segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Inconsistência dos chamados castigos divinos

O homem primitivo viu nas forças da natureza, raios, terremotos, vulcões, vendavais, etc., a manifestação da ira divina contra o mundo. Esse pensamento primevo transpôs a Pré-História, a Idade Clássica, a Idade Média, a Moderna e a Contemporânea. E, por incrível que pareça, essa visão pré-histórica se mantém viva nas mentes de muita gente após dois milênios de cristianismo. Quando se questiona sobre os destinatários desses castigos, os fiéis respondem com frases pouco racionais, como, “não entendemos os desígnios divinos”; "Deus escreve certo por linhas tortas”; etc. Todavia, uma visão bem racional dos fatos só vislumbra escritas mais tortas do que as linhas. “No século 18, a invenção do pára-raios, por Benjamin Franklin, foi condenada pela Igreja como invenção do diabo. Sendo o raio expressão da cólera do Senhor, só podia ser tentação do demo impedir que o castigo divino caísse sobre o mundo. Na França, a "excomunhão" foi levada a sério: em Saint-Omer, Vissery de Bois foi processado por heresia, por instalar um pára-raios em sua casa”. (AlmanaqueZAZ) Em 1912, milhares de pessoas expiraram nas gélidas águas do Atlântico Norte, com o naufrágio do Titanic. Afirmam cristãos que foi um castigo contra quem dissera: “nem Deus afunda o Titanic”. Um deus bom, justo, perfeito... levaria tanta gente inocente como vingança contra um indivíduo blasfemo? Ou seriam bons aqueles que se salvaram do acidente, e ruins os que se afogaram? A mim não parece ter havido nenhuma justiça divina no fato. Em 1755, no sacratíssimo “dia de todos os santos”, o monstruoso Terremoto de Lisboa fez um tremendo estrago. Para Ellen Gould White (O Grande Conflito), foi a reprovação divina àqueles idólatras. Seria isso obra de um deus sábio e justo? Se o catolicismo era a besta do Apocalipse, como consta das obras de E. G. White, Uriah Smith e outros, não seria mais adequado que Deus sepultasse em um terremoto o papa, o cabeça da Igreja? Não! Na realidade, o ser imaginário nada faz, e a natureza não escolhe entre pecadores e inocentes! Quase todos anos, as nossas rádios e TVs anunciam graves acidentes com ônibus de romeiros. Só no ano de 1999, uma batida envolveu, entre outros carros, dois ônibus de romeiros, resultando veículos incendiados e muitas vítimas. Sabemos que são pessoas devotas, que estão executando um ato de fé. Para os cristãos anticatólicos, isso tem externado o desagrado divino pela adoração “da criatura em vez do criador”. Que nada! Se fosse um deus onipotente, sábio, bom e justo a castigar a idolatria, ele enviaria um raio que partisse a Basílica de Aparecida do Norte, como prova de que detesta esses ritos abomináveis, sem fazer perecer os pobres que não sabem o que fazem. Nesse mesmo ano, o desabamento do teto de um dos templos da Igreja Universal do Reino de Deus, em Osasco, matou 23 pessoas e feriu 560. Cerca de 1.500 fiéis estavam em vigília de orações no momento do acidente. Não faltou quem visse aí o furor divino contra a igreja de um aproveitador da boa-fé do povo. Que incoerência!!! Fosse ação divina, o teto teria desabado sobre a cabeça do fundador da igreja, não sobre os humildes fiéis, que acreditavam estar ao lado da verdade. Por que Deus não trouxe um daqueles terremotos sobre Santiago quando Augusto Pinochet assassinava cruelmente tantos dissidentes? Por que não despejou um saraivada sobre a China quando Mao-Tse-Tung cometia atrocidades contra seu povo? E o Socialismo ateu da União Soviética? Por que lá não ocorreu nenhum desastroso fenômeno natural enviado pelo Senhor dos céus? Ah, esses castigos divinos não me convencem! Pensando por esse lado religioso, nós, os brasileiros, somos o seleto povo de Deus nos últimos séculos. Deixando de lado a marginalidade, as corrupções, as imoralidades políticas de que somos vítimas, tudo obra do Diabo, nós não precisamos nos preocupar com terremotos; não se tem conhecimento histórico de quando ocorreu um vulcão em nosso solo; nosso clima é bom; não temos uma guerra há mais de século; enquanto aqui ao lado nossos vizinhos chilenos têm sido alvo da ira divina através de terremotos; os colombianos, aí bem próximo, tem sofrido a fúria infernal das lavas vulcânicas; os norte-americanos, de vez em quando, em um canto ou outro, são aterrorizados com as chamas do inferno, sacudidos por fortes terremotos e violentos furacões; os filipinos, os japoneses e outros povos do Oriente - pobres rejeitados de Deus! -, sobre eles tem pesado a mão divina por meio desses catastróficos e incontroláveis fenômenos; os israelenses, que se diz terem-se apartado de Jeová, florescem economicamente; todavia, de quando em quando, estão às voltas com o terror impingido pelos servos de Alá. A Irlanda do Norte, como sofre com uma longa guerra intracristã! Não é à toa que alguns dizem que “Deus é brasileiro”. Estamos mesmo divinamente privilegiados. Pensando em tudo isso, eu questiono: Seriam os habitantes das zonas geográficas do “Círculo do Fogo” povos ímpios, merecedores da repreensão do todo-poderoso? Os indonésios, que cometeram tantas barbaridades contra crianças timorenses, não mereciam receber a justa medida do cálice transbordante da ira do Rei dos Reis? Como poderia eu crer que agentes divinos fossem os autores de afirmações capazes de provocar a horripilante morte de Giordano Bruno, a proibição do livro científico de Copérnico e a retratação de Galileu Galilei, que não quis ter o mesmo fim de seu antecessor Bruno? Sei que o nosso planeta pode sofrer a colisão de algum corpo espacial; mas as estrelas do céu caírem “pela terra como a figueira, quando abalada por vento forte, lança seus figos verdes”, isso não tenho como entender. Uma pequena estrela tem milhares de vezes o tamanho da Terra. Como se poderiam lançar todos os elefantes africanos e todas as baleias dos oceanos sobre um mosquito? Ah, assim só posso continuar ateu, graças a Deus! Que pai, por mau que fosse, no momento de ira, atiraria uma bomba entre todos os seus filhos só por que alguns deles o desonraram? Um pai sábio castigaria os filhos inocentes, esquecendo-se dos maus enquanto estivessem executando suas maldades? Não venham com essa de escrever certo por linhas tortas! Pois mais tortas estão as escritas! Não há como entender mesmo desígnios divinos tão aleatórios! Não tem qualquer lógica a crença em castigos divinos.

