentido da fé?”
Exatamente o meu ponto, se não existe evidencias para provar isso, não tem porque acreditar, e seria uma grande irresponsabilidade, espalhar isso como verdade.
“A fé é simplismente o ato de acreditar em algo que não há provas, parece ser algo meio sem argumento, pelo fato de o pensar ciêntifico acreditar em algo apenas se existe provas que comprove a sua veracidade. A fé é algo que não pode ser ensinada ou persuadida, e sim encontrada.”
Muito errada essa parte, se a fé não pudesse ser ensinada, a igreja não cresceria, e crianças não sofreriam lavagem cerebral nas igrejas, tudo pode ser ensinado, desde o odio , ate a fe para se colocar um colete com esplosivos e matar outras pessoas.
Se a fé fosse abandona e substituida por educação e ciencia, nos teriamos menos motivos para nos separarmos, menos violencia, e com certeza uma sociedade mais justa.
Homero, em 10 novembro 2010 às 12:05
Na verdade, Diogo Pedro, estamos todos aqui esperando, fervorosamente, que você “encontre a fé” de verdade, a “fé” na existência de Papai Noel. E no Unicórnio Cor de Rosa. E em Zeus. E em Alah, claro.:-)
Não posso, claro, explicar essas existências, e não posso demonstrar nenhuma delas, mas, afinal, a fé não depende disso, mas de ser “encontrada’. Quando finalmente você “encontrar” a fé, saberá que esses seres maravilhosos e poderosos existem, e acreditará nisso firmemente.
Parece ridículo? Parece ironia e sarcarsmo? Bem, é mesmo ridículo e um pouco de ironia, foi a maneira que encontrei de tentar explicar, de novo e de novo, o erro básico de sua argumentação.
Claro que a fé é acreditar sem ter evidências, temos escrito isso centenas de vezes. Não se discute fé, as pessoas podem acreditar nas coisas mais absurdas, e não vamos discutir. São os efeitos, desdobramentos, escolhas baseadas nessas crenças que são refutadas, discutidas, recusadas.
Você não crê em deus simplesmente. Se fosse apenas isso, a discussão acabaria aqui. Você crê em deus, e nas coisas que ele pretende, objetiva, intenciona, etc. Você crê em um deus específico, tanto quanto Alah ou Zeus, e que afeta e interfere no universo material.
Nesse ponto, deveriam haver evidências disso, e, como você mesmo reconhece, não há.
A falta de uma explicação, momentânea ou permanente, como “de onde veio tudo”, NÃO é evidência de nada, a não ser da falta de explicação. A resposta poderia ser “de deus”, quanto “de seres extradimensionais poderosos que retiram energia de buracos negros para sua civilização”. Uma faz tanto sentido quanto a outra (na verdade, a segunda faz mais sentido..:-).
Ateus não “acreditam” em nada, ou melhor, ateus são diversos nas coisas em que acreditam. Ateus apenas não veem evidência de seres sobrenaturais como deuses ou deusas. Da mesma maneira inclusive que você não vê evidências de deuses de outras religiões ou de unicórnios cor de rosas. E não vendo evidências, não acredita neles.
Você não “encontrou a fé”, apenas “escolheu” um dos muitos deuses disponíveis, e pensa ser o “deus certo”. Vivesse em outra cultura, escolheria outro deus e pronto. Não pode demonstrar que escolheu o deus “certo”, nem pode demonstrar que há um deus a ser escolhido. Apenas precisa disso.
Ateus podem até precisar, como temos repetido somos diferentes em tudo, menos na conclusão sobre a falta de evidências de deuses, mas reconhecem a falta de evidências. E crer não é algo que se faça intencionalmente. Não posso “escolher” acreditar em deus, se não vejo evidências, como você não pode “escolher” acreditar em Papai Noel, mesmo que por alguns minutos.
Faça um teste, tente “acreditar” em Papai Noel por dois minutos. Consegue? Claro que não..:-) A mesma descrença que nota em você sobre Papai Noel, existe em ateus sobre seu deus. Não fique triste, sobre todos os deuses que foram imaginados também..:-)
Minha sugestão é que releia o texto deste post. Com atenção, e sem a mente fechada aos argumentos. Tente entender o que se explica. Isso evita todos estes erros de lógica e de raciocínio que apresentou em sua mensagem. O texto foi escrito justamente para isso, para sanar os erros e distorções que crentes tem sobre o que é ser ateu, o que é ateísmo.
Homero
Adriana Chilante, em 10 novembro 2010 às 12:19
Ótimo texto! Muito didático. Vou mostrar pros meus filhos, pra eles se munirem dos argumentos que, muitas vezes, tento explicar, mas fica confuso.
Eu, às vezes, ainda admito que numa grande provação, num momento de grande fragilidade emocional, possa me deixar invadir pelo “instinto” irracional de crer que existe alguém por mim.
Mas também já passei por alguns perrengues e isso não aconteceu…Estou ficando “gente grande”, igual à Meire!
Parabéns.
Gláucio Pigati, em 10 novembro 2010 às 12:23
A fé é um estranho mecanismo cerebral que parece “desligar” algumas áreas do seu cérebro responsáveis pela razão e noções de realidade, tornando possível, assim, que você acredite em tudo aquilo que sua inteligência rejeita.
Então me responda, Diego Pedro, porque raios você quer então “encontrar a fé”???
Você gosta de ser enganado, é isso? rs
Munique, em 10 novembro 2010 às 12:36
Meire, que bom que você tem essa paciência de responder perguntas como a do Diego Pedro e afins e escrever textos como esse. Eu, ultimamente, ando perdendo essa paciência. Pudera… aqui no RJ as escolas estaduais têm aula de religião (na verdade, não é aula de religião, e sim praticamente uma igreja dentro da escola… o concurso para “professor” é realizado com base no credo; tem que levar uma declaração do pastor/padre/pai de santo para mostrar que a pessoa realmente é do credo. Uma porcentagem é destinada a católicos, outra a protestantes e outra a espíritas/umbandistas (que são colocados como mesma coisa); agora… se eu abrir a boca para comentar algo que TALVEZ sugira que estou defendendo ateísmo (interpretam assim se eu comentar sobre a evolução das espécies), caem matando, é crítica pra todo lado.
AFF… preciso urgente resgatar a paciência que deixo destruírem na escola.
Munique, em 10 novembro 2010 às 12:38
E… ah! Ninguém fala nada quando os professores colocam no fim da prova “Jesus te ama!” ou um provérbio da Bíblia, mas se eu colocasse qualquer comentário ateísta, certamente receberia muitos responsáveis na escola e ganharia alguns inimigos.
Marcelo Gaio, em 10 novembro 2010 às 12:46
muito bom o texto. as leis da fisica, biologia etc explicam as mesmas coisas tanto para o teista quanto para o ateista, quando sao verdadeiras, claro. é importante lembrar que o ateu nao detem essa exclusividade.
ao mesmo tempo a ausencia de evidencias do tal deus é a mesma tanto para um quanto para o outro.
seria interessante abordar o mecanismo que o teista utiliza na pratica e que o ateu nao utiliza. o que o ateu fez com essa mecanismo todo, ja que ele existe de fato. se transformou essa mecanismo em outra coisa, como por exemplo, numa racionalizaçao das coisas, repressao, negaçao etc.
Marcelo Gaio, em 10 novembro 2010 às 13:01
Uma coisa que foi colocada em alguns pontos do texto é a variedade de deuses, crenças e religioes. como por exemplo o de rkisna nao busca alla, nem o de alla busca cristo nas horas dificeis. e o ateu nao busca nenhum.
ora, o de krisna nao busca alla por que ja tem o tal krisna. o de alla nao busca cristo por que ja tem o tal de alla. o ateu nao busca nenhum por que nao tem nenhum.
nao se pode conlcuir que as coisas sao iguais dessa forma enre ateistas e ateistas. a conclusao é que alguma coisa esta sobrando, faltando, ou esta transformada ou disfarçada. nunca igual.
Valter Paulino, em 10 novembro 2010 às 16:13
Meire
Sou católico, criado na tradição católica e militante de diversos movimentos católicos.
Meus filhos fizeram outra opção. Embasados em diversos argumentos que você, sabiamente, expõe. Meu relacionamento com eles sempre foi de respeito a diversidade de opnião, eu e a mãe deles fizemos desta forma por acreditarmos ser mais saudável para a formação moral e de carater deles. Hoje adultos sinto orgulho de ter feito tal opção ainda na mais tenra infância deles. No momento eu e meus companheiros de pastoral travamos uma verdadeira batalha com diversos de nossos pares (católicos) sobre a questão, por vezes achamos que conseguimos avançar e por outras retroceder. De que qualquer forma saiba que há um grupo de cristãos que se solidarizam com esta causa por entendermos ser uma batalha justa que implica em defender os direitos humanos. Entendemos que a liberdade religiosa é uma perna muito pequena diante da livre liberdade de expressão.
Abraços
Valter
Rufa, em 10 novembro 2010 às 18:47
@Diego Pedro
Eu preciso que você tenha fé em mim.
Eu vim de uma galáxia distante, minha nave tá sem combustível e eu preciso abastecê-la, mas não tenho dinheiro.
Me dá cem reais?
Eli Vieira, em 10 novembro 2010 às 18:49
Sem dúvida um dos melhores textos já postados neste blog!
Obrigado Meire!
Igor Santos, em 10 novembro 2010 às 19:34
Ia responder a Diego Pedro (que pelo visto nunca conversou com ateus suficientes) mas já deram excelentes respostas, então vou me abster.
Porém, preciso dizer que faltou uma coisinha no texto: ateus não são necessariamente céticos ou vice-versa. Muita gente coloca os dois grupos no mesmo saco, mas não é bem assim.
Guilherme, em 10 novembro 2010 às 19:54
gostei muito do texto! parabéns!
Conrado, em 10 novembro 2010 às 20:47
Irreparável.
A revolução do esclarecimento (podem chamar de neoiluminismo) está só começando.
Destroyer, em 11 novembro 2010 às 23:49
Se os Crentes em qualquer sobrenatural se dessem ao trabalho de fazer um texto simples e claro como esse, talvez houvesse muito menos briga entre as duas partes.
Mauricio, em 12 novembro 2010 às 00:16
Destroyer
‘Se os Crentes em qualquer sobrenatural se dessem ao trabalho de fazer um texto simples e claro como esse, talvez houvesse muito menos briga entre as duas partes.’
Pra eles é bem mais dificil, porque a visão da religião deles varia de grupo pra grupo, de varia ate por individuo, cada um tem sua versão pessoal de deus.
Alex. Chacon, em 12 novembro 2010 às 01:30
Ótimo texto! Como foi dito pela autora antes..para um ateu nada do texto é novidade. Mas a forma tão esclarecedora do texto e ao mesmo tempo abrangente e com uma paciência franciscana, faz com que o texto mesmo sendo longo, seja lido com fluência. Vale mesmo até como uma referência à idéia principal: Como entender aqueles que não crêem, ou seja, nós ateus.
Luccas, em 23 novembro 2010 às 19:21
Olá.
Gostei muito do texto: além de bem escrito, desfaz muitos mitos idiotas sobre os ateus. Eu sou Cristão, mas tenho bons amigos Ateus, e nos respeitamos mutuamente. Acho um absurdo que em pleno século 21 os Ateus ainda sofram tanto preconceito, inclusive da parte de pessoas que, num primeiro momento, julgamos esclarecidas(*), e sejam vistos como pessoas sem ética, sem justiça, sem nada de bom. Que o preconceito contra os Ateus acabe um dia: é o que espero sinceramente.
[]‘s!
(*) – Tenho em mente o Datena. Ele comparou os ateus aos bandidos. Um idiota de primeira classe. Não sei como ainda deixam ele apresentar um programa. =S
Autor: Meire Gomes
Em 2009 publiquei um ensaio extenso chamado ‘Acerca da Fé – uma peça em 12 atos‘, objetivando estimular tanto a tolerância entre pessoas com fé e sem fé quanto entre pessoas com credos distintos.
Apesar do ateu ser alvo de um preconceito praticamente generalizado e nada implícito, muitas vezes o crente também é alvo de preconceitos vindos de ateus imaturos ou muito passionais.
Este trecho do Ensaio foi construído com questões recorrentes em debates virtuais e presenciais.
Para boa parte dos leitores não haverá nada novo. O FAQ destina-se sobretudo aos crentes e aos ateus que, em vez de tratar o tema com controle emocional, debatem de maneira jocosa ou agressiva e julgam-se intelectualmente ou moralmente superiores.
Como entender um ateu?
(1) Por que eles não acreditam em Deus? E por que eles não acreditam numa mente superior?
Eles não acreditam porque não existem evidências que os convençam de que exista uma força não natural agindo sobre o Universo. Se existisse uma evidência convincente para os ateus, ela seria forte o suficiente para todo o mundo ter uma religião só ou acreditar no mesmo ou nos mesmos deuses.
As evidências das pessoas que creem são tão variadas em seus significados, que geram milhões de entendimentos mundo afora, porque elas não são fatos e sim sensações que as pessoas interpretam à sua maneira.
Da mesma forma que os religiosos merecem respeito pelo valor que dão a essas sensações, os ateus merecem respeito pelo valor que dão ao peso das evidências.
As Leis da Física, a Biologia e as Ciências de uma maneira geral conferem respostas naturais para fenômenos que são tido como sobrenaturais ou miraculosos para muitas pessoas. Quando existem lacunas e ausência de respostas, os ateus não a preenchem com forças fora da natureza: esta é uma das principais diferenças entre ateus e crentes.
Da mesma forma que você está no direito de não crer no deus dos outros, os ateus também tem o mesmo direito. Como você, eles também não compartilham a fé dos outros.
(2) Se Deus não existe, tudo é permitido para os ateus?
Não, da mesma forma que tudo não é permitido para quaisquer outras pessoas.
Se você não rouba, não mata e não estupra só porque tem medo de ir para o inferno, isto não acontece com a maior parte das pessoas, sejam elas ateias ou crentes.
Os atos do homem são passíveis de duas sentenças: os ditames de sua consciência e as normas legais de seu país. Estes dois juízes são universais e existem tenha a pessoa ou não fé em um Deus em particular.
As pessoas em geral não matam, roubam ou estupram porque o homem é um ser adaptado à vida gregária e tem freios morais devidamente selecionados ao longo da evolução da nossa espécie. A consciência é uma ‘ferramenta’ vantajosa para a vida em sociedade presente em pessoas de todas as etnias e culturas.
Pessoas destituídas de consciência, empatia ou arrependimento são os Sociopatas ou Psicopatas, que constituem, para nossa felicidade, parcela menor da população.
Os psicopatas não são apenas os serial killers, são desde pessoas que buscam ganhos ilegítimos, como alguns líderes religiosos e políticos, como aquele ‘amigo’ ou parceiro sexual aproveitador que provoca danos em terceiros e não respeita os sentimentos de ninguém.
Pode existir algum psicopata ateu? Claro que pode, ateus são pessoas como outras quaisquer.
(3) Os ateus são a favor do aborto?
Ateus não são pessoas feitas em série e que concordam entre si em todos os aspectos. Por definição, ateu é todo aquele que não acredita em um ou mais deuses.
Os ateus podem discordar entre si em outros assuntos tanto quanto um crente de uma igreja discorda de outro crente da mesma igreja.
Há ateus favoráveis à legalização do aborto, ateus contrários e ateus sem opinião formada. E o mesmo ocorre com religiosos. Muitos religiosos são favoráveis à legalização do aborto por questões de saúde pública.
(4) Os ateus cultuam o’ satã’?
Não.
O Satanás, conforme os crentes, foi criado pelo Deus cristão e seria um anjo caído. Só é possível para alguém cultuar o Satanás se acredita na existência de Deus, portanto, tal culto é um ato antirreligioso ou herege realizado por uma pessoa crente.
(5) Como os ateus enfrentam momentos de dificuldade e tristeza?
Como quaisquer outras pessoas, buscando o que lhes forneça conforto, como o apoio da família, ou de um ombro amigo. Todas as pessoas precisam de um conforto, a diferença é que ateus não buscam um conforto sobrenatural.
Da mesma forma que uma pessoa que crê em Krishna não busca Allah nos momentos difíceis, uma pessoa que crê em Alah não busca conforto em Jesus Cristo ou você, cristão, não busca conforto na Cientologia, o ateu faz o mesmo. Não busca conforto em Krishna, em Allah, em Jesus Cristo ou na Cientologia.
(6) Como a pessoa se torna ateia?
Como a formalização da crença depende primordialmente de onde a pessoa nasce, do que lhe foi ensinado na infância, das experiências que acumulou ao longo da vida, do que ouviu, viu, estudou etc, com a falta de uma crença pode ocorrer coisa similar. Mas no geral o processamento mental de não crer é mais complexo, porque nosso cérebro é predisposto a crer.
Um exercício para entender: suponhamos que você seja brasileiro e seus pais católicos e que você seja católico praticante. Se você tivesse nascido em Israel e fosse filho de Judeus ortodoxos, acha que mesmo assim seria cristão? Na infância e adolescência precoce certamente não. Mas poderia vir a ser cristão, ateu ou budista no futuro, com base em outras experiências na adultícia e seus questionamentos, ou permanecer muçulmano o resto de sua vida.
Se a pessoa já nasce num lar ateu ou agnóstico e não é ensinada a seguir um credo em particular, poderá ser ateia para o resto da vida, como poderá, em algum momento, passar a crer por influência do meio.
As pessoas adultas se julgam ateias ou crentes através de um questionamento, o que varia entre elas é o grau de satisfação das respostas que obtem. Como há pessoas com pouca ou com muita confiança em Deus, há ateus mais ou menos convictos. A fé de uma pessoa pode sofrer altos e baixos e nada impede que a convicção de um ateu em particular sofra o mesmo.
O que torna mais difícil uma pessoa tipicamente ateia se converter a algum credo em particular, é que na trajetória do ateísmo é comum a pessoa já ter sido crente antes e ter estudado ou observado diversas religiões. É possível que a mente do ateu tenha um processamento lógico diferente da mente do crente, mas isto é tema para outra discussão.
Há também a possibilidade da pessoa se tornar ateia porque perdeu um filho ou se decepcionou com a bondade de Deus. Esse tipo particular de ateísmo, o ateísmo do ‘revoltado’, é basicamente emocional e pode fazer com que a pessoa mude de opinião se sentir abençoada ou for convencida de que os problemas do mundo são provações para o crescimento espiritual do povo de Deus ou algo similar.
(7) É verdade que na hora da morte muitos ateus se convertem?
Os ateus veem a morte como algo natural e consequência da vida, mas podem ter angústias no leito de morte como quaisquer outras pessoas venham a ter.
Basta irmos a um velório para vermos o quanto as pessoas sofrem com a morte, mesmo quando creem em Deus.
Crer ou não crer não torna a nossa morte mais atraente. Pela lógica, quem acredita em Deus, Paraíso e vida após a morte deveria alegrar-se ao morrer, mas não é isto que se vê em velórios de cristãos. Uma crença autêntica na vida eterna em um mundo paralelo florido e asséptico não é compatível com luto ou medo da morte.
A morte é a demonstração concreta de nossa finitude. Choramos tanto pelo ente perdido quanto por nossa constatação de que poderemos ser o próximo.
Mesmo crendo em vida após a morte e creditando a esta o status de passagem para algo melhor, há pessoas que sofrem por anos ou até durante toda a sua vida quando perdem um filho, por exemplo. Alegar que alguém está sofrendo durante um velório exatamente por ser ateu é um vício de confirmação.
Contrariando o que muitas pessoas pensam, pacientes com longas enfermidades enfrentam a vinda da morte com muita serenidade porque tiveram mais tempo para refletir.
Defender que uma conversão de um ateu deve ocorrer na hora do sofrimento é advogar contra sua própria fé: é preciso estar desesperado para crer?
As pessoas que pensam assim esquecem que ateus são pessoas que também passam por problemas em suas vidas, e nem por isto necessariamente voltam-se para algum tipo de crença, da mesma forma que pessoas que creem necessariamente não deixam de crer porque Deus não teria ouvido suas preces.
Stephen Jay Gould, Carl Sagan e José Saramago, a exemplo de muitos outros ateus, enfrentaram suas moléstias e despediram-se da vida sem conversões religiosas.
Se você passou a vida inteira cristão convicto não se tornará ateu justamente na hora da morte, da mesma forma que um ateu em geral não abraçará algum credo.
Estar com medo ou sob ameaça dificulta um raciocínio adequado, portanto, pensar a morte anos antes dela ocorrer é a forma de se preparar ao menos parcialmente para ela, seja a pessoa crente ou ateia.
A imposição por ameaça – fogo do inferno, por exemplo – ou promessa de cura e prosperidade são formas comumente usadas por muitos líderes religiosos para forçar conversões de pessoas que de fato já são crentes, mas que estavam ‘desviadas’ da Igreja.
Os mecanismos de conversão muitos ateus conhecem na prática, porque muitos deles já creram em Deus um dia através desses caminhos.
O momento em que a pessoa está mais fragilizada emocionalmente é o mais fértil para que ela ou perca a sua fé ou se converta e não se constituem situações que especificamente caracterizem uma opção consciente.
(8) Os ateus são contra Religiões?
Alguns ateus são contra, outros são indiferentes e outros ainda apostam que a paz entre os povos seja possível mesmo com religiões.
Como já foi dito antes, o fato de alguém ser ateu não transforma sua opinião idêntica a de outros ateus em assuntos diversos.
(9) Os ateus são mais inteligentes do que os crentes? Por que há tantos ateus nas universidades e nos meios científicos? E por que praticamente não existem ateus nos presídios?
Não, ateus não são mais inteligentes do que quaisquer outras pessoas.
O que ocorre é que entre as pessoas não alfabetizadas ou com pouca instrução há uma parcela pequena de ateus/humanistas seculares, mas isso ocorre por questões sobretudo culturais.
Entre os ateus há uma parcela importante de pessoas com nível de instrução mais elevado que podem ser tão inteligentes e produtivas quanto são inteligentes e produtivos muitos crentes com o mesmo nível de instrução. Instrução e inteligência não são a mesma coisa.
O que ocorre de fato é que é mais possível uma pessoa se tornar ateia se tiver acesso à diversidade dos credos, a preceitos filosóficos e científicos, viajar mais e conhecer outras culturas.