LHC provou a inexistência de fantasmas

O colisor de partículas já foi capaz de provar muitas teorias emocionantes, testemunhar a criação do plasma quark-glúon (a matéria mais densa fora dos buracos negros), encontrar evidências-chave contra a supersimetria e descobrir o famoso bóson de Higgs, resultado que gerou um Prêmio Nobel de Física. Muitas pessoas, no entanto, não têm sequer conhecimento de todas essas maravilhas que o LHC está desempenhando, em geral porque mal podem soletrar “quark-glúon”. Porém, uma certa conclusão que o LHC nos permite tirar pode agarrar a atenção do público: pelo menos um físico sustenta que ele, de fato, refutou a existência de fantasmas. Atividade paranormal: o que há por trás dela? Como é que é?! O físico em questão é Brian Cox, pesquisador de física de partículas na Universidade de Manchester, no Reino Unido. Em uma transmissão recente feita pela BBC, os convidados do programa “The Infinite Monkey Cage” estavam discutindo a ciência e o paranormal, quando Cox afirmou o seguinte: “Antes de fazermos a primeira pergunta, eu vou dar uma declaração: não estamos aqui para debater a existência de fantasmas porque eles não existem. Se queremos que algum tipo de padrão que carrega informações sobre nossas células vivas persista, então precisamos especificar exatamente qual meio carrega esse padrão e como ele interage com as partículas de matéria a partir das quais os nossos corpos são feitos. Temos que, em outras palavras, inventar uma extensão para o Modelo Padrão de Física de Partículas que escapou à detecção no Grande Colisor de Hádrons. Isso é quase inconcebível nas escalas de energia típicas das interações de partículas em nossos corpos”. Não entendeu nada? Pois é. Cox usou alguns termos científicos que podem confundir leigos como nós, de forma que o astrofísico Neil deGrasse Tyson, que também estava no programa, pressionou o cientista para esclarecer sua declaração. “Se eu entendi o que você acabou de declarar, você afirmou que o CERN, o Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, refutou a existência de fantasmas”. “Sim”, respondeu Cox. 5 Fenômenos paranormais famosos facilmente desmascarados pela ciência Cadê? O físico explicou que, se houvesse algum tipo de substância “dirigindo” nossos corpos (algo que poderia virar um fantasma depois da nossa morte, e mover nossas pernas e braços), então deveria interagir com as partículas das quais nossos corpos são feitos. Dado o fato de que o LHC já fez medidas de alta precisão sobre as maneiras como as partículas interagem, Cox concluiu: “Minha afirmação é que não pode haver nada, tipo uma fonte de energia, que está dirigindo nossos corpos”. Embora existam inúmeras explicações científicas que refutam e desacreditam o paranormal, a declaração de Cox parece nova. As 10 piores farsas paranormais da história A ideia é mais simples do que sua explicação sugere: se fantasmas existem, eles são feitos de partículas, não é mesmo? Logo, se eles estivessem mesmo invadindo o mundo físico, então certamente seus “rastros” seriam detectados pelo LHC. Isso não aconteceu. [RealClearScience]

Seis explicações para entender o Big Bang.

SEIS EXPLICAÇÕES FUNDAMENTAIS PARA ENTENDER O BIG BANG 08 Jun 2016 Escrito por Emerson Borges Publicado em COSMOLOGIA Lido 21713 vezes Imprimir E-mail Seis explicações fundamentais para entender o Big Bang A grande maioria dos Ateus aceitam a teoria do Big Bang, pois, até o momento é a teoria mais plausível para a origem do universo de acordo com o conhecimento atual da humanidade. Obviamente, novos fatos podem surgir e novas teorias podem ser formuladas, mas, até o presente momento, o Big Bang é a teoria mais plausível. Alguns detalhes são importantes serem ressaltados devido à grande confusão que as pessoas fazem sobre esta teoria, principalmente devido à falta de informação. Primeiro, a Teoria do Big Bang não postula que o universo surgiu do nada, mas sim em concomitância com tempo. Sendo assim, não existe um momento anterior ao Big Bang, uma vez que "antes" pressupõe tempo. O Big Bang criou o espaço-tempo, sendo assim não havia "antes", pois o Big Bang é o tempo=0. Segundo, o nada cria sim reações quando reage com o nada. Na mecânica quântica, por exemplo, partículas subatômicas surgem e desaparecem simplesmente do nada a todo instante. Esta ideia de que nada surge do nada (que é uma ideia de filósofos antigos como Aristóteles) já caiu por terra na década de 50. Terceiro, na verdade, a teoria do Big Bang, não diz que o universo se originou de uma explosão propriamente dita, porque a ocorrência de uma explosão pressupõe a existência de alguma coisa anterior que explodiu em um meio preexistente. E, no caso do universo, tudo o que existe surgiu desse ponto inicial. Além disso, não teve "Bang" (explosão) no Big Bang, porque a expansão não fez barulho - não existe som no vácuo Quarto, o Big Bang não gerou os planetas e as galáxias como nós conhecemos, a explosão que se deu de um ponto minúsculo continha a energia que daria origem após o resfriamento da mesma, as primeiras matérias. Hawking demonstrou que um buraco negro (singularidade) pode explodir liberando energia, a ciência não pode dizer ainda o que houve antes desta “explosão” ou o que gerou (se é que se pode dizer isso) o ponto superdenso que se precipitou, mas podemos dizer o que houve depois e entender tudo isto através de estudos e análises. Quinto, as singularidades (como a que originou o Big Bang) existem hoje mesmo. E são mais comuns do que parecem. Há um monte delas acima de nós agora mesmo. Dez milhões só na nossa galáxia. É que você as conhece por outro nome: buracos negros. Esses ralos cósmicos que sugam tudo o que aparece em seu caminho são basicamente pontos onde a força gravitacional é infinita. Para entender melhor um buraco negro, o melhor jeito é aprender a receita para construir um. Primeira parte: pegue 1 milhão de planetas Terra e funda todos eles até formar uma bolona, com massa equivalente à de 3 Sóis. Quanto maior a massa de alguma coisa, maior a gravidade. No caso da nossa bola, ela teria uma força gravitacional tão poderosa que nada teria como ficar em sua superfície sem começar a ser tragado para dentro do solo. Até a própria superfície começaria a ser engolida. Isso realmente acontece com as estrelas gigantes, bem maiores que o Sol, quando elas morrem. Nesse processo digestivo, a bola vai diminuindo de tamanho e fica cada vez mais densa. A força gravitacional também se concentra, puxando mais matéria ainda para o centro da bola. Uma hora a gravidade vai ter sugado tudo. Mas não vai deixar de existir. Será um ponto de dimensão zero. Uma singularidade, assim como a que originou o Big Bang. Sexto, crer no Big Bang, átomos e fenômenos astronômicos é crer no que eu vejo. Eu vejo o Big Bang e fenômenos astronômicos quando meço o efeito doppler em galáxias e vejo blueshifts (decréscimo no comprimento de onda [aumento da frequência]) em quase todas, quando vejo uma supernova, uma estrela anã branca, vejo em todo lugar. Eu vejo o Big Bang quando estudo um buraco negro. Eu vejo o Átomo quando a espectroscopia me mostra o comportamento da molécula e consigo comprova-lo por equações como a Equação de Schrodinger, o princípio da incerteza de Heiseberg e a Equação de Le Broglie. Eu vejo milhões e milhões de anos de evolução quando faço a datação de carbono 14 e datações radiométricas em fósseis e muitas outras estruturas geológicas e vejo que o universo não tem apenas alguns milhares de anos, mas sim, 13 BILHÕES de anos. O Big Bang é explicado pela mecânica quântica, portanto, aceitar que o Big Bang é verdadeiro não é questão de fé, antes, uma questão de evidências descobertas pela ciência.