Para ficar bem claro e evitar preconceito dos dois lados: não é preciso ser mais inteligente do que os outros para ser ateu, mas pode ser preciso ter mais instrução. E um maior nível de instrução não torna necessariamente uma pessoa ateia.
Quando se demonstra estatisticamente que o índice de criminalidade entre ateus é menor que entre crentes, não podemos concluir que ateus seriam menos predispostos ao crime do que crentes.
Há menos apenados entre os ateus da mesma forma que há menos apenados entre pessoas que creem em Deus e são economicamente favorecidas. Certamente há muitas explicações para isto, como a facilidade de acesso a bons advogados, condições materiais para o pagamento de fiança ou ação criminosa melhor planejada, como sonegação de impostos, lavagem de dinheiro, estelionato e fraudes de uma maneira geral.
As pessoas privadas das necessidades básicas – sobretudo aquelas que vivem na periferia de grande centros, já quem em zonas rurícolas há acesso à agricultura de subsistência – perpetram crimes como assalto e furtos em maior proporção quando comparadas a pessoas em menor vulnerabilidade social.
Não estou afirmando que o ambiente é a única variável, tampouco que em termos individuais a pobreza transforme alguém em criminoso, mas que as condições sociais perversas como a fome e o endividamento são variáveis de peso em termos populacionais.
Em suma: Ao atribuirmos a uma correlação estatística o mesmo peso que concedemos às verdadeiras relações de causa e efeito, poderíamos concluir que ser crente é fator de risco para ser bandido porque os presídios estão lotados de cristãos ou que o arroz cause tuberculose porque 95% dos portadores de Tuberculose ingeria arroz diariamente.
(10) Você é ateia porque nunca adoeceu ! Quero ver ser ateia quando estiver num avião caindo! Você é ateia porque nunca teve problemas !
Esses ‘argumentos’ coroam boa parte das discussões. O fato de parte significativa dos ateus ser favorecida pelo menos culturalmente gera o mito de que o ateísmo resulta da bonança, da falta de problemas.
Meu pai morreu nos meus braços, foi uma das maiores dores que tive na vida. Passado o choque inicial, permaneci serena e aceitei. Nada similar a algum tipo de conversão aconteceu.
Em 2006 eu tive suspeita de câncer. Submeti-me a duas cirurgias e em nenhum momento pensei em algum tipo de apoio sobrenatural. De fato, ser ateia me ajudou nas semanas mais difíceis, porque o crente tende a se autoflagelar com questionamentos como: “Meu Deus, por que comigo?” ou “O que eu fiz para merecer?“.
Em 2007 passei por uma turbulência durante um voo, e permitam-me os pis, mas as únicas palavras que sairam da minha boca foram: eita p****, essa m**** vai cair! E isto virou lenda entre meus amigos porque era a última ‘provação’ que faltava.
E a inversão vem ai. Depois que rebato as acusações de que sou ateia por ter ‘vida de princesa‘, o crente tende a fechar sua argumentação invertendo-a cem por cento: “Ahhhh ! Você é ateia porque acha que Deus está contra você!”
***
Não há como construirmos tolerância entre ateus e crentes de uma forma que não envolva combate bilateral ao preconceito e debate racional.
Esta é a nossa Revolução.
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postado por MeireG em Meire Gomes,Religião
Comentários (41)
Tags: Ateísmo
41 Comentários
Renan, em 9 novembro 2010 às 10:44
Excelente.
Augusto, em 9 novembro 2010 às 10:54
Muito elucidador o texto. Sintetiza de forma clara o que todo ateu poderia usar como idéia de conduta, porque nele não existe prepotência, imposição de crença e sobretudo preconceitos. Parabéns a autora.
Homero, em 9 novembro 2010 às 11:30
Excelente, muito bom o texto, e muito claro e preciso. Um texto que deveria ser distribuído nas escolas..:-). É um resumo bastante acurado da maioria das discussões com quem crê, inclusive as inversões malucas de “argumentos”.
Parabéns.
Homero
Francisco Maximiano da Silva, em 9 novembro 2010 às 11:50
O texto já era um antigo conhecido. Realmente muito esclarecedor, e compartilho da opinião de que deveria ser distribuído nas escolas. Está de parabéns!
Saulo, em 9 novembro 2010 às 11:52
Excelente texto! Tomei a liberdade de retirar um trecho e postar no meu orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16041319964563860926
Tariq Trindade, em 9 novembro 2010 às 12:07
Genial o modo como ela expôs os argumentos. Expressou coisas que eu demoraria muitos anos pra conseguir traduzir em palavras mas que estavam na minha cabeça há anos.
Sérgio K, em 9 novembro 2010 às 12:21
Excelente texto. Principalmente pelo item 4, raramente abordado. Muitas pessoas que acreditam em deus pensam que os ateus são adoradores do diabo, satanás ou qualquer outro nome. Não percebem que a concepção da existência do demônio só se justifica para contrapor a ideia de deus.
Bosco, em 9 novembro 2010 às 13:41
Um belo texto, mostra bem o cotidiano de um ateu que vive muito perto de crentes.
Heyder, em 9 novembro 2010 às 15:27
Um texto preciso.
Ah, e vejam “José & Pilar”, vale muito a pena.
felipe, em 9 novembro 2010 às 15:32
“Você é ateia porque nunca adoeceu !”
Então todo teista é doente.
lol, vi uma resposta assim, mas não me lembro onde.
Bosco, em 9 novembro 2010 às 15:38
‘Acerca da Fé – uma peça em 12 atos‘
Onde consigo na íntegra?
Mauricio, em 9 novembro 2010 às 16:31
O texto é bom, mas não levem a mal, ter um texto explicando oque é um ateu em um blog ateu, me parece uma redundancia, é verdade que alguns religiosos postam aqui, mas são uma minoria.
Se esse texto for colocado em um jornal, ou no site de um jornal de grande circulação, ai sim faria alguma diferença.
Leon, em 9 novembro 2010 às 16:58
Gostei do texto, muito bem feito, ótimo pra mostrar aos amigos, especialmente aos religiosos.
Particularmente, achei q faltou desenvolver um ponto: as crenças interferem na vida tanto dos religiosos quanto dos ateus, por isso surgem grupos como o Bule. Isso poderia deixar o texto mais agressivo, o que não me parece a intenção, mas me fez falta realmente.
Josef, em 9 novembro 2010 às 17:31
Ótimo texto. Perfeito. Já vou divulga-lo em meios onde há falta de compreensão e preconceitos. As vezes cansa dar as mesmas respostas dia após dia.
Meire G, em 9 novembro 2010 às 20:28
Bosco,
Retirei o Ensaio do ar para revisá-lo, mas ele ainda está no cache do Google:
http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:nJgYyI7HFG0J:saladamedica.wordpress.com/2009/07/01/acerca-da-fe-uma-peca-em-12-atos/+%22acerca+da+f%C3%A9%22+uma+pe%C3%A7a&cd=5&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br
Abraço,
@meire_g
Igor Santos, em 9 novembro 2010 às 20:52
Não existe ateu em avião caindo da mesma forma como não existe crente em ambulância.
Se a fé fosse realmente forte, não precisaria ligar para o SAMU.
Muito bom, gostei da serenidade.
Hudson Lacerda, em 9 novembro 2010 às 21:31
Meire,
Ótimo texto!
:=)
Diego Pedro, em 9 novembro 2010 às 22:33
É um ótimo texto, porém falha em alguns pontos.
Falar de várias religiões não explica o fato da não existência de Deus até porque estas religiões estão entrelaçadas em partes com a cultura de seus povos a exemplo do Islamismo e o Hindu.
O fato de a média de instrução dos ateus ser superior aos dos cristãos, atende ao fato de que os ateus acreditam que tudo pode ser explicado através da razão, e que acreditam que todas as respostas para as perguntas não respondidas um dia serão encontradas.
“Como o tudo pode ter vindo do nada?”
Esta pergunta eu fiz a vários ateus com quem tive a oportunidade de discutir sobre religião, alguns disseram que o ser humano encontrará a resposta para esta pergunta e outros rebateram com uma pergunta “E o seu Deus de onde veio”.
A questão é que os Ateus acreditam na não existência de Deus pelo fato de não haver provas físicas de sua existência, ora bolas, se existisse estas tais provas, qual seria o sentido da fé?
A fé é simplismente o ato de acreditar em algo que não há provas, parece ser algo meio sem argumento, pelo fato de o pensar ciêntifico acreditar em algo apenas se existe provas que comprove a sua veracidade. A fé é algo que não pode ser ensinada ou persuadida, e sim encontrada.
Leo, em 9 novembro 2010 às 22:48
Muuuuito bom mesmo, um texto serio e calmo.
Tata do assunto com muito realismo e susinticidade.
=)
Naná, em 10 novembro 2010 às 03:44
É foda!
P.s: Saramago era um fofo! *.*
Naná, em 10 novembro 2010 às 03:53
Outra coisa, sou atéia e morro de medo de viajar de avião!
kkkkkkk
MeireG, em 10 novembro 2010 às 07:47
Diego Pedro,
A questão “Como o tudo pode ter vindo do nada?” já começa afirmando ser verdade que o universo veio do nada, e desconsidera a possibilidade dele sempre ter existido. É um mero exercício retórico que não prova que um ou mais deuses existam ou que não existam, porém sugere muito mais a inexistência de deuses. Parafraseando Sagan, se NADA pode vir do nada, de onde teria vindo deus? E se o universo sempre existiu, não teve criador.
Nem tudo tem ou precisa ter uma explicação. É possível que a resposta para a questão de onde veio o universo nunca exista, e que as pessoas continuem criando novos deuses e novas religiões, como a Cientologia, que cresce em todo mundo. Religiões quase mortas como algumas crenças nórdicas estão voltando, e assim as pessoas vão preenchendo suas dúvidas.
O texto fala de crença e falta de crença. Eu não afirmo que não exista um deus, 10 deuses ou que o verdadeiro deus não seja Odin. Só não acredito que eles existam, da mesma forma que talvez você não acredite em Isis ou Afrodite. Sua falta de crença em Isis é tão válida quanto a minha falta de crença em qualquer outro deus e se baseia nas mesmas coisas. Não tem nada a ver acreditar em Isis, em suma.
O fato de cada cultura criar um sistema de crenças e incluir nele um ou mais deuses, a inexistência de quaisquer evidências que apontem para a existência de Odin ou Alah, toda bagagem desde a infância, tudo que li quando adulta, me tornaram ateia. Ninguém vira ateu só porque constatou que existem 25.000 credos distintos no mundo (conforme Mircea Eliade). Desculpe por ter dado esta impressão ao escrever o texto.
Um abraço,
@meire_g
Carlos, em 10 novembro 2010 às 09:16
Excelente!!! De vem em quando, precisamos de uns textos assim, como, também, por exemplo, sobre o Casamento Gay, Aborto (Eli), Estado Laico, entre outros que já obtivemos, semanas atrás. Sugiro até que os editem, maaaaaais tarde, em forma de livretos, como popularização desses conhecimentos.
Parabéns, Meire!
Mauricio, em 10 novembro 2010 às 09:39
Diego Pedro
“Falar de várias religiões não explica o fato da não existência de Deus até porque estas religiões estão entrelaçadas em partes com a cultura de seus povos a exemplo do Islamismo e o Hindu.”
Explica, porque mostra que existem muitas outras religiões, cada uma com sua ideia de como o universo se formou, e nenhuma delas apresenta evdencias pro seus deuses.
“O fato de a média de instrução dos ateus ser superior aos dos cristãos, atende ao fato de que os ateus acreditam que tudo pode ser explicado através da razão, e que acreditam que todas as respostas para as perguntas não respondidas um dia serão encontradas.”
Meio certo essa parte, sim um ateu, quando quer saber alguma coisa, pesquisa sobre o assunto,por isso a instrução maior, mas é principalmente porque nos não fomos programados pela igreja a simplesmente dizer: foi deus que fez; ou escapamos dessa programação.
Mas nem todo ateu acredita que tudo vai ter respostas, eu pelo menos no seu tempo de vida, oque da quase no mesmo.
““Como o tudo pode ter vindo do nada?”
Esta pergunta eu fiz a vários ateus com quem tive a oportunidade de discutir sobre religião, alguns disseram que o ser humano encontrará a resposta para esta pergunta e outros rebateram com uma pergunta “E o seu Deus de onde veio”.”
Nossa ciencia explica desde o Big Bang, passando pela formação das estrelas, planetas, buracos negros, materia negras, surgimento e evolução da vida, então esta longe de dizer que tudo veio o nada.
Mas se você me perguntar de onde veio a materia do Big Bang, eu não sei, mas isso não torna sua ideia, uma verdade, você ainda tem que provar que deus existe.
“A questão é que os Ateus acreditam na não existência de Deus pelo fato de não haver provas físicas de sua existência, ora bolas, se existisse estas tais provas, qual seria o sentido da fé?”
Exatamente o meu ponto, se não existe evidencias para provar isso, não tem porque acreditar, e seria uma grande irresponsabilidade, espalhar isso como verdade.
“A fé é simplismente o ato de acreditar em algo que não há provas, parece ser algo meio sem argumento, pelo fato de o pensar ciêntifico acreditar em algo apenas se existe provas que comprove a sua veracidade. A fé é algo que não pode ser ensinada ou persuadida, e sim encontrada.”
Muito errada essa parte, se a fé não pudesse ser ensinada, a igreja não cresceria, e crianças não sofreriam lavagem cerebral nas igrejas, tudo pode ser ensinado, desde o odio , ate a fe para se colocar um colete com esplosivos e matar outras pessoas.
Se a fé fosse abandona e substituida por educação e ciencia, nos teriamos menos motivos para nos separarmos, menos violencia, e com certeza uma sociedade mais justa.
Homero, em 10 novembro 2010 às 12:05
Na verdade, Diogo Pedro, estamos todos aqui esperando, fervorosamente, que você “encontre a fé” de verdade, a “fé” na existência de Papai Noel. E no Unicórnio Cor de Rosa. E em Zeus. E em Alah, claro.:-)
Não posso, claro, explicar essas existências, e não posso demonstrar nenhuma delas, mas, afinal, a fé não depende disso, mas de ser “encontrada’. Quando finalmente você “encontrar” a fé, saberá que esses seres maravilhosos e poderosos existem, e acreditará nisso firmemente.
Parece ridículo? Parece ironia e sarcarsmo? Bem, é mesmo ridículo e um pouco de ironia, foi a maneira que encontrei de tentar explicar, de novo e de novo, o erro básico de sua argumentação.
Claro que a fé é acreditar sem ter evidências, temos escrito isso centenas de vezes. Não se discute fé, as pessoas podem acreditar nas coisas mais absurdas, e não vamos discutir. São os efeitos, desdobramentos, escolhas baseadas nessas crenças que são refutadas, discutidas, recusadas.
Você não crê em deus simplesmente. Se fosse apenas isso, a discussão acabaria aqui. Você crê em deus, e nas coisas que ele pretende, objetiva, intenciona, etc. Você crê em um deus específico, tanto quanto Alah ou Zeus, e que afeta e interfere no universo material.
Nesse ponto, deveriam haver evidências disso, e, como você mesmo reconhece, não há.
A falta de uma explicação, momentânea ou permanente, como “de onde veio tudo”, NÃO é evidência de nada, a não ser da falta de explicação. A resposta poderia ser “de deus”, quanto “de seres extradimensionais poderosos que retiram energia de buracos negros para sua civilização”. Uma faz tanto sentido quanto a outra (na verdade, a segunda faz mais sentido..:-).
Ateus não “acreditam” em nada, ou melhor, ateus são diversos nas coisas em que acreditam. Ateus apenas não veem evidência de seres sobrenaturais como deuses ou deusas. Da mesma maneira inclusive que você não vê evidências de deuses de outras religiões ou de unicórnios cor de rosas. E não vendo evidências, não acredita neles.
Você não “encontrou a fé”, apenas “escolheu” um dos muitos deuses disponíveis, e pensa ser o “deus certo”. Vivesse em outra cultura, escolheria outro deus e pronto. Não pode demonstrar que escolheu o deus “certo”, nem pode demonstrar que há um deus a ser escolhido. Apenas precisa disso.
Ateus podem até precisar, como temos repetido somos diferentes em tudo, menos na conclusão sobre a falta de evidências de deuses, mas reconhecem a falta de evidências. E crer não é algo que se faça intencionalmente. Não posso “escolher” acreditar em deus, se não vejo evidências, como você não pode “escolher” acreditar em Papai Noel, mesmo que por alguns minutos.
Faça um teste, tente “acreditar” em Papai Noel por dois minutos. Consegue? Claro que não..:-) A mesma descrença que nota em você sobre Papai Noel, existe em ateus sobre seu deus. Não fique triste, sobre todos os deuses que foram imaginados também..:-)
Minha sugestão é que releia o texto deste post. Com atenção, e sem a mente fechada aos argumentos. Tente entender o que se explica. Isso evita todos estes erros de lógica e de raciocínio que apresentou em sua mensagem. O texto foi escrito justamente para isso, para sanar os erros e distorções que crentes tem sobre o que é ser ateu, o que é ateísmo.
Homero
Adriana Chilante, em 10 novembro 2010 às 12:19
Ótimo texto! Muito didático. Vou mostrar pros meus filhos, pra eles se munirem dos argumentos que, muitas vezes, tento explicar, mas fica confuso.
Eu, às vezes, ainda admito que numa grande provação, num momento de grande fragilidade emocional, possa me deixar invadir pelo “instinto” irracional de crer que existe alguém por mim.
Mas também já passei por alguns perrengues e isso não aconteceu…Estou ficando “gente grande”, igual à Meire!
Parabéns.
Gláucio Pigati, em 10 novembro 2010 às 12:23
A fé é um estranho mecanismo cerebral que parece “desligar” algumas áreas do seu cérebro responsáveis pela razão e noções de realidade, tornando possível, assim, que você acredite em tudo aquilo que sua inteligência rejeita.
Então me responda, Diego Pedro, porque raios você quer então “encontrar a fé”???
Você gosta de ser enganado, é isso? rs
Munique, em 10 novembro 2010 às 12:36
Meire, que bom que você tem essa paciência de responder perguntas como a do Diego Pedro e afins e escrever textos como esse. Eu, ultimamente, ando perdendo essa paciência. Pudera… aqui no RJ as escolas estaduais têm aula de religião (na verdade, não é aula de religião, e sim praticamente uma igreja dentro da escola… o concurso para “professor” é realizado com base no credo; tem que levar uma declaração do pastor/padre/pai de santo para mostrar que a pessoa realmente é do credo. Uma porcentagem é destinada a católicos, outra a protestantes e outra a espíritas/umbandistas (que são colocados como mesma coisa); agora… se eu abrir a boca para comentar algo que TALVEZ sugira que estou defendendo ateísmo (interpretam assim se eu comentar sobre a evolução das espécies), caem matando, é crítica pra todo lado.
AFF… preciso urgente resgatar a paciência que deixo destruírem na escola.
Munique, em 10 novembro 2010 às 12:38
E… ah! Ninguém fala nada quando os professores colocam no fim da prova “Jesus te ama!” ou um provérbio da Bíblia, mas se eu colocasse qualquer comentário ateísta, certamente receberia muitos responsáveis na escola e ganharia alguns inimigos.
Marcelo Gaio, em 10 novembro 2010 às 12:46
muito bom o texto. as leis da fisica, biologia etc explicam as mesmas coisas tanto para o teista quanto para o ateista, quando sao verdadeiras, claro. é importante lembrar que o ateu nao detem essa exclusividade.
ao mesmo tempo a ausencia de evidencias do tal deus é a mesma tanto para um quanto para o outro.
seria interessante abordar o mecanismo que o teista utiliza na pratica e que o ateu nao utiliza. o que o ateu fez com essa mecanismo todo, ja que ele existe de fato. se transformou essa mecanismo em outra coisa, como por exemplo, numa racionalizaçao das coisas, repressao, negaçao etc.
Marcelo Gaio, em 10 novembro 2010 às 13:01
Uma coisa que foi colocada em alguns pontos do texto é a variedade de deuses, crenças e religioes. como por exemplo o de rkisna nao busca alla, nem o de alla busca cristo nas horas dificeis. e o ateu nao busca nenhum.
ora, o de krisna nao busca alla por que ja tem o tal krisna. o de alla nao busca cristo por que ja tem o tal de alla. o ateu nao busca nenhum por que nao tem nenhum.
nao se pode conlcuir que as coisas sao iguais dessa forma enre ateistas e ateistas. a conclusao é que alguma coisa esta sobrando, faltando, ou esta transformada ou disfarçada. nunca igual.
Valter Paulino, em 10 novembro 2010 às 16:13
Meire
Sou católico, criado na tradição católica e militante de diversos movimentos católicos.
Meus filhos fizeram outra opção. Embasados em diversos argumentos que você, sabiamente, expõe. Meu relacionamento com eles sempre foi de respeito a diversidade de opnião, eu e a mãe deles fizemos desta forma por acreditarmos ser mais saudável para a formação moral e de carater deles. Hoje adultos sinto orgulho de ter feito tal opção ainda na mais tenra infância deles. No momento eu e meus companheiros de pastoral travamos uma verdadeira batalha com diversos de nossos pares (católicos) sobre a questão, por vezes achamos que conseguimos avançar e por outras retroceder. De que qualquer forma saiba que há um grupo de cristãos que se solidarizam com esta causa por entendermos ser uma batalha justa que implica em defender os direitos humanos. Entendemos que a liberdade religiosa é uma perna muito pequena diante da livre liberdade de expressão.
Abraços
Valter
Rufa, em 10 novembro 2010 às 18:47
@Diego Pedro
Eu preciso que você tenha fé em mim.
Eu vim de uma galáxia distante, minha nave tá sem combustível e eu preciso abastecê-la, mas não tenho dinheiro.
Me dá cem reais?
Eli Vieira, em 10 novembro 2010 às 18:49
Sem dúvida um dos melhores textos já postados neste blog!
Obrigado Meire!
Igor Santos, em 10 novembro 2010 às 19:34
Ia responder a Diego Pedro (que pelo visto nunca conversou com ateus suficientes) mas já deram excelentes respostas, então vou me abster.
Porém, preciso dizer que faltou uma coisinha no texto: ateus não são necessariamente céticos ou vice-versa. Muita gente coloca os dois grupos no mesmo saco, mas não é bem assim.