Por que as pessoas acreditam na paranormalidade

Por Javier Salas Publicado no El País “Muitas pessoas razoáveis acreditam em fenômenos psíquicos e muitos céticos razoáveis descartam essas crenças. Estávamos interessados em saber por que há diferenças de opinião tão grandes entre pessoas igualmente racionais”. Essa foi a dúvida que o psicólogo David Gallo quis sanar, junto a seu colega de profissão na Universidade de Chicago Stephen Gray. O que distingue quem acredita no sobrenatural dos demais? Não é uma pergunta nada fácil de responder, por mais que a intuição nos faça acreditar que a resposta é simples. E, em se tratando de ciência, é preciso chegar a conclusões que estejam comprovadas. Através de uma série de estudos múltiplos, Gallo e Gray encontraram uma correlação: quem acredita na parapsicologia é um pouco pior em pensamento analítico do que aqueles que desconfiam da existência da paranormalidade. Pode parecer óbvio, mas, até hoje, os estudos que trataram de explicar o fenômeno não tinham apresentado uma conclusão tão nítida. Somos uma plataforma dedicada ao conhecimento que só poderá continuar a existir graças a sua comunidade de apoiadores. Saiba como ajudar. Gallo explica que, muitas vezes, foram propostas teorias sobre a existência de diferenças cognitivas entre os que acreditam em ciências ocultas e os céticos, que seriam responsáveis por essa crença no sobrenatural. “Mas, ao olhar através da literatura científica, nos demos conta de que havia poucas pesquisas que comprovassem essa hipótese” tão popular, ressaltou o psicólogo. Outros pesquisadores que tentaram encontrar uma correlação entre crenças esotéricas e o nível de inteligência e o desempenho acadêmico fracassaram: as pessoas que acreditam em médiuns ou em telepatia não são mais burras nem obtêm piores notas. Os dois psicólogos desenvolveram um estudo, o mais completo possível, para tratar de esclarecer algumas incógnitas da equação, utilizando grupos de pessoas – com alto nível de escolaridade – que estavam convencidas da existência de poderes parapsicológicos e que eram especialmente céticas sobre tais fenômenos. Eles compararam seus desempenhos em numerosas tarefas cognitivas: provas de lógica, memória, linguagem, associação… sem encontrar grandes diferenças. Em primeiro lugar, estudaram, detalhadamente, a memória episódica (lembrança precisa de experiências do passado), um ponto em que não encontraram diferenças entre os dois grupos. Gallo e Gray, especializados nessa área, pensavam – por engano – que a memória poderia ser a origem das distorções que geravam uma visão, como a que médiuns costumam ter, graças a lembranças mal selecionadas ou posteriormente manipuladas, por exemplo. A principal descoberta foi o fato de que os que acreditam em atividades paranormais tiveram um pior desempenho em testes de pensamento analítico e lógica. Apesar de a diferença em relação ao resultado dos céticos não ter sido grande, constitui uma sólida evidência. Para Gallo, isso pode significar que tendem a processar a informação de uma forma menos analítica e mais intuitiva que os céticos. “Isso poderia fazer com que eles tenham um pior desempenho nesse tipo de provas, e também poderia apoiar suas crenças sobrenaturais”, explicou. Curiosamente, o estudo também demonstrou que aqueles que acreditam na parapsicologia tendem a estar mais satisfeitos com suas vidas do que os céticos. Gallo lembra que esse é um fator que já havia sido observado em estudos prévios e que “poderia indicar que processar a informação de forma mais intuitiva tem vantagens, e que, talvez, faça com que as pessoas sejam mais felizes, de uma maneira geral”. A psicóloga Helena Matute, da Universidade de Deusto (Espanha), defende que isso é algo habitual e que determinadas superstições, em um nível adequado, podem ter aspectos positivos. Matute publicou, recentemente, um estudo cujos resultados se encaixam muito bem com os obtidos por Gallo e Gray, já que mostra que aqueles que acreditam na paranormalidade tendem a criar ilusões causais. “Tem muito a ver com o que nós estamos vendo, parecem ter menos pensamentos críticos e distorcem a informação que recebem”. Através dos experimentos realizados por Matute e sua equipe, foi possível concluir que quem acredita no sobrenatural tende a encontrar uma relação de causa e efeito em situações aleatórias. “São suscetíveis a esse tipo de ilusões causais, como detectar padrões a partir de informações ambíguas. É como quando olhamos o formato de certas nuvens e identificamos rostos ou figuras, mas elevado ao extremo: ver uma cara em uma torrada e dar a isso um significado real”, explica Matute, diretora do Labpsico da Deusto. Esse princípio explicaria outra das descobertas do trabalho de Gallo, publicado pela Memory & Cognition: o grupo que acredita no sobrenatural também abraçava com mais naturalidade as teorias da conspiração, que oferecem explicações extraordinárias e esotéricas a feitos notáveis (um dos exemplos utilizados no estudo é que o presidente norte-americano Barack Obama, na realidade, não teria nascido nos EUA). Embora o estudo proporcione uma das melhores provas da hipótese de diferenças cognitivas, também ressalta outros fatores que, sem dúvidas, influenciam as crenças de forma decisiva: 70% dos que acreditam na existência da paranormalidade afirmaram que sua forma de pensar coincide com a de amigos e parentes próximos. Gallo reconhece que não há evidências suficientes para garantir o que é mais determinante: “Há muitos fatores que impulsionam as crenças das pessoas, e eles poderiam interagir de maneiras desconhecidas”. Além disso, na maioria dos casos, essas pessoas afirmavam ter vivido experiências que as levavam a acreditar na paranormalidade, o que se encaixaria bem na hipótese desses estudos: possivelmente analisaram mal o ocorrido ou geraram uma explicação ilusória. Não obstante, chama a atenção o fato de que a maioria dos céticos também respondeu que não acreditava no sobrenatural porque nunca havia tido nenhuma experiência desse tipo. Gallo adverte que não se deve tirar conclusões exageradas de seu estudo e afirma que, para ele, o resultado mais surpreendente de seu trabalho foram as reações à sua publicação. “Alguns céticos disseram que, finalmente, ‘foi provado’ que os que acreditam na paranormalidade são cognitivamente inferiores, e alguns desses crentes disseram que nossos resultados estavam ao contrário. Acredito que nenhuma dessas reações se justifica”, defendeu Gallo. O pesquisador explicou que seu trabalho nega a ideia generalizada de que céticos e partidários do sobrenatural possuem grandes diferenças relacionadas à inteligência ou à cognição. “Muito pelo contrário, (os resultados) indicam que é necessária uma compreensão mais matizada de como os diferentes estilos de processamento de informação e habilidades cognitivas podem estar interagindo com as crenças”.