Guilherme, em 10 novembro 2010 às 19:54
gostei muito do texto! parabéns!
Conrado, em 10 novembro 2010 às 20:47
Irreparável.
A revolução do esclarecimento (podem chamar de neoiluminismo) está só começando.
Destroyer, em 11 novembro 2010 às 23:49
Se os Crentes em qualquer sobrenatural se dessem ao trabalho de fazer um texto simples e claro como esse, talvez houvesse muito menos briga entre as duas partes.
Mauricio, em 12 novembro 2010 às 00:16
Destroyer
‘Se os Crentes em qualquer sobrenatural se dessem ao trabalho de fazer um texto simples e claro como esse, talvez houvesse muito menos briga entre as duas partes.’
Pra eles é bem mais dificil, porque a visão da religião deles varia de grupo pra grupo, de varia ate por individuo, cada um tem sua versão pessoal de deus.
Alex. Chacon, em 12 novembro 2010 às 01:30
Ótimo texto! Como foi dito pela autora antes..para um ateu nada do texto é novidade. Mas a forma tão esclarecedora do texto e ao mesmo tempo abrangente e com uma paciência franciscana, faz com que o texto mesmo sendo longo, seja lido com fluência. Vale mesmo até como uma referência à idéia principal: Como entender aqueles que não crêem, ou seja, nós ateus.
Luccas, em 23 novembro 2010 às 19:21
Olá.
Gostei muito do texto: além de bem escrito, desfaz muitos mitos idiotas sobre os ateus. Eu sou Cristão, mas tenho bons amigos Ateus, e nos respeitamos mutuamente. Acho um absurdo que em pleno século 21 os Ateus ainda sofram tanto preconceito, inclusive da parte de pessoas que, num primeiro momento, julgamos esclarecidas(*), e sejam vistos como pessoas sem ética, sem justiça, sem nada de bom. Que o preconceito contra os Ateus acabe um dia: é o que espero sinceramente.
[]‘s!
(*) – Tenho em mente o Datena. Ele comparou os ateus aos bandidos. Um idiota de primeira classe. Não sei como ainda deixam ele apresentar um programa. =S
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
FRASES INSTIGANTES
“Não consigo conceber um deus que recompense e puna as suas criaturas, nem que tenha uma vontade do tipo que experimentamos em nós mesmos. Não consigo nem quero conceber um indivíduo que sobreviva à sua morte física; que as almas fracas, por medo ou egoísmo absurdo, alimentam esses pensamentos.”
Albert Einstein, The world as I see it, 1934.
“O Cosmos é tudo o que existe, que existiu ou que existirá.”
Carl Sagan, Cosmos, 1982.
“Na realidade, porém, [só existem] átomos e vazio”
Demócrito de Abdera, § 9, séc. V a.C.
“Todas as coisas se compõem de átomos”
Richard Feynman, Lectures on Physics, 1963
"A individualidade sobrepuja em muito a nacionalidade e, num determinado homem, aquela merece mil vezes mais consideração do que esta."
Arthur Schopenhauer
"Pois, liberdade significa ser livre de restrições e de violências perpetradas por terceiros. Daí não poder existir liberdade onde não há lei"
John Locke, Concerning Civil Government, Second Essay.
Albert Einstein, The world as I see it, 1934.
“O Cosmos é tudo o que existe, que existiu ou que existirá.”
Carl Sagan, Cosmos, 1982.
“Na realidade, porém, [só existem] átomos e vazio”
Demócrito de Abdera, § 9, séc. V a.C.
“Todas as coisas se compõem de átomos”
Richard Feynman, Lectures on Physics, 1963
"A individualidade sobrepuja em muito a nacionalidade e, num determinado homem, aquela merece mil vezes mais consideração do que esta."
Arthur Schopenhauer
"Pois, liberdade significa ser livre de restrições e de violências perpetradas por terceiros. Daí não poder existir liberdade onde não há lei"
John Locke, Concerning Civil Government, Second Essay.
Em busca do Cristo
14
NOV
Jesus Cristo. Um dos personagens mais famosos da História. Nome fundamental à sustentação do Cristianismo, religião monoteísta com mais adeptos no mundo (2.1 bilhões). Seu suposto ano de nascimento é usado para dividir o calendário ocidental. Ainda assim, sua existência histórica é bastante contestável, não há registros confiáveis sobre sua existência física e vida na Terra, e tudo que se sabe dele provém de relatos cheios de fantasias acreditados por pessoas de fé. Por que a história de um personagem que se supõe que tenha sido tão importante para a humanidade é tão fragmentada e inconsistente?
A existência histórica de Jesus Cristo é um mito, e assim será até surgirem provas do contrário. Muitos historiadores religiosos hesitam em aceitar isto, e se sustentam em documentos antigos cheios de incoerências e referências fracas para dar força ao mito do Cristo. A história dele é contada originalmente em algumas centenas de escritos antigos chamados evangelhos, dentre os quais muitos foram destruídos e adulterados. Sendo os evangelhos simples testemunhos de fé, contando histórias fantasiosas, incoerentes e contraditórias, não nos dão garantia de veracidade daquilo que descrevem.
Excetuados os evangelhos, os líderes cristãos sustentam a existência de Jesus Cristo através de supostas referências diretas de historiadores tanto da época em que se supõe que ele tenha existido, quanto de épocas imediatamente posteriores (fim do século I EC e século II EC). Mas a verdade é que os historiadores que viveram durante e depois dessa época jamais fizerem qualquer citação a respeito do Jesus Cristo e dos cristãos que denotasse a possibilidade de que a história evangélica fosse verídica.
Filon de Alexandria (15 AEC – 50 EC)
Filon de Alexandria foi um teólogo e filósofo judeu, falante do grego e conhecedor de Jerusalém, onde residia sua família. Escreveu sobre a história e a religião dos judeus e seus conceitos serviram de base aos escritos do Novo Testamento.
Embora muitos sustentem que ele escreveu sobre Cristo, na verdade ele não faz qualquer referência a tal personagem em seu testemunho. Filon escreveu um tratado, já destruído, sobre Serapis, o Bom Deus, ao qual os evangelhos se assemelham bastante. Ele misturou o judaísmo a crenças e costumes pagãos, criando uma doutrina helenizada, inspirada em Platão, e escreveu grande parte do que hoje é o livro do Apocalipse. Seus conceitos incluem a ideia de que deus e sua palavra são unos; de que a palavra de deus é seu filho primogênito, instrumento de criação do mundo e de unificação, fonte de vida eterna e imutável; de que deus é um espírito trino; de maternidade de uma virgem; de céu e inferno; e de que deus é amor.
Citou Pôncio Pilatos em sua atuação como procurador da Judéia, além de vários fatos e personagens destacados de sua época, tendo sido bastante atualizado com os acontecimentos correntes. Ainda assim não fez qualquer referência a Jesus e seus feitos miraculosos.
Justo de Tiberíades (século I EC)
Justo de Tiberíades, escritor judeu do primeiro século, também ignorou a existência de Jesus, embora vivesse na Galileia e houvesse escrito sobre a história dos judeus desde Moisés até o ano 50 EC. Seus escritos foram perdidos e o que se sabe sobre ele e sua obra advém de Flávio Josefo e de Photios. Flávio Josefo não fez qualquer indicação de que relatos sobre o Cristo houvessem sido feitos por Justos. Photios, patriarca de Constantinopla entre 878-886 EC, escreveu “Bibliotheca” – obra sobre teologia, filosofia, retórica, gramática, física e medicina – comentando nesta a obra de Justo. Photios admitiu que na obra de Justo não havia qualquer referência a Jesus:
“[...] do advento de Cristo, das coisas que lhe aconteceram ou dos milagres que ele realizou, não há absolutamente nenhuma menção.”
Flávio Josefo (37 EC – 103 EC)
Flávio Josefo foi um historiador judeu e fariseu, nascido em Jerusalém e residente em Roma. Escreveu sobre os judeus em História dos Judeus (79 EC) e Antiguidades Judaicas (93 EC). Embora muitos cristãos considerem o testemunho de Josefo em Antiguidades Judaicas uma garantia da existência de Jesus Cristo, já é aceito entre os historiadores que o trecho de sua obra que cita o Cristo é uma alteração de monges copistas. Até a Encyclopedia Britannica, que considera a questão da existência de Cristo algo já “superado” pelas supostas evidências, assume a alteração feita no texto de Josefo. Diz-se no trecho:
“Naquele tempo, nasceu Jesus, homem sábio, se é que se pode chamar homem, realizando coisas admiráveis e ensinando a todos os que quisessem inspirar-se na verdade. Não foi só seguido por muitos hebreus, como por alguns gregos. Era o Cristo. Sendo acusado por nossos chefes, do nosso país ante Pilatos, este o fez sacrificar. Seus seguidores não o abandonaram nem mesmo após sua morte. Vivo e ressuscitado, reapareceu ao terceiro dia após sua morte, como o haviam predito os santos profetas, quando realiza outras mil coisas milagrosas. A sociedade cristã que ainda hoje subsiste, tomou dele o nome que usa“. (Antiguidades Judaicas, capítulo XVIII, página 63)
Obviamente, Flávio Josefo jamais afirmaria tal coisa, pois, como fariseu, ele não acreditaria que Jesus fosse o Cristo, e teria de renunciar a suas crenças para afirmá-lo. Sem falar que ele dedicava parágrafos e parágrafos, capítulos e capítulos de seus escritos a pessoas insignificantes, e pelo que se afirma de Jesus como alguém demasiado extraordinário é notável o tamanho sucinto do trecho que se lhe atribui falando em tal personagem. Além do mais, se esse trecho fosse autêntico teria sido usado pelos patriarcas da Igreja nos anos seguintes, quando estes tentaram provar a existência histórica de Jesus Cristo.
O trecho que cita Jesus e cuja autoria é atribuída a Josefo não foi aprovado pelos exames grafotécnicos, sendo considerando uma inserção fora de contexto e incoerente com o texto completo e com as ideias do autor.
Tácito (56 EC – 120 EC)
Tácito foi um famoso historiador romano. Ele redigiu uma obra chamada Anais (115 EC), onde se refere ao período compreendido entre 14-68 EC. O trecho de sua obra que os cristãos consideram uma referência direta a Jesus Cristo é o seguinte:
“Nero acusa aqueles detestáveis por suas abominações que a multidão chama de cristãos. Esse nome vem de Cristo, que sob o principado de Tibério, foi mandado para o suplício pelo procurador Pôncio Pilatos. Reprimida momentaneamente, essa superstição horrível rebrotou novamente, não apenas na Judéia mas agora dentro de Roma” (Anais, capítulo XV, p. 54)
Esse trecho, na verdade, não faz mais do que se referir àquilo em que acreditavam os cristãos. Além de Tácito não ter sido um historiador muito preciso, os estudiosos suspeitam de que esse trecho tenha sido incluído em sua obra por adulteração – o que explicaria o motivo de os patriarcas da Igreja nunca o terem usado, e de seu uso na comprovação da existência histórica de Jesus ter sido iniciado no século XV EC. Pôncio Pilatos nada escreveu sobre Jesus ao falar do período em que governou, no qual teriam acontecido os fatos descritos no trecho aqui citado da obra de Tácito.