Evidências da Evolução

Claudio Murdoch 25 de setembro · Evolução diante nossos olhos: "Muitas vezes quando discutimos processos evolutivos somos remetidos a analisar uma escala de tempo profunda. Como os humanos vivem pouco é difícil ter uma dimensão de escalas temporais que abrangem milhões de anos. Assim, não conseguimos “ver” a evolução com nossos próprios olhos. Porém, existiriam casos onde a evolução das espécies seria possível ser vista em “tempo real”? Alguns organismos tem um ciclo de vida muito veloz. As bactérias por exemplo, em condições ideais, podem se duplicar a cada 20 minutos. Por isso, 30 anos para uma bactéria representaria um número gigante de gerações, sofrendo mutações nas quais estariam sendo selecionadas pela seleção natural. Por isso, as bactérias são um ótimo modelo para analisarmos a evolução diante de nossos olhos. As bactérias estabelecem uma relação muito intima com a humanidade e longe de serem um organismo que nos causa apenas mal, a nossa relação com as bactérias pode nos trazer inúmeros benefícios. No entanto, muitas podem ser prejudiciais a nossa espécie. No início do século XX, por exemplo, um mero arranhão poderia ser letal, resultado de uma infecção bacteriana. Todavia, com a descoberta dos antibióticos o combate as bactérias patológicas foram possíveis, trazendo uma melhoria significativa na nossa expectativa de vida. Porém o uso de antibióticos passou a ser uma força seletiva significativa atuando na evolução das bactérias. Isso porque os antibióticos matavam as bactérias mais suscetíveis ao medicamento mas selecionavam positivamente aquelas características de resistência aos antibióticos. Isso provocou uma corrida evolutiva entre a produção de antibióticos e as bactérias, um respondendo as mudanças do outro. Quando os antibióticos foram criados a expectativa é que venceríamos de vez as infecções bacterianas. Porém o cenário apesar de ser melhor do que o início do século XX, hoje estamos muito distantes daquela previsão já que as bactérias evoluíram em resposta aos antibióticos. Isso se deve ao fato do uso de antibióticos selecionar positivamente os genes que conferem resistência aos próprios antibióticos. E hoje um novo grupo de bactérias conhecidas como “superbactérias” extremamente resistente a antibióticos vem causado milhares de mortes no mundo. Recentemente a bactéria Neisseriagonorrhoeaque, que causa gonorréia, derivou uma variante super-resistente a antibióticos e incurável até o momento. A OMS alerta sobre o risco de disseminação mundial dessa nova bactéria.² Ou seja, a resistência aos antibióticos são outro exemplo categórico da evolução. Se a vida não evoluísse não faria nenhum sentido desenvolver novos antibióticos, já que as bactérias de 1970 seriam as mesmas dos dias atuais, mas a realidade nos mostra o contrário. Elas seguem evoluindo e se adaptando ao meio. Esse processo ocorre também com vírus em resposta a vacinas e insetos que evoluem a medida que são expostos inseticidas e passam a se tornar resistentes ao veneno. Distribuição geográfica A distribuição das espécies no globo também pode ser uma evidência da evolução, por exemplo, a inexistência de anfíbios ou peixes de água doce endêmicos em ilhas oceânicas. As ilhas oceânicas, diferentemente das ilhas continentais nunca foram ligadas aos continentes, elas surgiram a partir do leito marinho. Alguns exemplos de ilhas oceânicas são: Havaí, Galápagos e Santa Helena. Em todas essas ilhas não existem espécies endêmicas de peixes de água doce e anfíbios, isso porque na maior parte dos casos esses animais não toleram a alta salinidade da água e, portanto, não poderiam migrar do continente para essas ilhas. Diferentemente das ilhas oceânicas, as ilhas continentais apresentam uma vasta gama de anfíbios e peixes de água doce. Mas que criador teria um capricho de colocar anfíbios apenas em ilhas continentais e não em ilhas oceânicas? Alguém poderia argumentar que as ilhas oceânicas não seriam um bom habitat para anfíbios e, portanto, eles não sobreviveriam nessas ilhas. No entanto, existem experiências de introdução de anfíbios em ilhas oceânicas. Em 1932 foi introduzido no Havaí o sapo-boi a fim de controlar o besouro da cana de açúcar, no entanto, seu sucesso adaptativo foi tamanho que o peixe boi se transformou em uma praga na ilha. Outro padrão interessante envolvendo ilhas está relacionado aos tipos de espécies que elas apresentam. Ilhas continentais que se separaram recentemente do continente tendem a apresentar faunas e floras similares ao do continente na qual elas faziam parte. Já ilhas que se separaram há muito tempo do continente tendem a apresentar um padrão de espécie muito atípicos. Isso porque a medida que a ilha se separa do continente, o fluxo gênico entre espécies que até então estavam unidas se interrompe. E a partir de então essas espécies passam a evoluir de forma separadas. Quanto maior o tempo de interrupção do fluxo gênico maior será a divergência genética entre as espécies e, portanto, mais separadas evolutivamente. A Inglaterra se separou do continente europeu a cerca de 300 mil anos (pouco tempo do ponto de vista evolutivo) e a fauna e flora inglesa apresenta um padrão similar a da fauna e flora Europeia. No entanto, Madagascar se separou a 160 milhões do continente e pode ser considerado um caldeirão evolutivo. 70% das formas de vida de Madagascar são encontradas somente lá. Em Madagascar podemos encontrar lêmures,Cobra Malagaxe Nariz-de-Folha, besouro girafa e as arvores abobas, dentre outras espécies fascinantes."