Caio Suetônio (69 EC – 122 EC)
Suetônio foi um grande escritor latino dedicado ao estudo dos costumes romanos e do tempo em que viveu, tendo sido convenientemente indiscreto sobre a vida dos imperadores. Em sua obra História dos Doze Césares (120 EC) falou sobre Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Otão, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano. Na parte referente à vida do imperador Cláudio, disse:
“O Imperador expulsou de Roma os judeus que viraram causa permanente de desordem pela pregação de Crestus.” (Vida de Cláudio, cap 25, p. 4)
Esse trecho não pode ser tido como referência a Jesus Cristo por três motivos simples: (1) aqui se fala de “Crestus”, que seria não exatamente o Jesus Cristo, mas um termo genérico que designa o “ungido de deus” e que era utilizado por vários ditos messias da época; (2) ainda que tal trecho se referisse ao Jesus Cristo, seria incoerente, pois se supõe pela história evangélica que Jesus tenha pregado e morrido na época de Tibério, não de Cláudio; (3) os cristãos do Jesus Cristo não faziam manifestações e balbúrdias, pois intencionavam ser discretos para com os líderes romanos, o que indica que esse trecho se refere a outras seitas de judeus, tais como zilotas, essênios ou terapeutas.
Plínio Cecílio (61 EC – 113 EC)
Plínio, o Jovem, foi subpretor da Britínia, e escreveu o principal documento sobre a erupção do Vesúvio (79 EC). Em uma carta de sua autoria endereçada ao imperador Trajano, em 112 EC, pergunta o que fazer com os cristãos.
“Os cristãos têm o hábito de se reunir em um dia fixo para rezar ao Cristo, que consideram Deus, para cantar e jurar não cometer qualquer crime, abstendo-se de roubo, assassinato, adultério e infidelidade”. (Carta a Trajano, cap. X, p. 96)
Não fica claro se a referência é aos adoradores de Crestus ou Cristo, sendo que somente os segundos seriam seguidores do Jesus Cristo. Note-se, ainda, que a simples referência à existência de cristãos não dá evidência alguma de que Jesus Cristo haja existido fisicamente.
As seitas judaicas
Foram os judeus macabeus que lideraram a revolta contra os monarcas selêucidas que garantiu a independência a Israel em 129 AEC, e fundaram a dinastia Asmoneu. Entre 103-76 AEC ocorreu uma guerra civil entre os saduceus – elite influenciada pelo helenismo e aliada aos asmoneus e aos sacerdotes do Templo de Jerusalém – e os fariseus anti-helenizantes – que defendiam uma interpretação das Escrituras que reconhecia a classe dos rabinos.
Em 63 AEC, os romanos invadiram a Palestina, na época tomada pelo sectarismo religioso, e o general Pompeu invadiu o Templo e transformou a Judéia em província romana. Em 48 AEC, Antipater foi nomeado por Roma o governador da Judéia. Em 31 AEC, após conterem uma tentativa de reposição da dinastia Asmoneu no poder, os romanos coroaram Herodes Antipas (filho de Antipater) governador.
Herodes era detestado como monarca. Matou a princesa asmonéia com que havia se casado, além da sogra, do cunhado e quatro filhos seus. Construiu templos pagãos e um hipódromo para lutas de gladiadores em Jerusalém. Em 6 AEC, sob o governo de Herodes, ocorreram 2000 crucificações na Judéia.
Os judeus estavam divididos em quatro seitas: (1) os saduceus eram a elite, influenciados pelo helenismo e dominadores do templo, através de seus sacerdotes; (2) os fariseus intencionavam estabelecer o judaísmo representado pelos rabinos populares; (3) os essênios eram religiosos austeros e abstêmios, preferindo o isolamento; (4) e os zelotes eram radicais pregadores da violência revolucionária contra Roma.
A Judéia mergulhou em uma expectativa insana e apocalíptica da vinda de um messias salvador que viria libertar os judeus da dominação romana e instituir o reino de deus. Uma manada de ditos messias e ungidos de deus mantinha uma balbúrdia intensa e promoviam certa instabilidade política, sendo crucificados aos milhares. Dentro e fora do templo as seitas judaicas estavam em constante conflito, e os zelotes sempre tramavam revoltas contra Roma, conflitavam ardentemente entre si e com as outras seitas e intencionavam promover sua revolta com a liderança de um rei messias.
A partir do ano 6 EC os romanos passaram a exercer o controle da província de maneira direta, através dos prefeitos. Em 64 EC os zelotes finalmente puseram em prática sua rebelião, posteriormente contida pelo general Vespasiano. Na ocasião da véspera do ataque a Jerusalém, Vespasiano voltou para Roma para assumir o trono, e deixou a tarefa de controlar os judeus nas mãos de Tito, seu filho. O ataque ocorreu a 28 de Agosto de 70 EC, arrasando a cidade, destruindo o Templo e escravizando os judeus.
As agitações religiosas persistiram, com muitos judeus sendo mortos ou cometendo suicídio para escapar da escravização romana. Em 132 EC houve uma nova insurreição judaica, liderada por Rabbi Akiva, que proclamou como messias o líder militar Simon Bar Kochba, auto-proclamado Filho da Estrela. No comando do general Júlio Severo os romanos arrasaram 1000 povoados e mataram centenas de milhares de judeus. Em 135 EC o imperador Adriano expulsou os judeus de Jerusalém e renomeou as regiões de Judá, Samaria e Galiléia de Síria Palestina.
O desastre dessa revolta acabou com a influência dos zelotes e consagrou a autoridade dos rabinos fariseus. Em 138 EC, sob o domínio do imperador Antônio Pio, a repressão sobre os judeus foi amenizada e o judaísmo rabínico se expandiu. Mas o Cristianismo já era mais famoso.
A construção do mito
Como dito anteriormente, a figura de Jesus Cristo como personagem de existência física é ignorada dentro da historiografia antiga. Jesus não é citado por nenhum historiador da época em que supostamente existiu, além de outros escritores famosos, tais como Sêneca, Caio Plínio Segundo, Quintiliano, Epitectus, Marcial, Juvenal, Plutarco, etc. Sua história surgiu em um tempo em que os judeus estavam mais convencidos do que nunca da ideia religiosa de que viria um messias salvador, dada a dominação repressiva de Roma sobre a Judéia.
O mito do Jesus Cristo começou com os essênios. Foram eles que idealizaram o messias chamado Crestos, que daria origem às ideias de Cristo e, consequentemente, cristão. Os essênios eram uma seita judaica originada em Alexandria que optava pelo isolamento, pela discrição e pela austeridade, e possuidora de um templo às margens do Jordão. Eles juravam não contar nada sobre a seita aos que não faziam parte dela, ao mesmo tempo em que juravam não esconder nada dos companheiros. Entre os essênios eram renegados os sacrifícios de sangue, coisa que acabou sendo copiado pelo Cristianismo.
O Cristianismo se originou, assim, em uma helenização do judaísmo, misturando-o às ideias de Platão, Cícero e Sêneca. A partir da mistura do judaísmo, o helenismo, a doutrina dos essênios e a moral dos terapeutas – que exaltavam a pobreza, o celibato e o isolacionismo – Filon de Alexandria lançou as bases do Cristianismo sem, contudo, incluir nele a crença em Jesus Cristo.
A crença em Jesus Cristo surgiu, originalmente, a partir de vários mitos de deuses redentores e deuses solares, tais como:
Krishna – deus redentor nascido de uma virgem que foi avisada de sua futura concepção por sua mãe, anteriormente avisada pelo deus Vishnu, que determinou o nome que o deus futuramente nascido deveria receber. O nascimento de Krishna chegou ao conhecimento de pastores, que foram prestar-lhe adoração e presenteá-lo. A virgem fugiu para Nanda, um lugar ignorado pelo rajá. O rajá então mandou matar todos os rescém-nascidos, mas Krishna escapou. Aos 16 anos saiu pela Índia pregando seus ensinamentos, realizando milagres, curas e ressurreições. Tinha discípulos para os quais falava por meio de parábolas. Krishna morreu no rio Ganges, afligido por uma flecha de um assassino, que foi condenado a vagar pelo mundo. Os discípulos de Krishna não puderam achar seu corpo, pois ele havia ressuscitado e ascendido aos céus;
Buda – a segunda vinda de Krishna, reenviado por Vishnu. O nascimento de Buda foi predito a sua mãe por meio dum sonho. Era filho de um príncipe e nasceu num palácio. Seu nascimento resultou em uma benção sobre o mundo, que causou a cura de doentes, frutificação de árvores, mais colorido e fragrância às flores, e bons ventos. Buda impressionou aqueles que estavam presentes na ocasião de seu nascimento ficando de pé. Uma estrela brilhante surgiu no céu quando de seu nascimento. Um velho que foi ver o recém-nascido Buda recebeu o dom da profecia, mas não pode ver seus futuros feitos por já ser um idoso. Com poucos anos de idade começou sua pregação, e passou 49 dias sob a árvore de Bó, onde foi tentado pelo demônio. Converteu muitos com sua pregação. Era revoltado com o poder abusivo dos sacerdotes bamânicos. Foi traído por Davadatta. Após sua morte apareceu aos seus discípulos com uma auréola na cabeça;
Mitra – deus redentor dos persas. Era o intermediário entre o deus do bem, Aura-Mazda, e os homens. Foi chamado de Senhor e nasceu numa gruta em 25 de Dezembro. Sua mãe foi virgem antes e depois do parto e uma estrela brilhante surgiu no Oriente na ocasião de seu nascimento. Magos o presentearam com incenso, ouro e mirra e o adoraram. Viveu como um grande mestre fazedor de milagres. Após a morte, ressuscitou;
Baco – deus do vinho, e também um deus salvador. Fez vários milagres, dentre eles a transformação de água em vinho e a multiplicação de peixes. Quando criança, quiseram matá-lo;
Hórus – deus solar e redentor dos egípcios. Nasceu da virgem Ísis em 25 de Dezembro. Morreu, desceu ao mundo dos mortos e ressuscitou.
Os deuses redentores costumavam ser também deuses-sol, tais como Átis, Balenho Joel e Fo. Os nascimentos dos deuses solares coincidem em data como 25 de Dezembro porque é nessa data que ocorre o “renascimento do Sol”: o solstício de Inverno, no hemisfério norte. Suas mortes foram fixadas entre Março e Abril para coincidirem com a Primavera, época de fertilidade e germinação das folhas. Jesus Cristo se inclui nesse grupo de deuses solares como seu último representante.
Tertuliano admitiu que o dogma da ressureição tem origem no mito do deus Mitra. São Crisóstomo descreveu Jesus como o “sol da justiça” e Sinésio como o “sol intelectual”. O número de apóstolos em 12 representa, muito provavelmente, os signos zodiacais, dos quais Ísis, mãe de Hórus, era a deusa representante. Ísis pôde manter-se virgem mesmo depois do parto graças aos raios solares, e era costumeiramente representada sentada com Hórus no colo, tal como a virgem Maria dos cristãos. A lenda de Ísis e Hórus fugindo de Seth também se equivale à história de Maria e Jesus fugindo de Herodes.