Alexandre Versignassi Blog do diretor de redação da SUPER e autor do livro "Crash - Uma Breve História da Economia", finalista do Prêmio Jabuti. SIGA Muito além de Marte: na pior das hipóteses, existe vida em dez trilhões de planetas. E isso não é o mais importante

Um bebê recém-nascido não sabe que é um indivíduo. Acha que ele e a mãe formam uma entidade única. Talvez ache até que ele, a mãe e o mundo sejam uma coisa só. PUBLICIDADE Mas antes de seguir com esse raciocínio, queria passar a palavra para alguém mais qualificado que eu, o Richard Dawkins. “Vamos imaginar que o surgimento de vida em algum planeta seja algo estupidamente improvável”, ele me disse numa entrevista recente. “Mais improvável até do que você tirar uma quadra de ases num jogo de cartas, e todo mundo na mesa também sair com quadras. Mas sabe de uma coisa? Mesmo se a vida for algo tão difícil de acontecer, ainda assim ela seria abundante no Universo”. Dawkins, professor emérito de biologia em Oxford e reformulador do darwinismo, entende de vida. Mas nem ele nem ninguém tem como dizer se o fenômeno é corriqueiro no Cosmos ou se não, se trata-se de algo raríssimo, que só aconteceu na Terra, ou, dando uma chance ao acaso, que só apareceu em um a cada um bilhão de planetas Cosmos afora. Um em um bilhão parece pouco. Só que é menos ainda. A probabilidade de você morrer atingido por um raio é de uma em 2 milhões. A de ganhar na Mega-Sena, uma em 50 milhões. Em outras palavras, uma chance em um bilhão é basicamente sinônimo de “impossível”. Mas isso aqui na Terra. Porque no céu a história é outra. É que, se um em um bilhão é algo menor do que parece, o espaço sideral é maior. Bem maior do que parece. As estimativas mais humildes indicam que existem 10 trilhões de bilhões de estrelas no Universo observável (ou 1022 , o número 1 seguido de 22 zeros, caso você prefira uma notação mais científica). Um mundo assim, com 10.000.000.000.000.000.000.000 de sóis, destrói qualquer estatística. Assim: se a vida surgiu em um único planeta por sistema solar (como parece ter sido o caso neste sistema solar aqui), e só um em cada bilhão de sistemas solares teve essa sorte, existiriam dez trilhões de planetas com vida. Mais: se entre esses supostos planetas com vida só um em um milhão abrigar seres inteligentes, teríamos dez milhões de civilizações sobre as nossas cabeças. Como o Dawkins mesmo disse naquela entrevista: “Nossos cérebros não sabem lidar com grandezas na ordem de bilhões e bilhões”. Mas tem outra coisa com a qual o nosso cérebro não sabe lidar: o próprio conceito de “vida”. Por instinto, nós teimamos em achar que somos entidades à parte no Universo. Que nós estamos aqui, e o Universo está “lá fora”. E aí que a gente volta aos bebês do primeiro parágrafo. Nos primeiros meses de vida, passamos a entender que somos indivíduos, entidades únicas, apartadas das nossas mães, e do mundo, e do Universo. Ilusão. Os átomos que formam o seu corpo sempre estiveram aqui na Terra. E vão continuar por aqui, independentemente do que você faça com eles até o dia que o seu coração parar de bater. O autor do Gênesis traduziu bem essa ideia, na cena em que Deus diz a Adão que ele terá de trabalhar pesado, e suar para que a terra produza algum alimento “até que você, Adão, volte para a terra, pois do pó você foi feito, e em pó irá se transformar” (Gen. 3:19). Três mil anos depois, o astrônomo britânico Martin Rees refinou o raciocínio. Diante da descoberta de que todos os átomos mais complexos que o hidrogênio e o hélio foram forjados no interior de estrelas, ele escreveu que “somos todos, literalmente, cinzas de estrelas mortas há muito tempo”. Logo, nós somos o chão. Nós somos as estrelas. Somos o espaço e o tempo. E a vida consciente talvez seja o Universo se olhando no espelho, e descobrindo que ele próprio é um indivíduo. —— VEJA TAMBÉM: Rachaduras nas paredes do Universo

A Fascinante Evolução do Olho

Trevor D. Lamb O olho humano é um órgão extremamente complexo; atua como uma câmera, coletando, focando luz e convertendo a luz em um sinal elétrico traduzido em imagens pelo cérebro. Mas, em vez de um filme fotográfico, o que existe aqui é uma retina altamente especializada que detecta e processa os sinais usando dezenas de tipos de neurônios. O olho humano é tão complexo que sua origem provoca discussão entre criacionistas e defensores do desenho inteligente, que o têm como exemplo básico do que chamam de complexidade irredutível: um sistema que não funciona na ausência de quaisquer de seus componentes e, portanto, não poderia ter evoluído naturalmente de uma forma mais primitiva. Mesmo Charles Darwin admitiu em A origem das espécies, de 1859 – que detalha a teoria da evolução pela seleção natural –, que pode parecer absurdo pensar que a estrutura ocular se desenvolveu por seleção natural. No entanto, apesar da falta de evidências de formas intermediárias naquele momento, Darwin acreditava que o olho evoluíra dessa maneira. Não foi fácil encontrar uma evidência direta para essa teoria. Embora pesquisadores que estudam a evolução do esqueleto possam documentar facilmente a metamorfose em registros fósseis, estruturas de tecidos moles raramente fossilizam. E mesmo quando isso ocorre, os fósseis não preservam detalhes suficientes para determinar como as estruturas evoluíram. Ainda assim, recentemente biólogos fizeram avanços significativos no estudo da origem do olho, observando a formação em embriões em desenvolvimento e comparando a estrutura e os genes de várias espécies para determinar quando surgem os caracteres essenciais. Os resultados indicam que o tipo de olho comum entre os vertebrados se formou há menos de 100 milhões de anos, evoluindo de um simples sensor de luz para ritmos circadianos e sazonais, há cerca de 600 milhões de anos, até chegar ao órgão sofisticado de hoje, em termos ópticos e neurológicos, há 500 milhões de anos. Mais de 150 anos após Darwin ter publicado sua teoria revolucionária, essas descobertas sepultam a tese da complexidade irredutível e apoiam a teoria da evolução. Explicam ainda porque o olho, longe de ser uma peça de maquinaria criada à perfeição, exibe falhas evidentes – “cicatrizes” da evolução. A seleção natural não leva à perfeição; ela lida com o material disponível, às vezes, com efeitos estranhos. Para entender a origem do olho humano é preciso conhecer eventos ocorridos há muito tempo. Nós, seres humanos, temos uma linha ininterrupta de ancestrais que remonta a quase 4 bilhões de anos até o início da vida na Terra. Cerca de 1 bilhão de anos atrás, animais multicelulares simples se separaram em dois grupos: um com estrutura de simetria radial (parte superior e inferior, mas não anterior e posterior), e outro de simetria bilateral, com os lados direito e esquerdo espelhando imagens do outro lado, terminando em uma cabeça. Após cerca de 600 milhões de anos, os bilaterais se dividiram em dois grupos importantes: um deu origem à grande maioria dos animais sem coluna vertebral, os invertebrados; e outro, cujos descendentes incluem nossa própria linhagem de vertebrados. Logo após essas duas linhagens se separarem, ocorreu uma incrível diversidade de estruturas animais: a explosão cambriana que deixou sua famosa marca nos registros fósseis de 540 a 490 milhões de anos atrás. Essa explosão evolutiva lançou a base para a origem de nossos tão complexos olhos. COMPOSTO VERSUS CÂMERA o registro fóssil revela que durante a explosão cambriana surgiram basicamente dois tipos diferentes de olhos. O primeiro parece ter sido composto da versão observada atualmente em quase todos artrópodes (insetos, crustáceos e aracnídeos). Nesse tipo de olho, uma série de unidades idênticas de geração de imagens – cada uma constitui uma lente ou um refletor – irradia luz para alguns elementos sensíveis a ela, denominados fotorreceptores. Os olhos compostos são muito eficazes para animais de pequeno porte, pois oferecem um amplo ângulo de visão e resolução espacial moderada em volume pequeno. No Cambriano, essa acuidade visual pode ter dado aos trilobitas e a outros artrópodes primitivos uma vantagem de sobrevivência sobre seus contemporâneos. No entanto, olhos compostos são impraticáveis em animais maiores, pois o olho teria de ser enorme para proporcionar visão em alta resolução. Assim, com o aumento do tamanho do corpo, também aumentaram as pressões seletivas favorecendo a evolução do olho tipo câmera. Nos olhos tipo câmera, todos os fotorreceptores compartilham uma única lente que foca a luz e estão dispostos como uma lâmina (a retina) que reveste a superfície interna da parede ocular. Moluscos têm olhos tipo câmera que lembram os nossos, mas seus fotorreceptores são idênticos ao encontrado em insetos. Os vertebrados apresentam um tipo diferente de fotorreceptores, que nos mandibulados (inclusive nós) ocorrem em duas modalidades: cones para a visão diurna e bastonetes para a visão noturna. Há muitos anos, Edward N. Pugh Jr., na época na University of Pennsylvania, e Shaun P. Collin, então na University of Queensland, Austrália, e eu formamos uma equipe para tentar descobrir como os diversos tipos de fotorreceptores poderiam ter evoluído. O que constatamos foi além da resposta a essa questão, fornecendo um cenário convincente para a origem do olho dos vertebrados. Como outros biólogos antes de nós, Pugh, Collin e eu observamos que muitas características marcantes do olho dos vertebrados também ocorrem em todos os representantes atuais de um ramo principal da árvore dos vertebrados: a dos vertebrados mandibulados. Esse padrão sugere que os vertebrados com mandíbulas herdaram os caracteres de um ancestral comum e que nosso olho já evoluíra por volta de 420 milhões de anos quando os primeiros vertebrados mandibulados (que provavelmente se assemelhavam aos modernos peixes cartilaginosos, como os tubarões) patrulhavam os mares. Concluímos então que nosso olho tipo câmera e seus fotorreceptores devem ter raízes ainda mais profundas e voltamos a atenção para os vertebrados sem mandíbulas, com quem compartilhamos um ancestral comum há cerca de 500 milhões de anos. Queríamos examinar a anatomia desse animal em detalhe e assim decidimos observar um dos poucos animais modernos desse grupo: a lampreia, peixe semelhante à enguia, com boca em forma de funil estruturada para sugar em vez de morder. Acontece que esse peixe também tem um olho tipo câmera completo, com cristalino, íris e músculos oculares. A retina da lampreia chega a ter uma estrutura em três camadas como a nossa e suas células fotorreceptoras se assemelham bastante aos nossos cones, embora não pareçam ter desenvolvido bastonetes mais sensíveis. Além disso, os genes que regulam muitos aspectos da detecção da luz, do processamento neural e do desenvolvimento do olho são os mesmos que comandam esses processos em vertebrados com mandíbulas. Essas semelhanças surpreendentes com o olho de vertebrados mandibulados são numerosas demais para terem surgido de forma independente. Um olho essencialmente idêntico ao nosso deve ter existido no ancestral comum dos vertebrados com ou sem mandíbulas há 500 milhões de anos. Nesse ponto, meus colegas e eu não conseguimos deixar de questionar se poderíamos rastrear a origem do olho e de seus fotorreceptores ainda mais longe. Infelizmente, na próxima faixa a ser estudada pela lógica, não há representantes vivos das linhagens que se separaram da nossa nos últimos 50 milhões de anos, mas encontramos indícios no olho de um animal enigmático conhecido popularmente como peixe-bruxa. Como a lampreia, seu parente próximo, ele tem a forma de uma enguia, sem mandíbulas. Costuma viver no leito oceânico, onde se alimenta de crustáceos e de carcaças de outros animais marinhos. Quando ameaçado, libera um muco extremamente viscoso. Embora esse peixe seja um vertebrado, o olho é bem diferente do modelo comum: não apresenta córnea, íris, cristalino nem todos os músculos de apoio. A retina tem apenas duas camadas de células em vez de três. Além disso, os olhos ficam encaixados profundamente sob uma área de pele translúcida. Observações no comportamento do peixe-bruxa sugerem que seja praticamente cego, localizando o alimento pelo olfato aguçado. Esses animais compartilham um ancestral com as lampreias, que talvez tenham tido um olho tipo câmera. Assim, o olho do peixe-bruxa deve ter se degenerado dessa forma mais avançada; é isso que a existência desse estado mais precário revela. Tomando o exemplo dos peixes cegos em cavernas, sabemos que os olhos podem sofrer degeneração significativa e até mesmo podem ser perdidos completamente em menos de dez mil anos. Mas o olho desse peixe manteve-se igual por centenas de milhões de anos. A persistência sugere que embora o animal não use o olho para enxergar nas profundezas do oceano escuro, o órgão é essencial para a sobrevivência. A descoberta gera outras implicações. O olho do peixebruxa pode ter permanecido nesse estado rudimentar devido a uma falha no desenvolvimento; assim, sua estrutura atual representaria a arquitetura de um estágio evolutivo anterior. Ao observar melhor a retina do animal podem surgir suposições sobre o papel do olho. Na retina normal, de três camadas dos vertebrados, as células da camada média, conhecidas como bipolares, processam informações dos fotorreceptores e transmitem os resultados para os neurônios de saída, cujos sinais viajam até o cérebro para interpretação. Mas a retina de duas camadas do peixe-bruxa carece de células bipolares intermediárias, ou seja, os fotorreceptores conectam-se diretamente com os neurônios de saída. Nesse sentido, o sistema nervoso da retina do peixe-bruxa assemelha-se ao da glândula pineal − pequeno corpo secretor de hormônios do cérebro de vertebrados. A glândula pineal modula o ritmo circadiano e, nos vertebrados não mamíferos, contém células fotorreceptoras que se conectam diretamente com os neurônios de saída, sem células intermediárias; em mamíferos, essas células perderam a capacidade de detectar luz. Em 2007, parcialmente fundamentados por esse paralelo com a glândula pineal, meus colaboradores e eu propusemos que o olho do peixe-bruxa não está envolvido na visão, mas fornece informações à parte do cérebro do animal que regula o essencial ritmo circadiano, além de atividades sazonais como alimentação e reprodução. Assim, talvez, o olho ancestral dos protovertebrados que viveram entre 550 milhões ou 500 milhões de anos, primeiro serviu como um órgão não visual, e só mais tarde o poder de processamento neural e os componentes ópticos e motores necessários para a visão espacial evoluíram. Estudos de desenvolvimento embriológico do olho dos vertebrados apoiam essa hipótese. Quando a lampreia está na fase larval, vive em leito de riachos e é cega. Nesse estágio de vida, o olho assemelha-se ao do peixe-bruxa, com estrutura simples, soba pele. Quando a larva sofre metamorfose, o olho rudimentar cresce substancialmente, desenvolve uma retina de três camadas, cristalino, córnea e músculos de apoio. Depois, o órgão emerge na superfície como o olho tipo câmera dos vertebrados mandibulados. Muitos aspectos do desenvolvimento de um indivíduo espelham eventos que ocorreram durante a evolução de seus antepassados, assim podemos, com cautela, usar o desenvolvimento do olho da lampreia para relatar a nossa reconstrução de como o olho evoluiu. Cicatrizes da Evolução - O olho dos vertebrados, longe de ser concebido de forma inteligente, contém inúmeros defeitos que atestam a sua origem evolutiva. Entre os defeitos que degradam a qualidade da imagem, estão uma retina invertida, que força a luz a atravessar corpos celulares e fibras nervosas antes de atingir os fotorreceptores 1 ; vasos sanguíneos que se espalham pela superfície interna da retina, provocando sombras indesejadas 2 ; fibras nervosas que se juntam, projetam-se numa abertura única na retina e viram o nervo óptico, criando um ponto cego 3 . O sistema ocular dos mamíferos também apresenta indícios intrigantes de sua origem evolutiva durante o desenvolvimento embrionário. Benjamin E. Reese e seus colaboradores da University of California em Santa Barbara constataram que os circuitos da retina de mamíferos começam um pouco como o dos peixes-bruxa, , com os fotorreceptores conectando-se diretamente com os neurônios de saída. Então, em um período de semanas, as células bipolares amadurecem e se inserem entre os fotorreceptores e os neurônios de saída. Essa sequência é exatamente o padrão de desenvolvimento esperado para confirmar se a retina de vertebrados evoluiu de um órgão de duas camadas, acrescentando poder de processamento e componentes de formação de imagens. Portanto, parece perfeitamente plausível que esse estágio inicial e simples de desenvolvimento representa o resquício de um período de evolução anterior à criação do circuito de células bipolares na retina e antes do surgimento do cristalino, córnea e músculos . ASCENSÃO DOS RECEPTORES enquanto estudávamos o desenvolvimento das três camadas da retina, surgiu outra questão relativa à evolução do olho. As células fotorreceptoras em todo o reino animal se distribuem em duas categorias distintas: rabdoméricas e ciliares. Até recentemente, muitos cientistas acreditavam que os invertebrados usavam as rabdoméricas, enquanto vertebrados usavam as ciliares, mas, na verdade, a questão é mais complexa. Na grande maioria dos organismos, os fotorreceptores ciliares são responsáveis pela detecção de luz para fins não visuais, como regular o ritmo circadiano, por exemplo. Em contraste, os receptores rabdoméricos detectam a luz com o propósito explícito de permitir a visão. Tanto os olhos compostos dos artrópodes quanto os olhos tipo câmera dos moluscos – como os do polvo, que evoluíram de forma independente dos olhos tipo câmera dos vertebrados – usam fotorreceptores rabdoméricos. Mas o olho dos vertebrados usa fotorreceptores ciliares para detectar a luz para a visão. Em 2003, Detlev Arendt, do Laboratório Europeu de Biologia Molecular em Heidelberg, na Alemanha, relatou evidências de que o nosso olho ainda retém descendentes dos fotorreceptores rabdoméricos, que foram modificados para formar os neurônios de saída que enviam informações da retina para o cérebro. Essa descoberta indica que a nossa retina contém os descendentes das duas classes de fotorreceptores: as ciliares, originalmente fotorreceptoras, e as rabdoméricas, transformadas em neurônios de saída. A evolução funciona exatamente assim, pressionando uma estrutura existente