A ideia de um indivíduo meio deus meio homem já era crença religiosa desgastada na época. A guerra entre um deus do bem e um do mal também já havia sido concebida há muito tempo por Zoroastro, em cuja doutrina se inclui a história do conflito entre Aura-Mazda e Arimã, sendo Mazda auxiliado por seu filho Mitra, que veio a Terra, morreu e ressuscitou. Na criação do mito do Jesus Cristo os judeus fizeram uma mistura entre Mitra – cuja crença já havia sido transportada para a Sicília –, Osíris e Átis, estes últimos adorados em Alexandria e Roma, respectivamente.
Copiando o Mitraísmo, os primeiros cristãos se reuniam em catacumbas e cavernas e conceberam a ideia de que Jesus havia nascido em uma gruta. Dentre os mitráicos também havia o costume de realizar banquetes subterrâneos nos quais estavam envolvidos o pão e o vinho, como nos ritos solares em geral e no próprio judaísmo. A águia e o touro, animais que simbolizavam Mitra, foram designados a simbolizar João e Lucas. O Cristianismo copiou do Mitraísmo, ainda, o uso da pia batismal com água benta e da cruz, que passou a ser o símbolo máximo dos cristãos a partir do século IV EC.
A figura de Jesus Cristo é, conclusivamente, não mais que um mito solar que segue uma linha de doutrinas antigas pagãs. Não tem praticamente nada de original e nenhuma comprovação histórica consistente que garanta sua suposta existência física. Na verdade, não existiu um Jesus, mas muitos, sendo este um nome comum no primeiro século. É possível que entre os muitos crucificados na Judéia tenha havido pelo menos um Jesus. Mas o Jesus Cristo que dá base ao Cristianismo não passa de um mito, um fantasma idealizado por aqueles que quiseram dar forma humana a uma doutrina religiosa que vinha ajuntar os incautos judeus martirizados pela repressão romana.
Referências
Enciclopédia Mirador Internacional. São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda, 1981. – Referência incompleta até 16/11/11.
http://super.abril.com.br/religiao/procura-se-jesus-cristo-436480.shtml
http://www.mphp.org/jesus-historico/jesus-o-incomodo-silencio-da-historia.html
http://ateus.net/artigos/critica/jesus-cristo-nunca-existiu/
14
NOV
Jesus Cristo. Um dos personagens mais famosos da História. Nome fundamental à sustentação do Cristianismo, religião monoteísta com mais adeptos no mundo (2.1 bilhões). Seu suposto ano de nascimento é usado para dividir o calendário ocidental. Ainda assim, sua existência histórica é bastante contestável, não há registros confiáveis sobre sua existência física e vida na Terra, e tudo que se sabe dele provém de relatos cheios de fantasias acreditados por pessoas de fé. Por que a história de um personagem que se supõe que tenha sido tão importante para a humanidade é tão fragmentada e inconsistente?
A existência histórica de Jesus Cristo é um mito, e assim será até surgirem provas do contrário. Muitos historiadores religiosos hesitam em aceitar isto, e se sustentam em documentos antigos cheios de incoerências e referências fracas para dar força ao mito do Cristo. A história dele é contada originalmente em algumas centenas de escritos antigos chamados evangelhos, dentre os quais muitos foram destruídos e adulterados. Sendo os evangelhos simples testemunhos de fé, contando histórias fantasiosas, incoerentes e contraditórias, não nos dão garantia de veracidade daquilo que descrevem.
Excetuados os evangelhos, os líderes cristãos sustentam a existência de Jesus Cristo através de supostas referências diretas de historiadores tanto da época em que se supõe que ele tenha existido, quanto de épocas imediatamente posteriores (fim do século I EC e século II EC). Mas a verdade é que os historiadores que viveram durante e depois dessa época jamais fizerem qualquer citação a respeito do Jesus Cristo e dos cristãos que denotasse a possibilidade de que a história evangélica fosse verídica.
Filon de Alexandria (15 AEC – 50 EC)
Filon de Alexandria foi um teólogo e filósofo judeu, falante do grego e conhecedor de Jerusalém, onde residia sua família. Escreveu sobre a história e a religião dos judeus e seus conceitos serviram de base aos escritos do Novo Testamento.
Embora muitos sustentem que ele escreveu sobre Cristo, na verdade ele não faz qualquer referência a tal personagem em seu testemunho. Filon escreveu um tratado, já destruído, sobre Serapis, o Bom Deus, ao qual os evangelhos se assemelham bastante. Ele misturou o judaísmo a crenças e costumes pagãos, criando uma doutrina helenizada, inspirada em Platão, e escreveu grande parte do que hoje é o livro do Apocalipse. Seus conceitos incluem a ideia de que deus e sua palavra são unos; de que a palavra de deus é seu filho primogênito, instrumento de criação do mundo e de unificação, fonte de vida eterna e imutável; de que deus é um espírito trino; de maternidade de uma virgem; de céu e inferno; e de que deus é amor.
Citou Pôncio Pilatos em sua atuação como procurador da Judéia, além de vários fatos e personagens destacados de sua época, tendo sido bastante atualizado com os acontecimentos correntes. Ainda assim não fez qualquer referência a Jesus e seus feitos miraculosos.
Justo de Tiberíades (século I EC)
Justo de Tiberíades, escritor judeu do primeiro século, também ignorou a existência de Jesus, embora vivesse na Galileia e houvesse escrito sobre a história dos judeus desde Moisés até o ano 50 EC. Seus escritos foram perdidos e o que se sabe sobre ele e sua obra advém de Flávio Josefo e de Photios. Flávio Josefo não fez qualquer indicação de que relatos sobre o Cristo houvessem sido feitos por Justos. Photios, patriarca de Constantinopla entre 878-886 EC, escreveu “Bibliotheca” – obra sobre teologia, filosofia, retórica, gramática, física e medicina – comentando nesta a obra de Justo. Photios admitiu que na obra de Justo não havia qualquer referência a Jesus:
“[...] do advento de Cristo, das coisas que lhe aconteceram ou dos milagres que ele realizou, não há absolutamente nenhuma menção.”
Flávio Josefo (37 EC – 103 EC)
Flávio Josefo foi um historiador judeu e fariseu, nascido em Jerusalém e residente em Roma. Escreveu sobre os judeus em História dos Judeus (79 EC) e Antiguidades Judaicas (93 EC). Embora muitos cristãos considerem o testemunho de Josefo em Antiguidades Judaicas uma garantia da existência de Jesus Cristo, já é aceito entre os historiadores que o trecho de sua obra que cita o Cristo é uma alteração de monges copistas. Até a Encyclopedia Britannica, que considera a questão da existência de Cristo algo já “superado” pelas supostas evidências, assume a alteração feita no texto de Josefo. Diz-se no trecho:
“Naquele tempo, nasceu Jesus, homem sábio, se é que se pode chamar homem, realizando coisas admiráveis e ensinando a todos os que quisessem inspirar-se na verdade. Não foi só seguido por muitos hebreus, como por alguns gregos. Era o Cristo. Sendo acusado por nossos chefes, do nosso país ante Pilatos, este o fez sacrificar. Seus seguidores não o abandonaram nem mesmo após sua morte. Vivo e ressuscitado, reapareceu ao terceiro dia após sua morte, como o haviam predito os santos profetas, quando realiza outras mil coisas milagrosas. A sociedade cristã que ainda hoje subsiste, tomou dele o nome que usa“. (Antiguidades Judaicas, capítulo XVIII, página 63)
Obviamente, Flávio Josefo jamais afirmaria tal coisa, pois, como fariseu, ele não acreditaria que Jesus fosse o Cristo, e teria de renunciar a suas crenças para afirmá-lo. Sem falar que ele dedicava parágrafos e parágrafos, capítulos e capítulos de seus escritos a pessoas insignificantes, e pelo que se afirma de Jesus como alguém demasiado extraordinário é notável o tamanho sucinto do trecho que se lhe atribui falando em tal personagem. Além do mais, se esse trecho fosse autêntico teria sido usado pelos patriarcas da Igreja nos anos seguintes, quando estes tentaram provar a existência histórica de Jesus Cristo.
O trecho que cita Jesus e cuja autoria é atribuída a Josefo não foi aprovado pelos exames grafotécnicos, sendo considerando uma inserção fora de contexto e incoerente com o texto completo e com as ideias do autor.
Tácito (56 EC – 120 EC)
Tácito foi um famoso historiador romano. Ele redigiu uma obra chamada Anais (115 EC), onde se refere ao período compreendido entre 14-68 EC. O trecho de sua obra que os cristãos consideram uma referência direta a Jesus Cristo é o seguinte:
“Nero acusa aqueles detestáveis por suas abominações que a multidão chama de cristãos. Esse nome vem de Cristo, que sob o principado de Tibério, foi mandado para o suplício pelo procurador Pôncio Pilatos. Reprimida momentaneamente, essa superstição horrível rebrotou novamente, não apenas na Judéia mas agora dentro de Roma” (Anais, capítulo XV, p. 54)
Esse trecho, na verdade, não faz mais do que se referir àquilo em que acreditavam os cristãos. Além de Tácito não ter sido um historiador muito preciso, os estudiosos suspeitam de que esse trecho tenha sido incluído em sua obra por adulteração – o que explicaria o motivo de os patriarcas da Igreja nunca o terem usado, e de seu uso na comprovação da existência histórica de Jesus ter sido iniciado no século XV EC. Pôncio Pilatos nada escreveu sobre Jesus ao falar do período em que governou, no qual teriam acontecido os fatos descritos no trecho aqui citado da obra de Tácito.
Caio Suetônio (69 EC – 122 EC)
Suetônio foi um grande escritor latino dedicado ao estudo dos costumes romanos e do tempo em que viveu, tendo sido convenientemente indiscreto sobre a vida dos imperadores. Em sua obra História dos Doze Césares (120 EC) falou sobre Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Otão, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano. Na parte referente à vida do imperador Cláudio, disse:
“O Imperador expulsou de Roma os judeus que viraram causa permanente de desordem pela pregação de Crestus.” (Vida de Cláudio, cap 25, p. 4)
Esse trecho não pode ser tido como referência a Jesus Cristo por três motivos simples: (1) aqui se fala de “Crestus”, que seria não exatamente o Jesus Cristo, mas um termo genérico que designa o “ungido de deus” e que era utilizado por vários ditos messias da época; (2) ainda que tal trecho se referisse ao Jesus Cristo, seria incoerente, pois se supõe pela história evangélica que Jesus tenha pregado e morrido na época de Tibério, não de Cláudio; (3) os cristãos do Jesus Cristo não faziam manifestações e balbúrdias, pois intencionavam ser discretos para com os líderes romanos, o que indica que esse trecho se refere a outras seitas de judeus, tais como zilotas, essênios ou terapeutas.
Plínio Cecílio (61 EC – 113 EC)
Plínio, o Jovem, foi subpretor da Britínia, e escreveu o principal documento sobre a erupção do Vesúvio (79 EC). Em uma carta de sua autoria endereçada ao imperador Trajano, em 112 EC, pergunta o que fazer com os cristãos.
“Os cristãos têm o hábito de se reunir em um dia fixo para rezar ao Cristo, que consideram Deus, para cantar e jurar não cometer qualquer crime, abstendo-se de roubo, assassinato, adultério e infidelidade”. (Carta a Trajano, cap. X, p. 96)
Não fica claro se a referência é aos adoradores de Crestus ou Cristo, sendo que somente os segundos seriam seguidores do Jesus Cristo. Note-se, ainda, que a simples referência à existência de cristãos não dá evidência alguma de que Jesus Cristo haja existido fisicamente.