para um novo propósito; a descoberta de que os fotorreceptoras ciliares e rabdoméricos desempenham papéis diferentes em nosso olho em comparação com os olhos de invertebrados acrescenta ainda mais peso à evidência de que o olho dos vertebrados foi construído num processo natural. Para tentar entender por que os fotorreceptores ciliares triunfaram como sensores de luz na retina de vertebrados, enquanto a classe rabdomérica evoluiu para neurônios de projeção, analisei as propriedades de seus respectivos pigmentos sensíveis à luz, as rodopsinas, assim denominadas devido à molécula da proteína opsina que contêm. Em 2004, Yoshinori Shichida e seus colegas da Universidade de Kyoto, no Japão, mostraram que bem no início da evolução dos pigmentos visuais de vertebrados, ocorreu uma mudança que tornou a forma do pigmento ativada pela luz mais estável e, portanto, mais ativa. Postulei que essa mudança também bloqueou a rota de reconversão da rodopsina ativada de volta à sua forma inativa, que no caso de rodopsinas rabdoméricas requer a absorção de um segundo fóton de luz; basicamente, uma via bioquímica foi necessária para recolocar a molécula em alerta para o sinal de luz. Assim que esses dois elementos foram colocados na devida proporção, eu supus que os fotorreceptores ciliares tiveram uma vantagem distinta sobre os fotorreceptores rabdoméricos em ambientes como o oceano profundo, onde os níveis de luz são muito baixos. Então, alguns cordados primitivos (ancestrais dos vertebrados) podem ter conseguido colonizar nichos ecológicos inacessíveis a animais que dependiam de fotorreceptores rabdoméricos – não porque a opsina ciliar melhorada garantia mais visão, mas por propiciar um modo melhorado de sentir a luz, permitindo que os relógios sazonais e circadianos tenham noção de tempo. Para esses cordados primitivos, habitantes de reinos mais escuros, os fotorreceptores rabdoméricos menos sensíveis e que dispunham, junto com os ciliares, teriam sido virtualmente inúteis e assim estariam livres para assumir um novo papel: de neurônios transmissores de sinais ao cérebro. (Nesse ponto, eles não precisavam mais de opsinas, e a seleção natural as teria eliminado dessas células.) NASCE UM OLHO Agora que os meus colegas e eu tínhamos ideia de como os componentes da retina dos vertebrados se originaram, quisemos entender como, há cerca de 500 milhões de anos, o olho evoluiu de um órgão sensor de luz não visual para esse que forma imagens. Novamente encontramos indícios em embriões em desenvolvimento. No início do desenvolvimento, a estrutura neural que dá origem ao olho se projeta em um dos lados formando dois sacos ou vesículas. Depois, as vesículas se dobram, formando uma retina em forma de C que reveste o interior do olho. Provavelmente a evolução prosseguiu de forma bem semelhante. Nossa hipótese é que um proto-olho deste tipo – com uma retina em forma de C, de duas camadas, composta de fotorreceptores ciliares no exterior e neurônios de saída oriundos de fotorreceptores rabdoméricos no interior – evoluiu em um ancestral de vertebrados entre 550 e 500 milhões de anos. Ele serviu como propulsor de um relógio interno, e talvez para ajudá-lo a detectar sombras orientar o organismo de modo apropriado. Na etapa seguinte do desenvolvimento embrionário, enquanto a retina dobra-se para o interior, forma-se o cristalino, oriundo de um espessamento da superfície externa do embrião, ou ectoderma, que protrai no espaço curvo vazio formado pela retina em forma de C. Por fim, essa protrusão se separa do resto do ectoderma, tornando-se um elemento de livre flutuação. Parece provável que uma sequência de transformações muito semelhantes ocorreu durante a evolução. Não sabemos exatamente quando aconteceu, mas em 1994, cientistas da Universidade de Lund, na Suécia, mostraram que os componentes ópticos do olho podem ter evoluído facilmente em 1 milhão de anos. Com o surgimento do cristalino para captar a luz e focar imagens, a capacidade de o olho coletar informações melhorou muito. Esse progresso teria criado pressões seletivas favorecendo o surgimento de processamento de sinal melhorado na retina além do que a simples ligação de fotorreceptores para neurônios de saída oferecia. A evolução satisfez essa necessidade, modificando o processo de maturação das células para que algumas células em desenvolvimento em vez de formar fotorreceptores ciliares se tornassem células bipolares da retina que se inserem entre a camada de fotorreceptores e a de neurônios de saída. É por isso que as células bipolares da retina são tão semelhantes aos bastonetes e cones, embora não tenham rodopsina e recebam a entrada não da luz, mas da substância química liberada pelos fotorreceptores. Embora os olhos tipo câmera proporcionem um amplo campo de visão (basicamente em torno de 180 graus), na prática nosso cérebro consegue processar apenas uma fração da informação disponível a qualquer momento devido ao número limitado de fibras nervosas que ligam o olho ao cérebro. Sem dúvida, os olhos tipo câmera primitivos enfrentaram uma limitação ainda mais séria, pois se supõe que tivessem ainda menos fibras nervosas. Assim, houve pressão seletiva considerável para a evolução dos músculos para movimentarem os olhos. Esses músculos deviam existir há 500 milhões de anos, porque a estrutura deles na lampreia, cuja linhagem remonta a essa época, é quase idêntica à dos vertebrados mandibulados , inclusive nós, seres humanos. Para todos os aspectos engenhosos da evolução ocorridas dentro do olho dos vertebrados, há vários caracteres decididamente deselegantes. Por exemplo, a retina está invertida, então a luz tem de passar por toda a sua espessura, através das fibras nervosas intermediárias e corpos celulares que dispersam a luz e degradam a qualidade da imagem, antes de atingir os fotorreceptores sensíveis à luz. Os vasos sanguíneos também cobrem a superfície interna da retina e lançam sombras indesejáveis na camada de fotorreceptores. A retina tem um ponto cego onde fibras nervosas que passam por toda a sua superfície se reúnem antes de canalizar pela retina e surgir por trás dela como nervo óptico. E a lista vai longe.