As seitas judaicas
Foram os judeus macabeus que lideraram a revolta contra os monarcas selêucidas que garantiu a independência a Israel em 129 AEC, e fundaram a dinastia Asmoneu. Entre 103-76 AEC ocorreu uma guerra civil entre os saduceus – elite influenciada pelo helenismo e aliada aos asmoneus e aos sacerdotes do Templo de Jerusalém – e os fariseus anti-helenizantes – que defendiam uma interpretação das Escrituras que reconhecia a classe dos rabinos.
Em 63 AEC, os romanos invadiram a Palestina, na época tomada pelo sectarismo religioso, e o general Pompeu invadiu o Templo e transformou a Judéia em província romana. Em 48 AEC, Antipater foi nomeado por Roma o governador da Judéia. Em 31 AEC, após conterem uma tentativa de reposição da dinastia Asmoneu no poder, os romanos coroaram Herodes Antipas (filho de Antipater) governador.
Herodes era detestado como monarca. Matou a princesa asmonéia com que havia se casado, além da sogra, do cunhado e quatro filhos seus. Construiu templos pagãos e um hipódromo para lutas de gladiadores em Jerusalém. Em 6 AEC, sob o governo de Herodes, ocorreram 2000 crucificações na Judéia.
Os judeus estavam divididos em quatro seitas: (1) os saduceus eram a elite, influenciados pelo helenismo e dominadores do templo, através de seus sacerdotes; (2) os fariseus intencionavam estabelecer o judaísmo representado pelos rabinos populares; (3) os essênios eram religiosos austeros e abstêmios, preferindo o isolamento; (4) e os zelotes eram radicais pregadores da violência revolucionária contra Roma.
A Judéia mergulhou em uma expectativa insana e apocalíptica da vinda de um messias salvador que viria libertar os judeus da dominação romana e instituir o reino de deus. Uma manada de ditos messias e ungidos de deus mantinha uma balbúrdia intensa e promoviam certa instabilidade política, sendo crucificados aos milhares. Dentro e fora do templo as seitas judaicas estavam em constante conflito, e os zelotes sempre tramavam revoltas contra Roma, conflitavam ardentemente entre si e com as outras seitas e intencionavam promover sua revolta com a liderança de um rei messias.
A partir do ano 6 EC os romanos passaram a exercer o controle da província de maneira direta, através dos prefeitos. Em 64 EC os zelotes finalmente puseram em prática sua rebelião, posteriormente contida pelo general Vespasiano. Na ocasião da véspera do ataque a Jerusalém, Vespasiano voltou para Roma para assumir o trono, e deixou a tarefa de controlar os judeus nas mãos de Tito, seu filho. O ataque ocorreu a 28 de Agosto de 70 EC, arrasando a cidade, destruindo o Templo e escravizando os judeus.
As agitações religiosas persistiram, com muitos judeus sendo mortos ou cometendo suicídio para escapar da escravização romana. Em 132 EC houve uma nova insurreição judaica, liderada por Rabbi Akiva, que proclamou como messias o líder militar Simon Bar Kochba, auto-proclamado Filho da Estrela. No comando do general Júlio Severo os romanos arrasaram 1000 povoados e mataram centenas de milhares de judeus. Em 135 EC o imperador Adriano expulsou os judeus de Jerusalém e renomeou as regiões de Judá, Samaria e Galiléia de Síria Palestina.
O desastre dessa revolta acabou com a influência dos zelotes e consagrou a autoridade dos rabinos fariseus. Em 138 EC, sob o domínio do imperador Antônio Pio, a repressão sobre os judeus foi amenizada e o judaísmo rabínico se expandiu. Mas o Cristianismo já era mais famoso.
A construção do mito
Como dito anteriormente, a figura de Jesus Cristo como personagem de existência física é ignorada dentro da historiografia antiga. Jesus não é citado por nenhum historiador da época em que supostamente existiu, além de outros escritores famosos, tais como Sêneca, Caio Plínio Segundo, Quintiliano, Epitectus, Marcial, Juvenal, Plutarco, etc. Sua história surgiu em um tempo em que os judeus estavam mais convencidos do que nunca da ideia religiosa de que viria um messias salvador, dada a dominação repressiva de Roma sobre a Judéia.
O mito do Jesus Cristo começou com os essênios. Foram eles que idealizaram o messias chamado Crestos, que daria origem às ideias de Cristo e, consequentemente, cristão. Os essênios eram uma seita judaica originada em Alexandria que optava pelo isolamento, pela discrição e pela austeridade, e possuidora de um templo às margens do Jordão. Eles juravam não contar nada sobre a seita aos que não faziam parte dela, ao mesmo tempo em que juravam não esconder nada dos companheiros. Entre os essênios eram renegados os sacrifícios de sangue, coisa que acabou sendo copiado pelo Cristianismo.
O Cristianismo se originou, assim, em uma helenização do judaísmo, misturando-o às ideias de Platão, Cícero e Sêneca. A partir da mistura do judaísmo, o helenismo, a doutrina dos essênios e a moral dos terapeutas – que exaltavam a pobreza, o celibato e o isolacionismo – Filon de Alexandria lançou as bases do Cristianismo sem, contudo, incluir nele a crença em Jesus Cristo.
A crença em Jesus Cristo surgiu, originalmente, a partir de vários mitos de deuses redentores e deuses solares, tais como:
Krishna – deus redentor nascido de uma virgem que foi avisada de sua futura concepção por sua mãe, anteriormente avisada pelo deus Vishnu, que determinou o nome que o deus futuramente nascido deveria receber. O nascimento de Krishna chegou ao conhecimento de pastores, que foram prestar-lhe adoração e presenteá-lo. A virgem fugiu para Nanda, um lugar ignorado pelo rajá. O rajá então mandou matar todos os rescém-nascidos, mas Krishna escapou. Aos 16 anos saiu pela Índia pregando seus ensinamentos, realizando milagres, curas e ressurreições. Tinha discípulos para os quais falava por meio de parábolas. Krishna morreu no rio Ganges, afligido por uma flecha de um assassino, que foi condenado a vagar pelo mundo. Os discípulos de Krishna não puderam achar seu corpo, pois ele havia ressuscitado e ascendido aos céus;
Buda – a segunda vinda de Krishna, reenviado por Vishnu. O nascimento de Buda foi predito a sua mãe por meio dum sonho. Era filho de um príncipe e nasceu num palácio. Seu nascimento resultou em uma benção sobre o mundo, que causou a cura de doentes, frutificação de árvores, mais colorido e fragrância às flores, e bons ventos. Buda impressionou aqueles que estavam presentes na ocasião de seu nascimento ficando de pé. Uma estrela brilhante surgiu no céu quando de seu nascimento. Um velho que foi ver o recém-nascido Buda recebeu o dom da profecia, mas não pode ver seus futuros feitos por já ser um idoso. Com poucos anos de idade começou sua pregação, e passou 49 dias sob a árvore de Bó, onde foi tentado pelo demônio. Converteu muitos com sua pregação. Era revoltado com o poder abusivo dos sacerdotes bamânicos. Foi traído por Davadatta. Após sua morte apareceu aos seus discípulos com uma auréola na cabeça;
Mitra – deus redentor dos persas. Era o intermediário entre o deus do bem, Aura-Mazda, e os homens. Foi chamado de Senhor e nasceu numa gruta em 25 de Dezembro. Sua mãe foi virgem antes e depois do parto e uma estrela brilhante surgiu no Oriente na ocasião de seu nascimento. Magos o presentearam com incenso, ouro e mirra e o adoraram. Viveu como um grande mestre fazedor de milagres. Após a morte, ressuscitou;
Baco – deus do vinho, e também um deus salvador. Fez vários milagres, dentre eles a transformação de água em vinho e a multiplicação de peixes. Quando criança, quiseram matá-lo;
Hórus – deus solar e redentor dos egípcios. Nasceu da virgem Ísis em 25 de Dezembro. Morreu, desceu ao mundo dos mortos e ressuscitou.
Os deuses redentores costumavam ser também deuses-sol, tais como Átis, Balenho Joel e Fo. Os nascimentos dos deuses solares coincidem em data como 25 de Dezembro porque é nessa data que ocorre o “renascimento do Sol”: o solstício de Inverno, no hemisfério norte. Suas mortes foram fixadas entre Março e Abril para coincidirem com a Primavera, época de fertilidade e germinação das folhas. Jesus Cristo se inclui nesse grupo de deuses solares como seu último representante.
Tertuliano admitiu que o dogma da ressureição tem origem no mito do deus Mitra. São Crisóstomo descreveu Jesus como o “sol da justiça” e Sinésio como o “sol intelectual”. O número de apóstolos em 12 representa, muito provavelmente, os signos zodiacais, dos quais Ísis, mãe de Hórus, era a deusa representante. Ísis pôde manter-se virgem mesmo depois do parto graças aos raios solares, e era costumeiramente representada sentada com Hórus no colo, tal como a virgem Maria dos cristãos. A lenda de Ísis e Hórus fugindo de Seth também se equivale à história de Maria e Jesus fugindo de Herodes.
A ideia de um indivíduo meio deus meio homem já era crença religiosa desgastada na época. A guerra entre um deus do bem e um do mal também já havia sido concebida há muito tempo por Zoroastro, em cuja doutrina se inclui a história do conflito entre Aura-Mazda e Arimã, sendo Mazda auxiliado por seu filho Mitra, que veio a Terra, morreu e ressuscitou. Na criação do mito do Jesus Cristo os judeus fizeram uma mistura entre Mitra – cuja crença já havia sido transportada para a Sicília –, Osíris e Átis, estes últimos adorados em Alexandria e Roma, respectivamente.
Copiando o Mitraísmo, os primeiros cristãos se reuniam em catacumbas e cavernas e conceberam a ideia de que Jesus havia nascido em uma gruta. Dentre os mitráicos também havia o costume de realizar banquetes subterrâneos nos quais estavam envolvidos o pão e o vinho, como nos ritos solares em geral e no próprio judaísmo. A águia e o touro, animais que simbolizavam Mitra, foram designados a simbolizar João e Lucas. O Cristianismo copiou do Mitraísmo, ainda, o uso da pia batismal com água benta e da cruz, que passou a ser o símbolo máximo dos cristãos a partir do século IV EC.
A figura de Jesus Cristo é, conclusivamente, não mais que um mito solar que segue uma linha de doutrinas antigas pagãs. Não tem praticamente nada de original e nenhuma comprovação histórica consistente que garanta sua suposta existência física. Na verdade, não existiu um Jesus, mas muitos, sendo este um nome comum no primeiro século. É possível que entre os muitos crucificados na Judéia tenha havido pelo menos um Jesus. Mas o Jesus Cristo que dá base ao Cristianismo não passa de um mito, um fantasma idealizado por aqueles que quiseram dar forma humana a uma doutrina religiosa que vinha ajuntar os incautos judeus martirizados pela repressão romana.
Referências
Enciclopédia Mirador Internacional. São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda, 1981. – Referência incompleta até 16/11/11.
http://super.abril.com.br/religiao/procura-se-jesus-cristo-436480.shtml
http://www.mphp.org/jesus-historico/jesus-o-incomodo-silencio-da-historia.html
http://ateus.net/artigos/critica/jesus-cristo-nunca-existiu/
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